segunda-feira, 29 de junho de 2009

Saudades

Fulda in Melsungen
Num determinado período da minha vida decidi morar na Alemanha. Não foi uma escolha fácil, mas decisiva. Alguns de vocês poderão me perguntar por que Alemanha? Razões particulares me levaram para lá como também outras igualmente particulares impulsionaram-me a sair daqui. Pois bem, fui. E, após um deslumbramento necessário, e também antes de comprar uma mochila para viajar pela Europa de carona ou trem, comecei a sentir saudades. De início não sabia muito bem do que eu sentia saudades. Ou de quem. Do Brasil, de alguma pessoa em especial? Eu estava longe. Longe de tudos e de todos. Foi quando numa noite ao chegar na estação após uma curta viagem até uma cidade vizinha e caminhar de volta até a minha casa, dei por mim sobre aquela estranha sensação. Eu estava longe, muito longe de mim. Comecei a sentir saudades de quem eu era no Brasil. Mas, eu não havia saído/fugido de uma insuportabilidade para a minha alma? Como agora eu poderia sentir saudades?
Foi caminhando pelas ruas desertas de Melsungen, pequenina cidade ao sul da Alemanha às margens do rio Fulda, que dei por mim. Ou melhor, dei pela minha falta. Faltava muito de mim em quem eu era. Atônito, atordoado, deambulei pelas vielas escuras, atravessei uma ponte, retornei pelo outro lado da estação e me debrucei sobre mim mesmo diante daquela constatação: eu estava desolado na alma. Ir para a Alemanha naquelas condições não me trouxera nenhum alívio, porque agora eu estava diante de um muro das lamentações e, este muro, só tinha um nome grafitado nele: o meu.
Assim, no dia seguinte, compulsivamente comecei a escrever cartas. Não eram quaisquer cartas. Eram cartas vigorosas, apaixonadas, decididas em seu propósito. Todas as cartas só tinham a mim como destinatário e um único endereço: minha casa no Brasil. Tinha medo de não me reencontrar, tinha medo da vertigem de não saber mais quem eu era, tinha medo de ter medo. E, nestas horas, a solidão te empresta o que ela tem de mais cortante para edificar os seus propósitos. A lâmina da saudade. Queria buscar uma pessoa que lenta, mas imperiosamente, desvanecia bem diante dos meus olhos. A cada dia diante do espelho, um pouco de mim se perdia na infinita reduplicação das minhas imagens. Em contrapartida, ainda mais febrilmente eu corria para escrever para mim mesmo as palavras que ainda eram possíveis de serem lembradas do que ainda havia dos contornos da minha imagem.
Devo ter postado mais de mil cartas, cada uma com cinco ou seis páginas escritas com minha letrinha miúda, o que significa que andei escrevendo um enorme tratado de umas cinco mil e tantas páginas sobre mim. Não sabia que tinha tanto assunto a meu respeito.
Depois de me escrever até onde a lembrança alcançava, comprei uma mochila e fui viajar pela Europa. Demorei o tempo da volta de uma enorme e secular roda-gigante até retornar ao Brasil.
Encontrei um maço enorme de cartas amarradas com um singelo barbante e dois nós bem dados por cima das minhas palavras. Ali estavam todas as palavras que não couberam dentro de mim naquela viagem. Elas cabiam uma dentro das outras, uma por cima das outras, irmanadas através da mesma letra.
Achei que elas ficariam melhor assim. Bem amarradas. Afinal, as cartas rascunhavam entre o peso da saudade e a leveza do reencontro.
Agora estão no fundo da minha gaveta. São minhas memórias, um pedaço importante da minha autobiografia. Talvez algum dia você as encontre e resolva levá-las para uma editora. Mas, por enquanto, elas precisam amarelar o risível de um tempo esquecido.

14 comentários:

Anne M. Moor disse...

Que texto bem lindo! Imagino-te lá, só, perdido de ti em um país estranho... Escrever-te foi como foi pra mim, escrever-me em poesia... num momento da minha vida que tinha perdido todo sentido!

Obrigada por compartilhar esta parte de tua vida conosco.

Beijos

Lu Andrade disse...

Que autoconhecimento! A forma aflita de registrar e relembrar, buscar no remoto a si mesmo me comoveu... Confesso que adoraria ler estas palavras lançadas e posteriormente tão romanticamente enviadas... Genial!
Um forte abraço.

Raquel disse...

Amarelar o risível de um tempo esquecido... Que sensibilidade... Quando rirmos disso tudo, você me conta. =)

Bjo,
Raquel.

Raquel disse...

Bela foto...

Silvia disse...

Cartas, e mas cartas, uma "ratatouille" de "mots". Vejo-te assim neste momento. Talvez porque ontem à noite acabei "A Última Palavra".
ELE : autofagia; ELA: reinvenção; AMBOS: um imenso amor. MUUUUUUUito bom, Carlos Eduardo! Tua literalidade é fantástica.

Carlos Eduardo Leal disse...

Querido(a)s amigo(a)s,
Acabei de voltar da Flip. Foi uma viagem literária, gastronômica. Come-se palavras, mastiga-se letras e deglute-se ideias. Assim que pousar ( e descansar um pouquinho, ufa!)comento os 'comentários' de vocês e conto tudo Para...Ti.
Bjs,
Carlos Eduardo

Adriana Guedes disse...

Lembrei-me de Mario Quintana quando descreve paisagens amarelecidas. O tempo muda a cor, a textura, mas jamais a essência. Somos o que somos, mudamos apenas as paisagens que se apresentam sobre nós.
Lindo texto!
Adoro autobiografias, memórias, pq falam de "nós"!
Bj
Adriana.

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
A essência também são os nossos amigos, são o que falam ao nosso coração. Obrigado por você fazer e ser uma parte tão essencial das minhas memórias tão presentes.
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Escrever é preciso como dizia na Flip o Antonio Lobo Antunes. Mas escrever é também nos resgatar naquilo que nos é im-preciso.
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Lu,
Minhas "palavras lançadas" (bela imagem) talvez, algum dia possam ter os destinatários certos.
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
Vai chegar um dia em que estas (e até outras) memórias não serão mais minhas. Aí eu conto tudo. Quem viver verá...rs
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Obrigado pela sua leitura do meu livro e aqui do blog sempre tão sensível. Adorei a ideia do ratatouille de mots.
Bjs
CEL

Ana Paula Gomes disse...

Não há pior saudade que a descrita por vc: a de nós mesmos. Porque parece "O Feitiço de áquila". Parece que por alguns segundos a gente vai conseguir se tocar, se apalpar, se sentir, e no mesmo segundo, a nossa própria imagem que insistimos em resgatar, bum, desaparece. É lindo o texto! Bjs,
Ana Paula

Carlos Eduardo Leal disse...

Ana,
Se ao menos a gente não desaparecer daqueles que nos leem (que pode ser nós mesmos ou nossos leitores)porque parece que o grande feitiço é que na maioria das vezes
"Partes sempre
antes de chegares"
Bjs
CEL