quinta-feira, 11 de junho de 2009

Recado para uma amiga



Escrevi para uma amiga que ela deveria continuar escrevendo da maneira como ela escrevia: "com a lama da alma na ponta dos dedos". Acho que é assim que se escreve quando se escreve algo para além das coisas simples da vida e, ao fazer isso, você acaba escrevendo tantas coisas simples que acaba se perdendo na multidão das coisas comuns. Melhor assim. Evita-se o erro tão comum a quem se destina a escrever: querer se livrar dos seus fantasmas. As coisas comuns sobre a vida comum são as mais difíceis de serem escritas. Por isso, os fantasmas não nos abandonam assim tão de repente. Às vezes, nunca mais. Ao contrário, em muitas vidas eles crescem como o corvo de Poe que assombra cada vez mais o pobre diabo do seu conto. Pobre do escritor que possui a pretensão de guimarãesrosear. Vai se perder nos enigmas dos buritizais antes de chegar a conjugar o verbo certo nas veredas das próprias palavras. Clarice Lispector, por exemplo, escrevia claro como quem escreve com a lama da alma na ponta dos dedos. Tá vendo amiga, com quem acabei de te comparar? Mas, sinto te dizer; você não é Clarice. Ainda bem, pois você tem a chance de ser você mesma e, assim fazendo, habitar outras clarices que existem dentro de você.
Hoje, vinha subindo a serra e escutando "Primeiros erros (Chove)" do Capital Inicial - acústico. Ao final, a letra diz assim:
"Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos meus primeiros erros
Meu corpo viraria sol
Minha mente viraria sol
Mas só chove e chove
Chove e chove."
Pois é, amiga. Nossos primeiros erros ainda estão encharcados com as lágrimas da insciência que costumam escorrer vigorosas nos primeiros anos. Porém, a chuva é necessária pois se o corpo e a mente virassem sol, eles ressecariam desérticos dos Guimarães e das Clarices. É desta chuva que estava falando quando dizia a respeito da 'lama da alma'. Depurar-se através das palavras destas enchentes que nos habitam é permitir se deitar nas folhas caídas de todos os livros lidos. Creio que deveríamos arrancar página após página à medida em que fossemos lendo um livro. A dor da leitura e a emoção indisfarçável seriam nossa vingança contra o escritor por nos fazer sair do conforto que até então habitávamos. Só que arrancar páginas de um livro pode ser tão violento quanto o estupro de um adulto sobre uma criança. Um livro também não pode se defender das nossas molestações. Ler é uma Travessia no meio dos 'redemunhos' da nossa vida. Então, que possamos agradecer ao escritor por nos retirar da harmonia, pois uma vida harmônica é o tédio que se avizinha. A vida harmônica é o Deserto dos Tártaros de Dino Buzzati.
Portanto, querida amiga, saiba que a lama da alma é também conviver com os 'acabamentos' que nunca terminam. Escrever é sofrer da palavra. Ler é contagiar-se deste sofrimento. Diaapósdia, sob a tormenta da chuva ou do implacável sol, com a lanterna sobre o edredom ou debaixo das estrelas. Firmamento é o que há de mais incerto: inacabado como um palavra por dizer que também enlameia os olhos da alma.

7 comentários:

Michelle Nicié disse...

Querido Cel,


Árduo e desértico trabalho esse de escrever “com a lama da alma na ponta dos dedos”. Algumas imagens que aparecem o texto são belas: o arrancar das páginas de um livro à medida que fossemos lendo, a convivência (com vidência) com os 'acabamentos' intermináveis, a escrita como pathos da palavra, a leitura como contaminação, contágio deste sofrimento. Aí vai um lapidário das coisas menores e insignificantes... beijos...
“APRENDO COM ABELHAS QUE COM AEROPLANOS
É UM OLHAR PARA BAIXO QUE EU NASCI TENDO
É UM OLHAR PARA O SER MENOR, PARA O INSIGNIFICANTE, QUE EU ME CRIEI TENDO.
O SER, QUE NA SOCIEDADE É CHUTADO COMO UMA BARATA – CRESCE DE IMPORTÂNCIA PARA MEU OLHO.
AINDA NÃO ENTENDI PORQUE HERDEI ESSE OLHAR PARA BAIXO.
SEMPRE IMAGINO QUE VENHA DE ANCESTRALIDADES MACHUCADAS.
FUI CRIADO NO MATO E APRENDI A GOSTAR DAS COISINHAS DO CHÃO – ANTES QUE DAS COISAS CELESTIAIS. PESSOAS PERTENCIDAS DE ABANDONO ME COMOVEM:
TANTO QUANTO AS SOBERBAS COISAS ÍNFIMAS.”
Poeta Manoel de Barros.

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle,
Obrigado pelo Manoel de Barros e de tantas outras coisas simples, mas essenciais. Tive o prazer de conhecê-lo lá no Pantanal, com seu olhar enviesado da vida, olhando para o chão de estrelas/minhocas, lagartixas, cacos de azulejos destemperados e caracóis que cantam em barroco alemão.
bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Cláudia,
A Cora Coralina não é a alma feminina do Manoel? Ou o Manoel que é a alma feminina da Cora? Que importa? Importa é que dentro de todos nós pode viver...
"Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos."
bjs

Raquel disse...

Querido Carlos,

É desta profunda leitura de uma história recontada, com o estômago que tantas vezes se embrulha no caminho, que pretendo pegar a caneta ou me apoiar no teclado do computador com a inspiração à flor da pele. E cada vez que consigo retirar a harmonia de quem lê um sentimento, refaço meu acabamento, formado por minhas descontinuidades constantes.

Obrigada pelas palavras de incentivo. Mas não se preocupe. Isso vicia. Essa coisa de escrever com a lama da alma na ponta dos dedos... É como se meus dedos ganhassem o poder de decisão sobre mim. Nada posso contra eles quando desejam marcar o papel com sua lama...

Espero que meus dedos se tornem eu mesma. Quando isso acontecer, poderei escrever inteiramente como "eu". Até lá, vou nos rabiscos, traçando sombras do meu perfil, insinuando a independência das mãos que me apoiam...

Bjs,
Raquel.

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo,
Escrever com a lama na ponta dos dedos (que imagem bela) é viciante. Ler o que escrevemos com a lama e nos reconhecer no meio dela é tão surpreendente quanto nascer!!!
Me escrever tem sido uma lição de vida. Tem me ensinado a perdoar, a me entender melhor, a enxergar além da lama... O meu eu aparece flutuante em cada escrito meu e seguidamente não me reconheço!!!

Beijos. Adorei seu texto.

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
O vício da palavra é de um prazer que nos suplanta. Por ela (a palavra) somos seduzidos ou até mesmos abduzidos. Você sabia que existem palavras alienígenas que nos transportam para outras galáxias? Você já esteve apaixonada? Está começando a entender quem elas são. Cuidado, muito cuidado ao escrever e olhar para o céu. Nunca se sabe o que vem de lá...
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
É realmente muito bom quando nos damos conta do poder mágico, quase inverossímel da escrita. Terapêutico, desterritorializado ou desbussolado, tanto faz. O que realmente importa é avançarmos sobre a cena da vida quotidiana.
bjs
CEL