sábado, 13 de junho de 2009

O ciúme

Cecília puxou repetidamente o decote da blusa com a ponta do indicador direito. Isto era um sinal claro da sua impaciência com o atraso de Oswaldinho. 'Filha única de dois casamentos'. Seu pai havia abandonado sua mãe logo após o seu nascimento, mas ela rapidamente arranjou outro marido/pai. Assim ela se definia: filha única, meio órfã, meio adotada de dois casamentos. Cresceu entre a saudade do pai biológico (que se mudou para a Escócia para trabalhar num barco pesqueiro) e o mimo exagerado de sua mãe e do pai adotivo. Ciça era mimada como a primeira boneca é para uma criança pequena. Soava mais à infantilização do que ao mimo, ou melhor, o excesso de proteção acalentava a vontade suprema de ser eternamente cuidada tal como um bibelô. Assim, exigia dos homens que cumprissem à risca os seus caprichos. Com o pobre do Oswaldinho não era diferente. O rapaz esforçava-se para atendê-la em seus mais inusitados pedidos. Parecia um astro da música em tournée pelo Brasil. No meio da noite cismava e pedia: "Quero um milk shake de baunilha com flocos de castanha por cima". "Quero que você me leve na casa da vovó antes dela ir para a missa de domingo". "Quero que você massageie os meus pés porque eu estou muito cansada". A todas estas tirânicas exigências, Oswaldinho tratava de cumprí-las à risca, apaixonado que era pela 'minha doce Ciçazinha'. Parece que ele incrementava na menina o estrago que a educação dos pais havia feito desde que ela ainda era uma criança. 'Cresceu cheia de vontades', diziam os avós, mas ninguém, nem mesmo eles, tinha coragem de dizer um único não para não contrariá-la.
Mas aconteceu que certo dia ao sair da faculdade, Estela - ah, a menina mais bonita da faculdade -, pediu carona ao Oswaldinho. Este bem que pensou na hora em recusar com o temor de que Cecília o visse com a espetacular loura mais cobiçada do pedaço. E aconteceu também, assim quis o destino, que Cecília fosse justamente naquele dia, coisa que nunca fazia, pois era smpre ele quem deveria buscá-la, fazer uma surpresa ao Oswaldinho encontrando-o na porta do estacionamento da faculdade. E como estas coisas acontecem num efeito cascata, Estela não conseguia prender o cinto de segurança e, com todo o jeito, mas muito sem graça, Oswaldinho virou-se na direção da loura para prender o cinto dela. Pois foi justamente nesta hora que Cecília viu a cena. Os longos cabelos de Estela encobriam o rosto de Oswaldinho que, de longe, parecia debruçado sobre o seio da menina. Ao ver esta cena, Cecília ao invés de ter um ataque histérico (era o que todos temiam pela sua iracunda fúria), caiu desmaiada como um pato selvagem abatido em pleno voo.
No dia seguinte Cecília não foi para a faculdade. Amanheceu com uma febre escaldante saída diretamente do Saara. Nem no outro dia e nem mesmo no outro e nem o resto da semana. Cecília podia ser extremamente mimada, mas par manter-se como primeira em tudo, er também aluna dedicadíssima. Jamais faltava a aula. A coisa deveria ser muito grave. Sua mãe ficou extremamente preocupada, chamou o médico da família que não descobriu nada, apenas fadiga pelas noites insones.
Oswaldinho chegou apreensivo na sua casa na sexta-feira por volta das 18:30h. Assim que ela o viu debulhou-se num tsunâmi de convulsões estarrecedoras. Por dentro gritava 'filho da puta, cretino, traidor', mas diferentemente do seu cotidiano tão falante e autoritário, não conseguia emitir nenhum som, nem uma única palavra sequer. O que ele ouviu foi um som gutural, quase balbuciante, que parecia com 'não me deixe', mas ele não entendeu. E não entendeu não só porque era cavernoso o seu falar, principalmente não entendeu nada porque ela nunca havia chorado ou mesmo abaixado o nariz da sua arrogância. Não entendeu porque quem era o submisso era ele, aliás, eram todos. E todos estavam estupefatos com o evento prá lá de incomum.
Deste dia em diante, Cecília não quis mais se arrumar. Andava largada, olheiras profundas, mal penteava os cabelos e olhava alucinada em todas as direções como se procurasse alguma coisa. Porém ela não dizia o que era. Achava que todas as mulheres eram mais bonitas do que ela. Na verdade ela foi tratando de fazer com que isso se realizasse, pois o seu desleixo chegou ao ponto de ficar alguns dias sem tomar banho. Fedia a pobre menina rica. Os braços estendidos sem viço ao longo do corpo demonstravam a sua falta de energia para com a vida. Era o inferno do ciúme. O inferno do amor possessivo, doentio.
Estava com depressão, atestou o psiquiatra. Qual era a causa? Toda patologia tem que ter uma causa, o médico investigava, investigava mas não encontrava a etiologia para tamanha falta de vontade de viver. Receitou-lhe a fluoxetina que é um medicamento antidepressivo.
Por insistência do padrasto foi procurar uma analista. Já na primeira sessão conseguiu balbuciar uma única palavra arrancada quase que à fórceps. "A outra, a outra". Foi isso. Na verdade foram duas palavras, ou melhor, uma repetida duas vezes. E só. Pela primeira vez na vida e, por um fato fortuito, na verdade irreal, Cecília descobriu que havia deixado de ser a única. Descobriu pela forma mais dolorosa que no mundo haviam outros/outras. E o ciúme, esta abissal intrusão do outro/outra na cena do seu 'eu' uno e até então indivisível, estraçalhou-lhe o coração e a vida tornou-se um brutal cinza-despedaçado. Oswaldinho não aguentou a pressão do interminável interrogatório e foi saindo de fininho. Cecília piorou. Sua suspeita tornara-se realidade.
Algum tempo depois surgiu por detrás do carro de Oswaldinho que estava parado diante da casa da Estela, aquela 'estrela de merda', que é como passou a se referir à rival. Cecília estava com uma faca na mão e, com extremo requinte, riscava a lataria do carro de seu ex-submisso. Não satisfeita, furou os quatro pneus do carro e só parou porque algumas pessoas na rua vieram ver o que estva acontecendo. Deixou o local do crime como se não tivesse acontecido nada. Isso era um nada para ela diante do que estava sentindo: largada, desprezada e abandonada. A sua vontade era arrancar os olhos da loura, mas preferiu conter-se um pouco. Ao menos por enquanto. Por hora deixaria apenas os dois a pé. Saiu satisfeita com sua catarse. Uma vencedora solitária. Nunca sentira esta estranha sensação.
Perdera a mania de puxar o decote da blusa com o dedo indicador. Estava mais autoconfiante, menos ansiosa e menos arrogante. Acabou descobrindo que o desdobramento do ciúme pode ser a inveja.
E, foi assim que os verbos ser e ter fizeram carne e passaram a fazer morada na outra vida que Cecília começava a dar existência a partir daquele dia. Podia não ser uma vida melhor, mas era diferente. Muitas vezes caminhava deambulante, sem rumo, mas caminhava com as próprias pernas. E isto para ela bastava.
Foi esta história que um dia ela me contou.

19 comentários:

Adriana Guedes disse...

Toda mulher tem uma Cecília dentro de si!
É possível que um pneu furado fosse o suficiente pra umas, para outras, os olhos também cairiam bem...rsrsrs
Por que não puxava mais o decote com o dedo indicador?
ADOREI ESSA NARRATIVA À NELSON RODRIGUES!
Abraços deambulantes,
Adriana.

Rosa Maria disse...

Querido Carlos Eduardo,
Acabei A Última Palavra, e o li de forma compulsiva do 18º escrito em diante, sabendo intuitivamente qual seria ela, a última palavra, para cada um deles, mas querendo identificar seu conteúdo! Parabéns! Deixei na minha mesa de cabeceira para a releitura devagarinho, como gosto, curtindo cada parágrafo! Vou fazer a divulgação bocaABoca! Ah, transcrevi a dedicatória virtual para o livro, mas não a assinei! Mantenho a esperança de que a msg se complete qualquer dia de forma autêntica! :))) Também gostei demais deste texto sobre o monstro dos olhos verdes, que a todos assombra em um momento ou outro da vida, e concordo que às vezes furar os pneus não chega! :) Já A Tentação do Salto me remeteu aos meus queridos Mário de Sá-Carneiro, tb lembrado em A última Palavra, Florbela Espanca, Sílvia Plath e Serguei Iessiênin, este com seu último poema escrito com o próprio sangue... Impressionante como as palavras parecem estar em ebulição dentro de ti, e se jorrarem, com maestria, em diferentes matizes, tons e texturas sobre tudo o que diz com a nossa humanidade! Renovados parabéns! Grande beijo. Rosa.

Carlos Eduardo Leal disse...

Querida Cecília, ôps, Adriana, rs
Eu também em alguns momentos sou outro/outros,
Bjs
Nelson R.

Carlos Eduardo Leal disse...

Rosa,
Que prazer e que honra você ter fôlego para ler meu livro. Agradeço teu carinho e tua leitura, atenta e sensível ainda mais as comparações com F. Espanca. Silvia Plath e S. Iessiênin (tb meus ídolos), que com os joelhos ralados retorna para casa depois de um dia intenso. As palavras ao mesmo tempo em que muitas vezes me desolam, me reenviam também para a morada interior.
Bjs
Carlos Eduardo

Raquel disse...

Oi, Carlos,

Que deliciosa descrição de uma descoberta... As libertações femininas são sempre inspiradoras... principalmente para as mulheres... rs

Usei o nome (sensacional) do seu blog em meu último texto... espero que não se importe.

Grande beijo,
Raquel.

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
Adorei que o veredaspulsionais tenha ido passear pelos seus textos. Claro que não me importo. As palavras, uma vez escritas, alcançam voos sem fim. Te deixei um recado lá.
Bjs
Carlos Eduardo

Anne M. Moor disse...

O momento de se descobrir pode vir a qquer tempo, quase sempre com dor!!

Engraçado... nunca tive esse ímpeto de querer rasgar pneus... :-) De outras coisas certamente! Esse tirar o nariz de dentro de seu próprio umbigo é tão mas tão necessário pra crescer...

Lindo conto! Tão real!

Beijos

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
A dor é a guardiã da lucidez. Mas certamente, crescer é o que nos traz a dor. Descoberta de novas veredas, inventadas ou possíveis.
Bjs
Carlos Eduardo

Silvia disse...

Dizem que o ciúme é verde e que destila pelos cantos da boca. Teu texto amplia este retrato e o coloca numa moldura de ódio pulsional. Que coisa, menino!

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Adorei esta tua imagem da "moldura de ódio pulsional". Vou guardá-la para outros 'ciúmes'...rs.
Obrigado por me visitares aqui. Volte sempre.
Com carinho,
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Ainda Silvia,
Pois é, Otelo parece que sempre nos acompanha para estas questões do ciúme passional. Shakespeare é um mestre sobre as paixões e tragédias humanas.

Anne M. Moor disse...

E o ciúme é o câncrio das relações amorosas, sejam elas quais forem... Não é?

Bom dia a todos!! :-)

Carlos Eduardo Leal disse...

Bom dia Anne,
Com certeza!
E talvez o ciúme seja o metrônomo que dita o compasso dos solfejos das nossas relações. Às vezes desafinamos, desandamos, noutras...'magnificat'!
:)
Bjs Carlos Eduardo

Anne M. Moor disse...

E, Carlos Eduardo, "Lucidez é um acesso de loucura ao contrário." rsrsrsrsrs

Beijos

Silvia disse...

Ciúme como metrônomo. Fantástico! Aquele tic-tac monocórdio pode ser dilacerante, constante, mas nos conduzir a um Magnificat fortíssimo.Já vivi isto!

Patricia disse...

O ciúme é uma forma de vírus, uma bactéria que nos toma e se instala . Em seu maior ou menor grau, nos destitui... O problema é que não há vacina que nos proteja desse embondo!
Lindo o seu texto! Se um dia ela te contar mais alguma coisa, me diga... Ela é tão intensa quanto minha irmã Cecília...rs

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
As fronteiras entre lucidez e loucura são, na verdade, muito tênues. Muito bom isso da lucidez ser um acesso de loucura ao contrário.
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
O tédio é aquela relação que parece um canto chão típico dos monges beneditinos. Ir num domingo no mosteiro de São Bento ouvi-los cantar é uma maravilha, mas todo dia...argh. rs

Carlos Eduardo Leal disse...

Patrícia,
Nem toda a psicanálise do mundo conseguiu produzir um anti-vírus para o ciúme...rs
Se ela contar outras e em breve vai, eu escrevo. Abçs p/ sua irmã Ciça rsrs
bjs
Carlos Eduardo