domingo, 18 de março de 2012

Arqueologia da Memória

 

Estava só em meu sorriso quando senti a tua presença. Meu coração desatou a correr como um bólido pelos campos da fertilidade perdida. O sangue percorreu meu corpo resgatando as cores e os cheiros da adolescência. Senti pulsar o mundo como um vulcão a jorrar suas lavas pela primeira vez rompendo o hímen da terra virgem.
A sala em penumbras. Coloquei o nosso preferido da Nina Simone. Deixei apenas um fundo musical. Abri um tinto. Teu perfume invadia aposentos adormecidos pela memória. Abri as janelas e deixei a brisa da noite entrar. A lua tremeluzia entre nuvens, alva como recendia tua pele. Acendi um havana que havia guardado para ocasiões como esta. Havia festa novamente em mim. 
Voltei à minha poltrona. Tomei nas mãos trêmulas o livro que me esperava aberto. A luminosidade amarela do abajur fraquejava a memória.
Após mais de oitenta anos voltei a sentir um lampejo de felicidade na memória olvidada. Meus olhos, ainda brilhantes pelo ocorrido, voltaram a repousar sobre Álvaro de Campos: "vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir."

sexta-feira, 16 de março de 2012

O rio dentro do menino

 
Chong Fah Cheong - River Children 

Quando era menino, gostava de empurrar meus amigos para dentro do rio. O que eu não sabia é que eu mesmo era o rio. E, assim, devagar e aos poucos, me povoava de amigos inseparáveis que desciam em meus afluentes vida afora. Compartilhavam comigo as horas felizes no sitio de meu avô. Vez por outra um saía às margens e roubava uma tangerina e voltávamos a descer. Olhar o céu de barriga para cima, correnteza abaixo, era uma de nossas maiores travessuras. Não sabíamos o que nos esperava tororoma abaixo, mas mesmo assim, sabíamos um pouco melhor sobre o céu que nos acolhia.


Quando eu era menino tinha saudades do futuro. Agora que cresci, olho minhas imagens e não me reconheço mais entre aqueles. Eu era todos e também nenhum.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Palavras


Das palavras não guardo distância alguma. Nem quero porque quando quis me perdi. Foi assim: era criança e não sabia da carência da palavra em não ser escrita ou escutada. Entrei matadentro e não ouvi quando meu vô me chamou. Fui ganhando terreno, mas perdendo em referências. A voz do meu vô era bússola para mim. Sem norte, a noite avançou e comecei a distanciar-me de mim. Ao longe ouvia um cachorro uivar. Tive medo. Medo porque não tinha mais com quem falar. Então, comecei a falar comigo mesmo e a escrever na terra o que eu não sabia. Foi o que me salvou. Deste dia em diante não parei mais de inventar histórias (que me servem de bússolas) e de escrevê-las. Meu vô, onde estiver,  ainda ri das minhas sandices.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Estrangeiro

  

Sou sempre estrangeiro das minhas palavras.
A cada vez me apresento como se não as conhecesse.
E recomeço a cada dia com uma palavra nova em meus olhos.
É preciso namorá-la, digo para mim mesmo.
Então pego lápis, papel, óculos e talvez o notebook.
Escrevo seu nome uma enormidade de vezes até que não seja mais um nome, mas uma parte de minha pele.
É quando me sinto totalmente vestido da nova palavra que me despeço das roupas. E a cada nudez é uma parte de um texto que começa a brotar até que meu corpo todo se torne um livro para sua leitura.
Quanto menos visível estou, mais nítidas se tornam minhas palavras. 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

A horta de minha bisavó



Minha bisavó plantava palavras na horta. Era pra ser escondido de todos. Pra que isso, vó? perguntei inquieto. Bisbilhotice de menino que descobre segredo proibido. O que você faz aqui a esta hora, menino? To espiando vó. Só isso, respondi encabulado. Ela descansou a terra sob suas mãos e sorrindo disse: letras, palavras que precisam ser adubadas. Elas um dia vão crescer e virar histórias. Como as que a senhora conta? Melhores, meu neto. Impossível porque as da senhora possuem a sua voz melodiosa.
Seus olhos encheram d'água. Com as mãos negras de terra me afagou os cabelos. Duas ou três letras rolaram pelo meu rosto. Ainda não formavam uma palavra, mas senti o gosto de uma intrigante história por vir. Que história a senhora está plantando, vó? A fantástica história de um menino bisbilhoteiro. Cúmplices, sorrimos com os olhos.
Com as mãos trêmulas de emoção abri um buraco na terra adubada e ajudei a me plantar algumas palavras...

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Sonhos


Do alto de meus intervalos, abismei um olhar sobre o mar: ondas varreram minhas praias, noites ofuscaram meu cansaço, minhas mãos trêmulas decantaram desamparadas sobre frágeis inspirações. Alisei uma pedra como se fosse uma lâmpada mágica. Desesperança: não saiu um gênio de seu interior. Nenhuma palavra. Mas eu queria falar para os intervalos que me habitavam. Reuni todas as forças e gritei o mais alto que pude. Uma, duas, muitas vezes. Não houve resposta. O silêncio sempre é uma resposta, habituei. Os silêncios são meus intervalos, deduzi. As ondas continuavam a bater contra meus ombros. Estava cansado do dia. 
Deitei sobre a luz que ainda havia. Esperei que a noite pudesse a-dor-mecer os insultos e os temores infantis. Sonhei...

domingo, 29 de janeiro de 2012

Adeus palavra-saudade


Adeus palavra-saudade.
Aqui me despeço de ti. Não sei se tornarei a vê-la.
Se o tempo /
Caminhar além do tempo, e os braços além dos abraços /
E minha mão pender solo em meu voo, não procure explicações.
O sentido das coisas perdidas não é o mesmo do que separo com certo zelo desmesurado para guardar.
Quando caminhar procurando cheiros olvidados /
Metáforas distorcidas /
Lençóis ensanguentados /
Nada vais achar.
Se a dor /
For implacável, mesmo assim não olhe pra trás,
Muito menos procure acasos ou desesperos em meus olhos.
Não contamines as outras palavras tão minhas. Não queiras roubar uma lembrança que já não há.
Por acaso, roubarias o silêncio do silêncio?
Ou pouparias da dor o desespero?
O vazio ocupa a sala central e a ruas adormecem sem ti.
Adeus palavra-sentida.
Adeus.