quarta-feira, 24 de maio de 2017

Os pais


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OS PAIS

Bernardo atravessou a sala correndo em busca de socorro. Não gritava talvez por falta de ar. Talvez porque, ainda pequenino, não soubesse usar o tamanho dos seus passos com a velocidade pretendida. O fato é que não achou ninguém ao redor. Foi até a cozinha e lá estava Hercília, a antiga empregada que já vira uma geração inteira nascer e agora acompanhava com gosto o crescimento dos meninos.
- Lila! Lila! Lila! Gritou mais forte o menino de apenas três anos.
Sem demonstrar espanto, prevenida pela idade com a gritaria de gralha dos miúdos, a generosa Hercília resmungou qualquer coisa afetivamente como se dissesse: acalme-se menino. Não precisa ficar tão afogueado assim. Tudo vai passar. E, como se Bernardo adivinhasse o pensamento de Lila, gritou batendo as perninhas no chão:
- Jan quebou. Jan quebou tudo. Vem logo. Vem Lila!
- Quebrou o quê, menino? Vamos, diga porque estou atrasada preparando o almoço.
- Quebou o quato dele. Tem sangue! Muito sangue nele!  Bernardo, irmão mais novo de Jean Paul com 13 anos e Lívia, com 8, ainda não conseguia pronunciar o “erre”. Era o ‘Cebolinha’ da casa embora o caçula nem soubesse de quem se tratava: o dos quadrinhos ou o tubérculo.
Estavam de férias, nenhum dos três tinha hora para coisa alguma, mas Hercília gostava de manter a tradição geracional de servir o almoço pontualmente sempre às 12:30hs. Quando estavam em aula, JP e Lívia que já estudavam de manhã, almoçavam mais tarde, por volta de 13:00hs. Bernardo ainda almoçava 11:30h por causa da condução que o levava à escola. Hercília organizava a casa com precisão suíça como já havia feito durante muitos anos na casa dos pais de Juliette. A mãe tinha 38 anos, era uma arquiteta famosa pela sua criatividade e ousadia tanto nos projetos arrojados quanto na ambientação da casa: o prestigiado design de interiores. Gostava de misturar coisas simples encontradas em antigas fazendas em demolição com o pós-moderno criando ambientes que davam um sutil toque de rústico-chic. De descendência francesa, Juliette Bell-Ambroise, nasceu no Brasil porque sua mãe que era voluntária na França dos Medecins sans Frontieres, os médicos-sem-fronteiras. Veio ajudar e dar capacitação para uma comunidade carente próximo a Crato, no interior do Ceará. Interessava-se pelo Brasil porque nos anos 30, seu avô viveu aqui como diplomata. Gostava das histórias que ele contava para sua filha, a Petite Juju, como era carinhosamente chamada por ele. Apreciava também a sonoridade da língua e principalmente a música. E foi ficando.
Juliette Bell-Ambroise nasceu em Recife no dia 13 de junho de 1978, dia de Santo Antônio. Juliette, a francesinha, era tipicamente uma parisiense descolada. Bolsa a tiracolo, vestidos multicoloridos, olhos de lápis-lazúli e cabelos de fogo caídos com suavidade sobre os ombros. Esguia, sardenta e sempre com um sorriso franco em seus olhos que conquistava com sua simpatia, qualquer um por onde passasse. Era bom ouvir seu falar recifense-cantado com um quê de sotaque francês oriundo de sua casa. E foi em Olinda, dançando quadrilha no meio da rua em plena festa de seus 19 anos, que Juliette encontrou Chico Só no meio da rua, no início da vida.
Chico era órfão de pai e mãe. Quando o pequeno Francisco tinha apenas 3 anos, idade atual de Bernardo, seus pais morreram num trágico naufrágio no Rio São Francisco. Das 82 pessoas a bordo na embarcação, apenas Chico e mais seis pessoas sobreviveram. Antônio, seu pai, conseguiu amarrar o menino numa boia e implorar para que o salvassem. Cumpriu-se o pedido, mas não se evitou de chamá-lo de Chico Só. Chico era festeiro, adorava cerveja e pinga e dizia que uma era o tira gosto da outra. Não se sabia bem se a cerveja era o tira-gosto da pinga ou vice-versa, mas talvez justamente por isso, o fato é que estava sempre alegre. De barba sempre por fazer, nariz afilado, olhos negros, profundos, cabelos encaracolados e magro, como se estivesse sempre com fome. Chico tinha 20, estudava jornalismo e, entre uma cerveja, beijos e passos desequilibrados de frevo, os dois juraram amor eterno.
Descobriram inúmeras coincidências: estudavam na mesma universidade em Pernambuco, gostavam das mesmas músicas, da necessidade imperiosa de olhar as estrelas, buscavam um amor que não se liquefizesse após o álcool e tinham o mesmo desejo de morar no Rio de Janeiro.
Chico Só, terminou jornalismo um ano antes de Juliette que tinha ido fazer um curso de design de interiores em Milão com uma bolsa de estudos que havia recebido. Foram os oito meses mais longos para os dois. Nunca haviam se separado nem por um único dia. E, como há 18 anos atrás ainda não havia internet, facebook e WhatsApp, telefonaram-se o quanto podiam e o dinheiro dava. Não raro as contas explodiam e permaneciam em angustiante silêncio. Sabiam que o curso era importante para Juju e como ela mesma era muito determinada, nada a impediria também de o fazer. Sabia o que queria para sua vida profissional, embora também soubesse desde cedo que encontrara em Chico um homem para dividir a vida. O sonho de uma vida a dois divinamente equalizada era a garantia de uma trilha sonora feliz para o resto da vida. Assim se sonha, assim se vive quando se é jovem, e também se acorda para a realidade um pouco mais dura da vida.
Hercília tirou o avental e subiu rapidamente as escadas em direção ao quarto de Jean Paul. Havia sangue para todo lado. JP estava sentado no chão, branco como cal. Não dizia uma única palavra. Em sua mão direita um caco de vidro e no esquerdo um corte na altura do pulso. Lila deu um grito de socorro ao mesmo tempo em que levantava JP para levá-lo para ao banheiro. Colocou o braço de JP debaixo d’água na pia e logo viu que a extensão do corte não era tão grande.
- Acalme-se, meu filho. Vou cuidar de você. 
Lila secou cuidadosamente o ferimento, abriu o armarinho embaixo da pia e lá achou o que precisava: mercúrio cromo, gaze e esparadrapo. Quem tem criança pequena em casa sempre tem estas coisas, mas sempre pensando em machucado e não em tentativa de suicídio, pois era isso que à primeira vista aparentava. Levou JP de novo para o quarto e só então foi que viu que Lívia estava acocorada no canto da cama chorando muito.
Era este um drama cotidiano, ou havia algo mais por detrás dos longos cabelos dourados de Jean Paul?
- Tá doendo, manico? perguntou Bernardo muito apreensivo. JP não dizia nada. Talvez envergonhado do que havia feito, o fato é que se mantinha cabisbaixo ajudado a recolher-se em sua caverna pela vasta cabeleira que encobria o ato quase fatal e o rubor.
Hercília virou-se para Lívia e disse com ternura: Lili, preciso cuidar de seu irmão, depois falo contigo, está bem? Lívia olhou para sua guardiã como quem pergunta o porquê da vida desistida. Lívia, em seus oito anos começava a sentir que alguma coisa não ia bem com seu irmão há algum tempo. E recordou-se quando ele se trancou dentro do quarto no ano passado e lá ficou durante quase o dia inteiro. Quando os pais resolveram arrombar a porta ele abriu e seu rosto era de estranha e angustiante calmaria ao contrário de todos na casa. Na época, Lívia durante o ‘dia infeliz’, como seus pais passaram a chamar aquela data, pensou que ele tinha perdido a chave, ou estivesse dormindo, ou ainda que seu irmão mais velho tivesse fugido pela janela dentro de uma nave intergaláctica. Jean Paul aos 13 era viciado em jogos eletrônicos e música clássica. Sem saber o porquê, Jean Paul adorava Vivaldi, Bach, Mozart e achava a nona sinfonia de Beethoven algo de outro mundo. Ode to Joy de Beethoven e As Seis Suítes para Violoncelo de Bach, eram seus temas favoritos.  Lívia, que estava no auge do aprendizado das letras, gostava imensamente de livros e revistas coloridas próprias para uma menina de 7 anos. Chico Só contava para a filha algumas aventuras de Monteiro Lobato. Bernardo ainda estava nos blocos de montar, rabiscar cores nas folhas e algumas vezes experimentá-las nas paredes do seu quarto e assistir avidamente desenhos na televisão. Bernardo era luz solar, Jean Paul, crepuscular e Lívia ainda flanava nas nuvens azuis num dia de outono. Como toda família, havia algumas turbulências, mas nada que beirasse o ato suicida cometido por Jean Paul nesta manhã de terça-feira. Hercília não sabia o que fazer e os dois irmãos estavam atônitos. Aliás, neste caso só havia mais uma coisa a fazer e, urgentemente: ligar para os pais.
Hercília, sempre tão comedida e de atitudes não intempestivas conseguida através dos anos de experiência naquela família, estava com a voz abafada, embargada e gaguejante ao telefone.
- Juliette. Dona Juju.
- O que foi, Lila? Por que esta voz assim? Mãe sempre percebe e fareja a raposa perto do galinheiro.  Mas desta vez o ferrão vinha de dentro de onde se esperava tranquilidade e mansidão.
- A senhora precisa voltar para casa.
- O que foi? Diga! Você está me assustando, Hercília. Alguma coisa com as crianças? Como uma mãe consegue? Como ela pode pressentir o mal a rondar-lhe a paz capturada no exercício diário com os filhos? 
Hercília não sabia mentir. Ao menos quando se tratava da segurança das crianças. Era uma mulher fiel aos seus princípios e sabia muito bem da importância do lugar que ocupava naquela família. Era ancestral e hierárquica. Era firme e doce com os pequenos. Era a segurança para que Juliette e Chico Só saíssem para trabalhar. Cuidou de Juliette e agora cuidava dos filhos dela. Generosa, cabelos já quase todos grisalhos e um pouco encurvada pelos dias diante da pia e do fogão, gostava do que fazia e tinha prazer em vê-los crescer como se fosse seus.
Havia casado muito nova, mas descobriu em Dermeval o sabor amargo da traição. Ele era um galinha, dizia furiosa. Mas, depois, sorria vitoriosa e completava: o machinho aprendeu de uma vez a lição. Ela nunca contou e ninguém nunca ousou perguntar o que ela havia feito. Porém, o sorriso irônico de vitória indicava uma vingança à altura da traição. Não teve filhos, mas cuidou de Juliette como se fosse sua e, agora, cuidava dos filhos da patroa como se também fossem seus. Ao longo da vida teve muitos namorados. Mas sabe-se que sua grande paixão foi o Val, como ela assim se referia a ele. Uma mulher não esquece sua grande paixão, costumava dizer. Um homem que faz uma mulher se sentir verdadeiramente uma mulher, vai ter um lugar de amor ou ódio em seu coração para sempre. Medéia que o diga.
Quando Hercília conheceu Dermeval, ele fazia teologia para se tornar pastor da Igreja da Eterna Salvação. Comunidade evangélica criada pelo pai de Dermeval, o famoso Pastor Epaminondas. Homem bom, correto, de boa família, Hercília, também temente a Deus, jamais imaginou que a casa atrás da igreja fosse um reduto em que Dermeval ‘cuidava’ espiritualmente de suas apóstolas. “Elas precisam de orientação espiritual”, dizia o safado. Afirmava que a virgindade era um dom divino e que só “deitaria na cama após o sagrado casamento. Amém?” Hercília, que era muito fogosa em sua adolescência, a tudo escutava e, com o coração em brasa esperava ansiosa pelo desfraldar das velas e se lançar no mar dos seus desejos mais secretos. Val dizia, reinventando a Bíblia, que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso porque comeram do fruto proibido antes do tempo. Hercília, maravilhada, a tudo ouvia em puro êxtase aquelas sábias palavras que saíam como mel da boca do homem que ela havia decidido se entregar. Nós somos um em Cristo, dizia. E achava lindo ele se guardar também para ela. Juntos iriam descobrir o fogo que já lhe queimava o peito quando ficavam um pouco a sós.
Mas eis que o destino prega suas peças e um belo dia, a própria mãe de Hercília pediu que sua filha lhe acompanhasse à casa de oração para buscar o xale que ela havia esquecido no culto dominical. E, sabendo que a porta da igreja da frente já estava fechada, passaram por uma pequenina porta lateral, rodearam a pequenina casa de aconselhamento espiritual quando ouviram umas risadas. Antes que Hercília falasse alguma coisa, Dona Esmeralda tapou-lhe a boca e fez com o dedo em riste um sinal de silêncio. Avançaram até uma pequenina janela em basculante que ficava entre a casa e o muro. E eis que as duas não conseguiram se conter diante da cena e, como se houvessem combinado, gritaram em uníssono o mesmo palavrão. Hercília correu para o outro lado e gritava para que Dermeval abrisse a porta. A vizinhança com o barulho da gritaria foi chegando. Na calçada já havia uma pequena multidão que não entendia o que estava acontecendo. Eram pessoas simples que frequentavam a Igreja da Eterna Salvação. - Safado! Safado! Abre esta porta que eu vou te bater muito seu pilantra. Abre se você for homem! Do lado de dentro não se ouvia um único ruído. Foi então que alguém resolveu chamar o pastor. E quando chegou, Rosinha Felícia saiu em disparada lá de dentro cobrindo o rosto de vergonha. Passou pela furiosa Hercília não sem antes levar um puxão de cabelo e uns dois tapas que todo mundo aplaudiu. Nem a força do pastor conteve Hercília que passou por ele antes mesmo que ele dissesse seu famoso, amém? E o que se ouviu foi o que toda pequena cidade de Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano, comentou. A confissão em público durante o culto no outro domingo, fez com que o perdão divino caísse sobre a desconfiança do povo. Além de Rosinha Felícia, mas outras três meninas juravam que haviam sido emprenhadas pelo ‘bondoso’ filho do pastor. O que aconteceu com ele que ficou “doente” durante mais de três semanas em casa, ninguém soube ou ousou perguntar. Soube-se apenas que foi logo após uma inesperada visita ao ex-noivo que este caiu de cama com febre ardente. Ao menos esta era a versão oficial contada pela boca do próprio pastor.   
Foi neste cenário que Dona Esmeralda pegou a filha e as duas vieram tentar a sorte em Recife e acabaram encontrando numa feira, Judith, a mãe de Juliette. Encantadas por nunca terem visto um cabelo louro e uns olhos tão azuis como aqueles, as duas recém-chegadas do árido agreste, ficaram como que hipnotizadas. Assim surgiu a amizade entre elas.
Assim também irrompeu porta adentro Juliette gritando pela Lila.
- O que foi que aconteceu, Lila? Aonde estão vocês?
Estavam todos no andar superior da casa no quarto de Jean Paul. Lívia continuava encostada no canto da cama, Bernardo brincava no chão e JP estava deitado no colo de Hercília que carinhosamente passava a mão em seus longos cabelos louros. Juliette botou a mão na boca quando viu a gaze em volta dos punhos de seu primogênito.
- O que foi que você fez, meu amor? Quem te machucou assim? Não queria acreditar na evidência do sangue no lençol. Não queria acreditar que seu filho pudesse ter atentado contra a própria vida. Assim como não quis acreditar quando sua mãe morreu com uma bala perdida numa comunidade perto da capital. Era a morte em vida naquela cena. Era uma punhalada em seu próprio coração materno. Não existe ex-filha ou ex-mãe, pensou com lágrimas no triste azul de seus olhos.
- Ele se machucou sem querer. Socorreu a aflita Hercília.
- Não foi isso, mãe. E você sabe. Disse Jean Paul levantando envergonhado os olhos. Escondido sob o domínio da tristeza, JP sentia que sua opção de vida, que ora se delineava, não era compreendida por quem ele muito amava: seu pai. Meu pai não gosta de mim. Sentenciou seco.
- Claro que gosta. Gosta a maneira dele.
- Você sempre diz isso.
- Digo porque é a verdade. Ele gosta, só não sabe demonstrar.
- Ah, ele demonstra sim. Demonstra não deixando meus amigos gays virem aqui.
- Mas tem seus irmãos menores...

Jean Paul a cortou bruscamente e saiu do quarto batendo a porta atrás de si. Então Lila contou o que sabia e Lívia contou a sua versão e Bernardo não sabia contar coisa alguma. Só ficou com muito medo do sangue escorrendo do ‘baço’ do irmão.  

domingo, 7 de maio de 2017

A INTERNÉPOLIS

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A INTERNÉPOLIS


Definitivamente, está criada a Internépolis. Isto representa, atualmente, um modo de viver mundial conectado à internet. Não se trata de uma cidade, de um estado e muito menos de um país. Vivemos numa era internáutica onde não damos dois passos - segmento mínimo para nossa caminhada -, sem que olhemos a condição do tempo, o WhatsApp ou o engarrafamento nosso de cada dia. A Internépolis é uma sensação que aponta para dois pontos opostos de uma mesma função: por um lado nos dá a sensação de pertencimento e de ligação à outras pessoas e/ou comunidades, o que nos dá uma sensação de fruição de bem-estar para nosso eu narcísico. Por outro lado, esta mesma conexão, ou falsa conexão, provoca-nos uma sensação de niilismo, redução ao nada, e nos ocasiona um vazio existencial pela percepção de que irremediavelmente estamos sós.
Vivemos numa de conflitos e contradições: numa era de muros sem fronteiras. E ainda não arranjamos uma maneira saudável e sábia de lidar com isso.
O futuro que nos aponta a Internépolis é sombrio e também maquiado ao gosto daquilo que os seres humanos querem ouvir. No entanto, seres-máquinas apelam à razão e a um quinhão de humanidade num mundo onde os 'mass media' predominam com um poderoso excesso de informação com baixíssima formação e domínio de vários aspectos da cultura. Por exemplo, para que aprender idiomas se os aplicativos vão te ensinar a traduzir todas as línguas? Se já temos "home office" com coeficientes de economia espantosos para as empresas, será que em breve não teremos todas as crianças em "homeschooling" (só no Brasil já temos 6 mil crianças sendo educadas em casa) onde os alunos aprendem, no assim chamado "ensino doméstico" através de aplicativos, todas as matérias?
E o que faremos com a socialização do recreio? E o que ensinaremos aos nossos filhos sobre o respeito à fala do outro, o lugar, a vez e mesmo o exercício natural e saudável do diálogo e mesmo as brigas e os primeiros amores? E o que esperaremos da relação já tão difícil, mas fundamental entre professor-aluno?
A Internépolis tem feito do planeta um enorme 'business' com a promessa ilusória de transformar a imagem em riqueza.
O modo como o mundo se polarizou entre correntes partidárias (o renascimento da extrema direita e o levante da extrema esquerda para combatê-la) é um modo de como a Internépolis e os cidadãos se organizam, ou seja, como escolhem, com a astúcia da razão fundamentada em princípios vendidos pela própria rede, como enfatizar, atenuar ou calar(deletar) uma notícia ou uma pessoa de seus contatos. A extrema sensação de poder causada pelo valor imagético e simbólico das palavras, praticamente esvazia sua condição de ser-para-o-mundo. É como se disséssemos uns para os outros a todo momento: se você não fizer parte do meu pensamento político-psico-teo-sociológico, vou te deletar. A ameaça concretizada com um simples apertar de uma tecla ou uma função, faz com que cada um reedite para si o livro 1984 de George Orwell, no qual o Estado fazia isso com àqueles que eram contrários ao regime. Como ainda se faz na China, Coreia do Norte e outros países controlam com mão de ferro seus cidadãos. Simplesmente os elimina da vida e, num passe de mágica aquela pessoa "não te incomoda mais". O próprio Facebook ensina: "Como fazer para que uma pessoa pare de me incomodar". E ainda te dá instrumentos modelos de perseguição e acusação: 'é spam, não devia estar aqui, é impróprio', etc. Será que nos tornamos um 'aparelho ideológico do Estado' Internépolis? Para usarmos a antiga expressão de Althusser?
Como eu dizia, isso dá ao sujeito uma pretensa sensação de poder (eliminar o outro) com a ilusão de que ele possa realmente eliminar o Outro que não existe. Ou que possa eliminar todos.
Assim como os jogos para as crianças não tem mais o "Game Over", são jogos ininterruptos, a televisão também proclama "nunca desliga". E nós? Estamos fadados a nunca mais desligarmos? Os shows "Unplugged", os acústicos, eram ótimos e mais intimistas. Estes também quase não sabemos mais deles.
A Internépolis nos expôs e nos retirou a privacidade em ser íntimos para o outro e para nós mesmos. A perda da intimidade é também a perda da privacidade. Os "nuds" que a garotada faz uns para os outros estão aí para confirmar um certo infanticídio provocado pelo excesso de exposição. O fim da inocência tem sido decretado diariamente pela Internépolis. Nossa civilização do espetáculo prima pelo fim da singularidade. Das infindáveis selfies às listas intermináveis de gostos e predileções, abrimos o cardápio de nosso convívio silencioso com nós mesmos para um turbilhonamento ruidoso e escancarado, uma mostração sem fim de uma espetáculo de puro prestígio e tentativa de reconhecimento.
O grotesco neste espaço infinito e tempo super escasso de nossa Internépolis, não é bem a exposição ao outro, mas a perda da capacidade de nos espantarmos com tudo isso e, principalmente, a impossibilidade de fazermos um luto pela perda daquilo que é íntimo, privado, singular e pessoal: a dimensão do tempo nos foi roubada e jogada para dentro de um espaço ilimitado e ninguém percebeu.
Carlos Eduardo Leal
Psicanalista e escritor


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

VEREDAS: TRANSMISSÃO EM PSICANÁLISE Seminário: Os quatro conceitos fundamentas da psicanálise e o mal-estar



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VEREDAS: TRANSMISSÃO EM PSICANÁLISE
Seminário: Os quatro conceitos fundamentas da psicanálise e o mal-estar: Início 14 de março.
Carlos Eduardo Leal

UMA NOTA SOBRE O SEMINÁRIO

Embora o seminário tenha por base o Livro 11 de Lacan, os que vão acompanhar o curso deste ensino podem perceber que não me fio apenas no referido seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise, mas no retorno a Freud que o próprio Lacan fez. Os termos dos quatro conceitos, 'inconsciente, repetição, transferência e pulsão' são termos freudianos que Jacques Lacan fez ressoar em vários momentos de seu ensino e em alguns escritos.
Já o Mal-Estar é o enodamento com a clínica que ao longo do seminário pretenderemos faz tecer a trama dos impasses e desassossegos. A convocação ao desejo de que alguns (já há inscritos) apresentem fragmentos clínicos para discussão.
Assim penso estruturar a consistência entre teoria e clínica para fazer ratear ali onde o ensino insiste.
Se "nada funciona, portanto, senão pelo equívoco significante (...), concluamos que há mal-entendido (maldonne) em algum lugar."
Jacques Lacan, O Aturdito, in, Outros Escritos
"Porque o poeta produz-se por ser devorado pelos versos/vermes (vers) que encontram entre si o seu arranjo, sem se incomodar, isso é patente, se o poeta sabe disso ou não."
"Que o sujeito não seja aquele que sabe o que diz, quando efetivamente alguma coisa é dita pela palavra que lhe falta (...) é o que Freud chama de inconsciente."
"A linguagem é a condição do inconsciente."
Jacques Lacan , Radiofonia, in, Outros Escritos
"Chamo de sintoma aquilo que vem do real" J. Lacan, A Terceira.

"A passagem de psicanalisante a psicanalista tem uma porta cuja dobradiça é o resto que constitui a divisão entre eles, porque essa divisão não é outra senão a do sujeito, da qual esse resto é a causa."
Jacques Lacan, Proposição de 09 de outubro de 1967

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

2016 Um ano para não se esquecer


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2016: hiância, falta, amor/ódio, buraco, pesadelo, medo, esperança, furo no real da coisa, delírio paranoico...
Não sou louco de colocar um ano no divã. Nem um dia sequer. Prefiro constatar seus transbordamentos. Na verdade não sei o que houve e talvez jamais saiba. Durante o ano, e já basta isso, houve especialista para tudo: político, econômico, social...
A patologia grave que acometeu um ano inteiro deixou-nos perplexos porque, em geral, o paciente tem um sintoma, outro e até mais um que você nem contava. Mas o que sucedeu neste ano foi uma série catastrófica. Uma epidemia, uma pandemia mundial.Perplexidade, estupefação, espanto diante do enigma indecifrável. Horror diante da inassimilável catástrofe moral. Todos os superlativos aqui seriam insuficientes para descrever o real impossível de ser dito. E, no entanto, aí está o final de ano. Com seus restos, seus enxofres mal cheirosos, suas escatologias, suas podridões, seus lixos nos escombros dos dias. Como suportar a vida assim de real e de viés?
Há abertamente neste ano, um "umbigo do sonho", expressão freudiana para falar de um corte na fala, um "não sei mais falar sobre isso que me acomete", que Lacan chamou de o real da coisa. Algo que insiste sem se inscrever. Algo que pulsa insistente como uma pulsão de morte e não sossega e nem dá sossego. Um impossível falar foi muitas vezes substituído por um grito parado no ar. Um grito de dor, revolta ou indignação. Olhem para qualquer lado do planeta que vocês constatarão isso que estou escrevendo. Não é preciso ser analista, é preciso estar atento. Atento e sensível ao que se desmancha na construção da humanidade. E, mesmo assim, algo me escapa. Algo escapa à compreensão. Sim, faço parte dos indignados e estupefatos. Mas faço parte dos vivos que fizeram a travessia. Tal qual uma análise, atravessamos rios turbulentos, mares caudalosos, mares de lama, enchentes de depressão, caminhadas coercitivas e arbitrárias. Ah, as metáforas não chegam para dar conta do que foi este ano. São insuficientes. Aliás, talvez este seja um bom termo para escrever aqui; insuficiência. Pletora de coisas insuficientes. Mais do menos. E isto já é causa suficiente para nos deixar este final com um gosto amargo na boca.
A crueldade sentida, a infâmia revelada nas mídias sociais, o escárnio dia a dia, os escândalos sucessivos dão bem um contorno dos círculos do Inferno de Dante pelos quais passamos neste ano. E, muitas vezes, sem o poeta Virgílio para amenizar nossa descida.
Muitas coisas não pedimos e tivemos que engolir. Muitas coisas não desejamos e tivemos que ter o desprazer de constatar. Outras tantas coisas nos acordaram no meio do dia, no meio da vida e nos fizeram dizer assustados: mas precisa ser assim? O susto diante do inevitável parece ter sido a tônica de um ano que não pode ir no mote do "já vai tarde." Não. Se há um ano que não podemos nos esquecer é este. O recalque é um mecanismo de defesa contra o intolerável. Só que a psicanálise nos ensina que o retorno do recalcado surge como asco, nojo, repulsa, repugnância, ou seja, devemos olhar na cara deste ano para que muitas coisas que aconteceram por obra e graça do ser dito humano, não se repitam jamais.
Os exemplos estão e estiveram como nunca nas mídias. Não é preciso recitá-los. Porém, questões éticas não deveriam ser escritas. Quando se as tem que escrever já é o testemunho da falência ética. A educação deveria internalizar limites. A psicanálise pontua aqui e ali para que um gozo absolutista não invada o sujeito fazendo-o padecer em seus dias. A barra sobre o gozo do Outro deveria ser um efeito da castração. Mas não é assim. Nunca foi. Mas é preciso que não esqueçamos a dignidade ética. É preciso que não esqueçamos o valor da palavra. É preciso que não esqueçamos que o existir depende de que maneira o outro está em nossas vidas. Porque o que quisermos para o outro, aí também estará nosso coração.

Carlos Eduardo Leal, Dezembro/2016

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Brasília, capital satélite. Cidade bipolar entre a 'vontade criadora' e o subdesenvolvimento.

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Congresso nacional, Carlos Bracher (2006)

Brasília, capital satélite. Cidade bipolar entre a 'vontade criadora' e o subdesenvolvimento.

O que me leva a escrever este texto foi um vídeo circulado na internet. Nele aparece o Eduardo Cunha desembarcando no Aeroporto Santos Dumont. No filmete feito com celular, surge primeiro pessoas xingando o Cunha e, logo depois, uma senhora vem apressada perguntar se ele era o Cunha. Ao ser confirmada sua hipótese, ela se arremete contra ele (no áudio não dá para ouvir o que ela fala), mas logo em seguida ele cai de tapas nele. Todos riem com escárnio da cena. Fim do filme.
A humanidade é assim desde seus primórdios:
1) Quer fazer justiça com as próprias mãos.
2) Possui seus momentos de barbarismos.
3) Tem arroubos que se não controlados, passam à passagem ao ato na forma extrema de linchamento.
4) A turba tem o poder de sentimento invencível (Gustave Le Bon, Psicologia das Multidões, 1923, Francisco Alves), de onde Freud extraiu elementos para o seu Psicologia das Massas e Análise do Ego. O indivíduo na multidão é anônimo, o que lhe dá o sentimento de uma força hercúlea.
5) A intolerância é crescente quando a população se sente injustiçada, ou ver fazerem alguma retaliação e/ou discriminação contra alguém mais fraco: criança, comunidades LGBT, negros, agressões contra a mulher, molestação sexual, pedofilia, etc.
6) O sentimento de desamparo diante de catástrofes naturais, crises financeiras e sociais (desemprego, analfabetismo, corrupções, peculato-roubo de dinheiro público, etc) podem levar a multidão à um sentimento de solidariedade (catástrofes naturais)  e vingança (crises de desemprego...) para que a justiça seja feita pelas próprias mãos. Em nossas cidades, a nefasta milícia assumiu este papel que outrora era do Esquadrão da Morte (Scuderie LeCocq).
7) A percepção da brutal desigualdade produz dois sentimentos caros ao ser humano: inveja e ciúme. Destes surgem todo um corolário assertivo de todo ódioenamorado que até então tenha sido sentido, como se inveja e ciúme (e seus atos subsequentes) fossem justificados (de novo os paladinos da justiça: leia-se, justiceiros) pela bipolar desigualdade.

Então, pergunto-me o que é Brasília? E busco uma resposta em Milton Santos. A expressão "Vontade criadora (de JK) e o subdesenvolvimento" é do geógrafo em seu livro "A Cidade nos Países Subdesenvolvidos ".SANTOS, Milton  (1965). A Cidade nos Países Subdesenvolvidos. Rio de Janeiro, Ed. Civilização Brasileira.
"Cidade “artificial” surgiu de uma vontade criadora que haveria de se manifestar na prévia definição de diversos aspectos materiais e formais. A intenção que presidiu à sua criação é que orientaria aquela vontade criadora. Brasília já nascia com um destino predeterminado: ser “a cabeça do Brasil”, o “cérebro das mais altas decisões nacionais”. Capital administrativa e canteiro de obras, essas duas realidades - a realidade planejada e a realidade condição para a primeira - vão contribuir para lhe dar uma fisionomia, um ritmo de vida, um conteúdo. (...) O subdesenvolvimento comparece como um elemento de oposição,
diante daquela “vontade criadora”, modificando os resultados esperados. Reduz as possibilidades de uma rápida construção da cidade; refletindo-se sobre as atividades principais, explica as demais funções, o quadro, a fisionomia atual, a estrutura e os problemas; e é o responsável pela “dualidade” de Brasília, que tanto a aproxima das demais capitais latino-americanas. Vontade criadora e subdesenvolvimento do país são, pois, os termos que se afrontam na realização efetiva de Brasília. É da sua confrontação que a cidade retira os elementos de sua definição atual”.

É esta bipolaridade descrita tão bem por Milton Santos que baseio meu argumento de Brasília como uma capital planejada, mas que, tal como suas cidades satélites (Taguatinga, Ceilândia, Samambaia), tornou-se, ela própria, uma capital satélite do Brasil. Isolada em seu planejamento de vontade criadora num universo subdesenvolvido. A capital grita no 'ao-longe' (expressão cara à Guimarães Rosa), a excomunhão do povo que para lá chegar produz uma espécie de romaria como se estivesse indo à um santuário tupiniquim. Louve-se o belíssimo projeto arquitetônico de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, mas o fato político é desastroso e não há volta como atesta o próprio Milton Santos. Para lá refugiaram-se os políticos. É uma cidade não sustentável e que, por isso, precisa arrecadar de todo o país as condições de sua sustentabilidade. Aí está o cerne do problema que constato. Como os poderes Legislativo, Executivo e Judiciário estão afastados geograficamente do povo, eles quase tornam-se invisíveis, é preciso criar mecanismos regulatórios paralelos ao governo quando o próprio TCU deveria ser responsável, como o Transparência Brasil entre outros. Não que a corrupção e os desmandos não aconteçam em outros países, mas no Brasil esta dicotomia ficou gritante. Até nos nomes das casas: mansões do Lago Paranoá, Mansões dos Ministros, a chácara do Chefe da Casa Civil, do Presidente do Congresso, como testemunhamos a do Eduardo Cunha em processo recente. A fragilidade destas instituições, sua clara capilaridade e mais o afastamento torna o Homo-Politicus quase um mito. Entre a adoração e o desprezo é difícil constatar sua existência.
Por isso, foi preciso a senhorinha cair de tapas em cima do Eduardo Cunha para provar sua consistência Imaginária, porque no Simbólico de nossas palavras ele já existia há muito tempo. E no real de nossas angústias também.

Carlos Eduardo Leal é psicanalista e escritor

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

HERANÇAS Resenha Literária Uma das contribuições ao blog da Bety Orsini


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HERANÇAS


Qual é a maior herança que um pai pode deixar para seu filho? Ou, pensando de outra maneira: o que um pai pode transmitir ao seu filho? Qual é a lição de uma vida?
O livro
A maleta do meu pai, de Orhan Pamuk (Companhia das Letras), ganhador do Nobel de literatura de 2007, tenta resgatar a importância daquilo que um pai delega ao filho. Na verdade, este texto é o discurso de O. Pamuk na cerimônia de entrega do prêmio Nobel de Literatura do ano passado.
É inevitável lembrar de
Quase Memória (Objetiva), de Carlos Heitor Cony, que também fala de uma relação entre pai e filho. O protagonista após receber um embrulho misterioso, passa a identificá-lo como tendo sido enviado pelo seu pai após a morte deste. A partir daí, Cony explora um delicado território que oscila entre a ficção e a memória a partir das reminiscências do pai morto. Os sentimentos contraditórios entre pai e filho, as amizades, as alegrias, as tristezas e os anos de convívio e aprendizagem parecem estar contidos dentro daquele embrulho preso por um barbante, com o qual só seu pai poderia ter dado aquele nó. Nó que os enlaça num afeto de cumplicidade e saudade reinventada após um período de adormecimento.
"Aquela maleta", continua Pamuk, "era uma velha amiga, uma poderosa lembrança dos meus tempos de menino, do meu passado, mas agora eu nem conseguia encostar nela. Por quê? Sem dúvida por causa do peso misterioso do seu conteúdo. Agora vou falar do que esse peso significa. Ela tem o significado daquilo que toda pessoa cria quando fecha a porta e se refugia num canto, diante de uma mesa, para exprimir os seus pensamentos – o significado da literatura." A partir daí Orhan Pamuk irá descrever seu medo e encanto de encontrar um pai totalmente desconhecido dentro daquela maleta. Um pai que por algum motivo pudesse ter sido um grande escritor sem ter publicado um único livro; apenas suas anotações. Mas, "a primeira coisa que me mantinha distante do conteúdo da maleta era, claro, o medo de não gostar do que pudesse ler. Como meu pai sabia disso, tomara a precaução de agir como se não desse muita importância ao seu conteúdo. Depois de 25 anos trabalhando como escritor, isso me incomodou. Mas não quis me irritar com meu pai por ele deixar de levar a literatura a sério... Meu verdadeiro medo, a coisa crucial que eu não queria aprender ou descobrir, era a possibilidade de que ele fosse um bom escritor. Era esse o medo que me impedia de abrir a maleta." Para Pamuk, um escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si. "Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria."
O medo de encontrar um bom escritor no pai é porque ele sabia que seu pai amava a vida, a liberdade, os amigos e muita gente ao seu redor. E um escritor é uma pessoa que "fecha a porta e se recolhe com seus livros." Este é o belíssimo contraponto deste texto: seu pai em suas viagens para fora da Turquia sempre lhe trouxe livros de presente. Sempre recusou a mostrar-lhe um "mundo dotado de um centro". Esse olhar que se costura por fora da margem dos limites de seu país, era também um olhar construído a partir de alguém que sabia que a literatura abria outros caminhos que não só aqueles que rivalizavam o ocidente com o oriente. Assim, Pamuk aprendeu que viver era participar da vida real modificando-a através da escrita, pois tal como diz Mallarmé, "tudo no mundo existe para ser posto num livro".
Reconheço em Orhan Pamuk um processo muito semelhante àquele que encontro na psicanálise. Aliás, este mérito é do próprio Freud que dizia que os poetas e romancistas sabem muito melhor descrever os processos psíquicos do que os próprios analistas. "Para mim", diz Pamuk, "ser escritor é reconhecer as feridas secretas que carregamos, tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da literatura." Isso é exatamente o percurso de uma análise: explorar com paciência as feridas secretas – do inconsciente – para que se possa iluminá-las e dar-lhes outro destino. "O escritor fala de coisas que todos sabem, mas não sabem que sabem." Não poderia haver definição melhor do que é o estatuto do inconsciente: um saber não sabido. Seria isso uma literanálise? Creio que seu pai não poderia ter lhe deixado uma herança melhor do que esta. A transmissão de um mundo a ser continuamente reinventado através da ficção.


Carlos Eduardo Leal
Psicanalista e escritor

Para você que gosta ler ouvindo música, não perca o cd da Stacey Kent: "The boy next door"

segunda-feira, 25 de julho de 2016

AMOR E PAIXÃO: DESASSOSSEGOS DO DESEJO

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AMOR E PAIXÃO: DESASSOSSEGOS DO DESEJO

Três conferências
                                                                     

                                                                              Carlos Eduardo Leal

I)               O amor narcísico na histeria e na neurose obsessiva
II)            O gozo do Outro: paixão e pathos / sofrimento e angústia
III)         O desejo inquieto: vicissitudes da pulsão


Dias: 09, 23 e 30 de agosto
Horário: 20:00 às 22:00hs
Local: Rua Gavião Peixoto, 148, sala 1205. Edifício Louvre Center
Entrada Franca / Vagas Limitadas

Só poderão entrar aqueles que tiverem feito previamente a inscrição através do e-mail: celeal01@gmail.com