terça-feira, 7 de agosto de 2018

Convite minha vernissage




CONVITE RENOVADO!
DIA 10 DE AGOSTO, SEXTA-FEIRA, MINHA VERNISSAGE NO HOTEL SOFITEL DE IPANEMA, AVENIDA VIEIRA SOUTO, 460 (ex-Caesar Park).
A PARTIR DAS 16HS
Curadoria, Lu Valença
Rapsody in Blues
Acrílica sobre Tela
Acrylic on Canvas
100 X 80
Cadu Leal / 2018

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Dia roubado

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Fui abrir a página do dia (como faço todas as manhãs) e descobri que estava no amanhã. Aquele estranhamento do que não deveria existir estava lá. Era um vazio ou um buraco negro se eu estivesse no universo sem fim. Como pude acordar sem o hoje? Como isto foi acontecer comigo logo agora quando pretendia sair para o campo para colher a plantação anterior? Fique extático à porta. É verdade que consegui abrir a porta. Não foi sem algum esforço, mas ela rangeu e se abriu sem orgulho. Apenas me trouxe a sua serventia costumeira de me fazer passar. Mas, para onde? Como me debruçar sobre o vazio do dia se já estava no amanhã? Faltava o hoje. Fiz e refiz as contas dos dias da semana e do mês. A quarta-feira simplesmente não existia. Minha cabeça turvou-se num desolamento de ter sido subtraído um dia ao curso da minha vida. Já estivera sem fazer nada por vários dias. Mas era minha opção. Agora, sem minha permissão, sem minha escolha, enxovalharam-me o dia. Surrupiaram bem debaixo do meu sono a possibilidade de atravessar um dia. Como faria para pulá-lo? E se lá na frente me condenassem por pedirem explicações do que fiz na quarta-feira? Como responderia a este intervalo? Que ponte seria justificável para esta travessia? Pensei em voltar para a cama e dormir novamente para acordar no dia certo. Mas foi em vão. Não conseguia pregar os olhos. Estava mais alerta que Drogo, o personagem de O Deserto dos Tártaros de Dino Buzzati que sobe ao forte para vigiar por um ano o território inimigo e nunca mais conseguiu descer.
Seria esta minha condenação? Ficar para sempre com esta lacuna. Com esta sensação intervalar? Seria o que chamam de doideira que estava me acometendo? Loucura? O que seria do meu coração neste dia sem dia? Pararia de bater? E minha respiração? Faltaria o ar?
Na fragilidade da minha situação, fechei os olhos e arrisquei um passo para fora da porta do dia sem dia.

Carlos Eduardo Leal

sábado, 16 de dezembro de 2017

Balanço de Fim de Ano DISTOPIAS

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Arcimboldo 

Balanço de Fim de Ano
DISTOPIAS

A eleição de Trump, o golpe de Temer, a ascensão do perigoso menino mimado, kim Jong Un e a constatação de que o mundo, apesar de muitos esforços, virou de cabeça para baixo é um alarme que se soou tarde, ainda é possível pensar sobre o que somos, o que temos, o que queremos e ficar, lutar e resistir.
A distopia é o contrário da utopia. Na distopia, um mundo de ilusão foi criado com o intuito de empossar um regime político totalitário, mantido por uma minoria. Como consequências temos modos de privação extrema e desespero de um povo que tende a se tornar corruptível. 
Alguns livros foram feitos ícones deste mundo distópico. Assim que Trump venceu nos EUA, "1984" romance de George Orwell disparou entre os mais vendidos da Amazon. Isto ocorreu logo após a Conselheira da Casa Branca, Kellyanne Conway, usar o orwelliano termo "alternative facts" (fatos alternativos) em uma entrevista. 1984 parece ser um retrato fiel da distopia do Governo Trump. 
Seguiram o livro de Orwell, "O conto de Aia" #rocco (relançado este ano pela Rocco), "Admirável Mundo Novo" (1932) de Aldous Huxley são outros livros que tratam do mesmo tema: uma sociedade distópica que muito nos lembra dos anos de chumbo da ditadura que atravessamos.
É preciso aprendermos na velocidade de um terabyte por segundo sob o custo de ficarmos congelados pela mão de ferro daqueles poucos que sugam por ganância as últimas precariedades do povo.
A despolitização do imigrante tem feito dos refugiados uma indecente questão ética e moral. Te acolho desde que você deixe de ser que você é (religião, crenças, modos de ser, política) e passe a ser como eu sou. Ou seja, apagamento das diferenças. É uma tragédia sobreposta a outra.
Infelizmente não acredito em milagres. Os fervorosos do terceiro milênio que me desculpem, mas tenho aprendido que só pelo esforço contínuo é que podemos empreender dias melhores para todos nós.
Somos humanos e de nós é possível esperar absolutamente tudo. Para lembrar do filme de Glauber Rocha, tenho a certeza que temos dentro de cada um de nós um "Dragão da Maldade contra um Santo Guerreiro". Precisamos ter a liberdade de escolha. Não há maior liberdade do que essa. A liberdade de escolher para que lado vamos atuar. De Hitler a Gandhi, podemos ser quem quisermos. A crescente política de direita tem assustado mais do que pensávamos tal como um retorno do recalcado.
É verdade. O mundo odiosamente se polarizou assim. Muros de palavras ou de concreto são construídos e aprendemos a deletar com muita naturalidade o outro de nossos ódios. Tornamo-nos produtos perigosamente descartável nas mãos do Outro.
Testemunhei na pele, na carne, no coração e na alma um episódio.
Um tsunami poucos avisos dá. Ou não acreditamos que ele possa ter a força com o qual ele se mostra e quando percebemos só podemos remediar e tentar reparar os estragos para seguir do jeito que é possível. 
Tornamo-nos cada vez mais egoístas e covardes? Freud dizia que a consciência fazia de muitos de nós covardes.
Mas, como havia dito que tudo possui dois lados diametralmente opostos, o mundo abriu as portas de um novo que será para sempre um amor renovado ao longo dos dias.
Tenho aprendido a cada dia a deixar pesos desnecessários, e creio, que às expensas destas distopias que andam crescentes por aí, existem pessoas às quais tenho me aproximado que também me abriram o olhar para um novo tipo de relação afetiva que pretendo que seja "e-terna enquanto durar". São pessoas que partilham do ofício da psicanálise, da literatura, das artes, antigos amigos, novas amizades, enfim, o mundo que se recria "apesar de", como disse Clarice Lispector.
Faço da leitura um lugar só meu, e no entanto, partilhado na transmissão e no compartilhamento. Lugar outro, quase sagrado e, se tudo caminhar como previsto, mais dois livros devem chegar em 2018.
Não sei para onde caminharemos em 2018. Ano decisivo e de eleições na triste e sombria crise político-econômica que nos abateu. Um crise também moral e ética. Sobretudo ética.
Mas caminho na certeza do meu melhor. O que lá pode não ser muito. Mas é meu. E o que de mim transbordar, que possa ser o meu melhor para vocês também.
É o meu desejo de Ano Novo.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Ileanova


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Ileanova


Eric abriu a primeira página do livro. Não. Antes abriu a folha de rosto. Gostava deste nome: folha de rosto. Como se o livro fosse a delicadeza de toda a cabeça por desvendar. Da primeira até a décima segunda página ele devorou em poucos minutos. Daí veio a surpresa. Era Ileanova. Mais nova do que ele um ano e fazendo anos no mesmo dia e mês. Era ela. Era ela que ele sempre buscara. Estava ali dentro do livro. Tão próxima e, no entanto, tão distante. Parecia poder tocar-lhe o rosto. Deveria ser a tal folha de rosto que agora queimava as mãos e o coração saracoteava irrequieto.
Mais estranho tudo parecia ficar quanto mais ele avançava na leitura. Ela parecia compreender o que se passava dentro de sua vida, pois o que ela falava era o que ele tanto sonhava em ouvir. Tira-me daqui de dentro, ela implorava para Eric. Ileanova, uma garota russa de 23 anos, esguia em seus 1,87m, cabelos negros curtos, olhos verdes, campeã nacional de salto em distância no ski na neve e que nas horas vagas saltava de parapente nas montanhas geladas, ou na famosa e perigosa Passagem Diatlov.
Aventura era o que Eric sempre buscava. Ele também gostava de ski e aos 18 anos foi vice-campeão europeu em slalom. Nascera nos Pirineus, filho de uma professora de filosofia e um pai que tinha uma serraria. Sua vesguice era seu charme que os cabelos avermelhados encobriam. Forte como um cabrito montanhês, mas sensível como sua mãe. Eric encontrara em Ileanova a parceira ideal para sua vida.
Ela insistentemente pedia para que o bom Eric a retirasse de dentro daquele livro. A cada página, uma nova angústia. Certa manhã, lá pela página 325, Eric acordou muito cedo, tomou café, pegou sua bike e foi até o banco da pequena cidade em que vivia. Lá retirou toda sua economia que havia ganho em prêmios nas competições.
Pegou um trem até Bilbao, passando pela charmosa San Sebastian e dali até Milão e de lá um avião para Moscou a fim de encontrar Ileanova.

No afã de sua paixão, Eric havia esquecido o livro dentro de sua mochila. Nunca soube o que acontecera ao final do romance com a garota russa. Cego de amor acabou por confundir ficção com realidade e casou-se com a primeira garota moscovita que se interessou por ele.  

Carlos Eduardo Leal 

terça-feira, 18 de julho de 2017

Cartas para Clarice Lispector

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Niterói, 18 de julho de 2017

Cartas para Clarice Lispector
"Mas é que eu também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E - se a realidade é mesmo que nada existiu?! quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto? o resto não existiu."
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.
Querida Clarice,
Há algum tempo sei que você vem tentando dar forma a algo que te aconteceu. Mas, o que te aconteceu se eu daqui não o soube? Tentei entrar em contato contigo e a última carta ficou como algo inaudito. A memória que eu tinha foi lentamente se apagando. Sei que da última vez que nos vimos você estava preocupada, fumando lentamente como se as palavras fossem fumaça e não tivessem esta densidade que lhe é tão peculiar. Creio que dar forma ao peso da leveza não está nos planos da criação do escritor. A forma que te escapa pulsa entre sombras e luzes como se fosse num quadro renascentista italiano do “Cinquecento”.
As horas nuas gastas na A paixão Segundo G.H. te consumiram ou ainda haverá fôlego para o mais? Sei que quando não escreves estás morta. Por isso, suplico-te. Não enterres teu melhor personagem: você.
Será que verdadeiramente nada te aconteceu ou esta terceira perna apenas virou outro nome para dizer o que não existe? Se só acontece o que você compreende, espero que compreendas a insistência desta carta. Não te escreveria se soubesse de antemão que me responderias, mas é justamente por não compreender por que a palavra fica em suspenso que te escrevo e continuarei a te escrever se permitires por mais algumas vezes. Não sei quantas. As palavras ainda são um resto que me assolam. Se este resto também não existir então a palavra também não terá existido. E, saibas, creio na tua palavra. Creio na consistência do medo. Creio na exigência em ser feliz. Creio que se reza porque temos medo. Creio que o mar revolta-se pela lua. E creio que a beleza é feita de estranhamentos e a vida é assim também. Mas não saberia viver se não tivesses existido em mim.
Por isto tudo creio. E me assombro e me espanto diante do mistério triste por vir.
Estou aqui. Estás aí. Estamos nas palavras. Solidários e solitários como sempre estivemos. Aguardo-te diante de minhas pequenas mortes. Da alegria, por vezes tenho medo. De ser tão real que passaria a me desmembrar sem ela. Até a próxima carta.  
Teu,

Carlos Eduardo Leal

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A escrita como ofício


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A escrita como ofício

“É uma coisa curiosa um escritor. Uma contradição e também um absurdo. Escrever é também não falar. É se calar. É berrar sem fazer barulho.” (Marguerite Duras – Escrever/ Rocco)
É sempre marcado pelo passado que se escreve. O ato de escrever é, de alguma maneira, uma tentativa de reconciliação com nossas memórias. Ora, a memória é também composta por restos fragmentários que ficaram inconclusos na vida cotidiana. Muitas vezes são restos que nos assombram, noutras nos deterioram pela fragilidade à qual eles nos expõem. Duras nos diz que o que ela condena nos livros “é que eles não são livres. Vê-se isto através da escrita: eles são fabricados, organizados, regulamentados, convenientes, poderíamos dizer. Uma função de revisão que o escritor, muitas vezes, exerce em relação a si mesmo.”
Freud, dizia que uma das funções de uma análise era preencher as lacunas da memória e, assim, livrar o sujeito de seus traumas e medos infantis que ficaram soterrados sem a menor possibilidade de dar um sentido claro ou uma significação coerente. Então, uma análise também é resignificar os fatos adormecidos, as histórias submersas, verdadeiros tesouros arqueológicos da nossa infância vivida ou devaneada. “Esse escrever”, continua Duras, “é perder-se de si mesmo no interior da casa. É escrever apesar do desespero. Não: com desespero”. Para Marguerite Duras, escrever é como estar só numa casa. “Não do lado de fora, mas dentro.”
Entrar dentro de um livro é como entrar numa enorme caverna com seus labirintos em busca de uma aventura, um romance ou de uma caçada policial sem passar pelos perigos que os personagens vivem.
Assim, o leitor se torna co-autor do autor passando magicamente a fazer parte da 'memória' vivida deste. Memória vivida ou memória inventada, pouco importa.
São memórias afetivas que estimulam nossas identificações. São atavismos perdidos que um livro pode recuperar. Um livro diz respeito à memória do seu autor, mas produz do lado do leitor, a possibilidade de recuperar imagens perdidas, tal como num filme musical remasterizado. Porém, o que é mesmo memória e o que é memória inventada em relação ao próprio leitor? O déjà vu é algo que o sujeito viveu, ou foi 'fabricado' pelo autor confundindo de vez as lembranças perdidas?
O ofício do escritor é inventar memórias: as suas e a dos outros. Lá onde não havia nada, você coloca uma ação, um romance no qual o sujeito no próximo encontro com sua amada vai dizer as palavras que o protagonista disse e que parece que saíram de sua boca. É comum lermos trechos inteiros de um livro, ou uma poesia, e acrescentarmos que "era exatamente isso que eu pensava, mas não sabia como falar". O escritor fala, então, ao coração do leitor. Empresta sua voz (e , claro, dos seus personagens) àquele que o lê.
Muitas vezes, o escritor se torna uma espécie de ghost writer para o leitor. Mas, isso acontece também dentro do próprio romance como é o caso de Cyrano de Bergerac, no qual o personagem, que se achava muito feio, escreve para que um outro o interprete.
A palavra do escritor tem por função fazer ponte entre os abismos que existem na vida das pessoas e, assim, possibilitar a crença de que o leitor possa tocar com suas próprias mãos regiões antes inalcançáveis.
Há enormes paralelos entre o escritor e um psicanalista. Um deles diz respeito a que ambos possibilitam que o leitor ou o paciente interprete seus próprios textos. O texto do escritor é interpretado pelo leitor através de suas experiências pessoais e outras leituras. O psicanalista leva o paciente a formular também seus próprios textos, a escutá-los, dando a cada palavra proferida a devida dimensão de sua paternidade e autoria. Não é à toa que alguns analisandos terminam suas análises e vão escrever livros relatando sobre o percurso transcorrido. Vão ficcionalizar sobre a realidade inventada, a memória perdida e a redução inesgotável de suas dores. Escrever sobre o resgate da memória perdida é refazer a parábola do filho pródigo ou do pastor que tendo cem ovelhas e perdido uma, largou as noventa e nove e foi atrás da que se perdeu. Certos pequenos restos perdidos do passado são mais incômodos e contundentes (possuem a força de um tsunâmi) do que toda uma biblioteca de Alexandria de pura e boa memória.
O escritor é um sujeito que sofre. Também possui suas humanidades, poderiam vocês contra-argumentarem. Mas, não só. O escritor sofre, padece da palavra. Sofre dela, por ela e através dela. Sofre e se regozija pelo encontro. Sofre pelo desencontro tal como no fim de um baile de máscaras; 'não era ele, não era ela'. É como pensava Duras sobre estar dentro, mas do lado de fora. Solidão.
A memória do escritor é atualizada na palavra construída, inventada por ele e, assim, resignificada sobre o tempo perdido. Quem escreve, não perde tempo. Quem escreve, não se perde do seu tempo. Quem escreve, não se perde no tempo. No tempo das memórias inventadas.

Carlos Eduardo Leal
Psicanalista e escritor
Para quem gosta de ler ouvindo música: Marina de La Riva – c