
Estava só em meu sorriso quando senti a tua presença. Meu coração desatou a correr como um bólido pelos campos da fertilidade perdida. O sangue percorreu meu corpo resgatando as cores e os cheiros da adolescência. Senti pulsar o mundo como um vulcão a jorrar suas lavas pela primeira vez rompendo o hímen da terra virgem.
A sala em penumbras. Coloquei o nosso preferido da Nina Simone. Deixei apenas um fundo musical. Abri um tinto. Teu perfume invadia aposentos adormecidos pela memória. Abri as janelas e deixei a brisa da noite entrar. A lua tremeluzia entre nuvens, alva como recendia tua pele. Acendi um havana que havia guardado para ocasiões como esta. Havia festa novamente em mim.
Voltei à minha poltrona. Tomei nas mãos trêmulas o livro que me esperava aberto. A luminosidade amarela do abajur fraquejava a memória.
Após mais de oitenta anos voltei a sentir um lampejo de felicidade na memória olvidada. Meus olhos, ainda brilhantes pelo ocorrido, voltaram a repousar sobre Álvaro de Campos: "vale a pena sentir para ao menos deixar de sentir."


