terça-feira, 18 de julho de 2017

Cartas para Clarice Lispector

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Niterói, 18 de julho de 2017

Cartas para Clarice Lispector
"Mas é que eu também não sei que forma dar ao que me aconteceu. E sem dar uma forma, nada me existe. E - se a realidade é mesmo que nada existiu?! quem sabe nada me aconteceu? Só posso compreender o que me acontece mas só acontece o que eu compreendo - que sei do resto? o resto não existiu."
Clarice Lispector, A Paixão Segundo G.H.
Querida Clarice,
Há algum tempo sei que você vem tentando dar forma a algo que te aconteceu. Mas, o que te aconteceu se eu daqui não o soube? Tentei entrar em contato contigo e a última carta ficou como algo inaudito. A memória que eu tinha foi lentamente se apagando. Sei que da última vez que nos vimos você estava preocupada, fumando lentamente como se as palavras fossem fumaça e não tivessem esta densidade que lhe é tão peculiar. Creio que dar forma ao peso da leveza não está nos planos da criação do escritor. A forma que te escapa pulsa entre sombras e luzes como se fosse num quadro renascentista italiano do “Cinquecento”.
As horas nuas gastas na A paixão Segundo G.H. te consumiram ou ainda haverá fôlego para o mais? Sei que quando não escreves estás morta. Por isso, suplico-te. Não enterres teu melhor personagem: você.
Será que verdadeiramente nada te aconteceu ou esta terceira perna apenas virou outro nome para dizer o que não existe? Se só acontece o que você compreende, espero que compreendas a insistência desta carta. Não te escreveria se soubesse de antemão que me responderias, mas é justamente por não compreender por que a palavra fica em suspenso que te escrevo e continuarei a te escrever se permitires por mais algumas vezes. Não sei quantas. As palavras ainda são um resto que me assolam. Se este resto também não existir então a palavra também não terá existido. E, saibas, creio na tua palavra. Creio na consistência do medo. Creio na exigência em ser feliz. Creio que se reza porque temos medo. Creio que o mar revolta-se pela lua. E creio que a beleza é feita de estranhamentos e a vida é assim também. Mas não saberia viver se não tivesses existido em mim.
Por isto tudo creio. E me assombro e me espanto diante do mistério triste por vir.
Estou aqui. Estás aí. Estamos nas palavras. Solidários e solitários como sempre estivemos. Aguardo-te diante de minhas pequenas mortes. Da alegria, por vezes tenho medo. De ser tão real que passaria a me desmembrar sem ela. Até a próxima carta.  
Teu,

Carlos Eduardo Leal

segunda-feira, 19 de junho de 2017

A escrita como ofício


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A escrita como ofício

“É uma coisa curiosa um escritor. Uma contradição e também um absurdo. Escrever é também não falar. É se calar. É berrar sem fazer barulho.” (Marguerite Duras – Escrever/ Rocco)
É sempre marcado pelo passado que se escreve. O ato de escrever é, de alguma maneira, uma tentativa de reconciliação com nossas memórias. Ora, a memória é também composta por restos fragmentários que ficaram inconclusos na vida cotidiana. Muitas vezes são restos que nos assombram, noutras nos deterioram pela fragilidade à qual eles nos expõem. Duras nos diz que o que ela condena nos livros “é que eles não são livres. Vê-se isto através da escrita: eles são fabricados, organizados, regulamentados, convenientes, poderíamos dizer. Uma função de revisão que o escritor, muitas vezes, exerce em relação a si mesmo.”
Freud, dizia que uma das funções de uma análise era preencher as lacunas da memória e, assim, livrar o sujeito de seus traumas e medos infantis que ficaram soterrados sem a menor possibilidade de dar um sentido claro ou uma significação coerente. Então, uma análise também é resignificar os fatos adormecidos, as histórias submersas, verdadeiros tesouros arqueológicos da nossa infância vivida ou devaneada. “Esse escrever”, continua Duras, “é perder-se de si mesmo no interior da casa. É escrever apesar do desespero. Não: com desespero”. Para Marguerite Duras, escrever é como estar só numa casa. “Não do lado de fora, mas dentro.”
Entrar dentro de um livro é como entrar numa enorme caverna com seus labirintos em busca de uma aventura, um romance ou de uma caçada policial sem passar pelos perigos que os personagens vivem.
Assim, o leitor se torna co-autor do autor passando magicamente a fazer parte da 'memória' vivida deste. Memória vivida ou memória inventada, pouco importa.
São memórias afetivas que estimulam nossas identificações. São atavismos perdidos que um livro pode recuperar. Um livro diz respeito à memória do seu autor, mas produz do lado do leitor, a possibilidade de recuperar imagens perdidas, tal como num filme musical remasterizado. Porém, o que é mesmo memória e o que é memória inventada em relação ao próprio leitor? O déjà vu é algo que o sujeito viveu, ou foi 'fabricado' pelo autor confundindo de vez as lembranças perdidas?
O ofício do escritor é inventar memórias: as suas e a dos outros. Lá onde não havia nada, você coloca uma ação, um romance no qual o sujeito no próximo encontro com sua amada vai dizer as palavras que o protagonista disse e que parece que saíram de sua boca. É comum lermos trechos inteiros de um livro, ou uma poesia, e acrescentarmos que "era exatamente isso que eu pensava, mas não sabia como falar". O escritor fala, então, ao coração do leitor. Empresta sua voz (e , claro, dos seus personagens) àquele que o lê.
Muitas vezes, o escritor se torna uma espécie de ghost writer para o leitor. Mas, isso acontece também dentro do próprio romance como é o caso de Cyrano de Bergerac, no qual o personagem, que se achava muito feio, escreve para que um outro o interprete.
A palavra do escritor tem por função fazer ponte entre os abismos que existem na vida das pessoas e, assim, possibilitar a crença de que o leitor possa tocar com suas próprias mãos regiões antes inalcançáveis.
Há enormes paralelos entre o escritor e um psicanalista. Um deles diz respeito a que ambos possibilitam que o leitor ou o paciente interprete seus próprios textos. O texto do escritor é interpretado pelo leitor através de suas experiências pessoais e outras leituras. O psicanalista leva o paciente a formular também seus próprios textos, a escutá-los, dando a cada palavra proferida a devida dimensão de sua paternidade e autoria. Não é à toa que alguns analisandos terminam suas análises e vão escrever livros relatando sobre o percurso transcorrido. Vão ficcionalizar sobre a realidade inventada, a memória perdida e a redução inesgotável de suas dores. Escrever sobre o resgate da memória perdida é refazer a parábola do filho pródigo ou do pastor que tendo cem ovelhas e perdido uma, largou as noventa e nove e foi atrás da que se perdeu. Certos pequenos restos perdidos do passado são mais incômodos e contundentes (possuem a força de um tsunâmi) do que toda uma biblioteca de Alexandria de pura e boa memória.
O escritor é um sujeito que sofre. Também possui suas humanidades, poderiam vocês contra-argumentarem. Mas, não só. O escritor sofre, padece da palavra. Sofre dela, por ela e através dela. Sofre e se regozija pelo encontro. Sofre pelo desencontro tal como no fim de um baile de máscaras; 'não era ele, não era ela'. É como pensava Duras sobre estar dentro, mas do lado de fora. Solidão.
A memória do escritor é atualizada na palavra construída, inventada por ele e, assim, resignificada sobre o tempo perdido. Quem escreve, não perde tempo. Quem escreve, não se perde do seu tempo. Quem escreve, não se perde no tempo. No tempo das memórias inventadas.

Carlos Eduardo Leal
Psicanalista e escritor
Para quem gosta de ler ouvindo música: Marina de La Riva – c

HERANÇAS


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HERANÇAS




Qual é a maior herança que um pai pode deixar para seu filho? Ou, pensando de outra maneira: o que um pai pode transmitir ao seu filho? Qual é a lição de uma vida?
O livro
A maleta do meu pai, de Orhan Pamuk (Companhia das Letras), ganhador do Nobel de literatura de 2007, tenta resgatar a importância daquilo que um pai delega ao filho. Na verdade, este texto é o discurso de O. Pamuk na cerimônia de entrega do prêmio Nobel de Literatura do ano passado.

É inevitável lembrar de Quase Memória (Objetiva), de Carlos Heitor Cony, que também fala de uma relação entre pai e filho. O protagonista após receber um embrulho misterioso, passa a identificá-lo como tendo sido enviado pelo seu pai após a morte deste. A partir daí, Cony explora um delicado território que oscila entre a ficção e a memória a partir das reminiscências do pai morto. Os sentimentos contraditórios entre pai e filho, as amizades, as alegrias, as tristezas e os anos de convívio e aprendizagem parecem estar contidos dentro daquele embrulho preso por um barbante, com o qual só seu pai poderia ter dado aquele nó. Nó que os enlaça num afeto de cumplicidade e saudade reinventada após um período de adormecimento.
"Aquela maleta", continua Pamuk, "era uma velha amiga, uma poderosa lembrança dos meus tempos de menino, do meu passado, mas agora eu nem conseguia encostar nela. Por quê? Sem dúvida por causa do peso misterioso do seu conteúdo. Agora vou falar do que esse peso significa. Ela tem o significado daquilo que toda pessoa cria quando fecha a porta e se refugia num canto, diante de uma mesa, para exprimir os seus pensamentos – o significado da literatura." A partir daí Orhan Pamuk irá descrever seu medo e encanto de encontrar um pai totalmente desconhecido dentro daquela maleta. Um pai que por algum motivo pudesse ter sido um grande escritor sem ter publicado um único livro; apenas suas anotações. Mas, "a primeira coisa que me mantinha distante do conteúdo da maleta era, claro, o medo de não gostar do que pudesse ler. Como meu pai sabia disso, tomara a precaução de agir como se não desse muita importância ao seu conteúdo. Depois de 25 anos trabalhando como escritor, isso me incomodou. Mas não quis me irritar com meu pai por ele deixar de levar a literatura a sério... Meu verdadeiro medo, a coisa crucial que eu não queria aprender ou descobrir, era a possibilidade de que ele fosse um bom escritor. Era esse o medo que me impedia de abrir a maleta." Para Pamuk, um escritor é uma pessoa que passa anos tentando descobrir com paciência um segundo ser dentro de si. "Escrever é transformar em palavras esse olhar para dentro, estudar o mundo para o qual a pessoa se transporta quando se recolhe em si mesma – com paciência, obstinação e alegria."
O medo de encontrar um bom escritor no pai é porque ele sabia que seu pai amava a vida, a liberdade, os amigos e muita gente ao seu redor. E um escritor é uma pessoa que "fecha a porta e se recolhe com seus livros." Este é o belíssimo contraponto deste texto: seu pai em suas viagens para fora da Turquia sempre lhe trouxe livros de presente. Sempre recusou a mostrar-lhe um "mundo dotado de um centro". Esse olhar que se costura por fora da margem dos limites de seu país, era também um olhar construído a partir de alguém que sabia que a literatura abria outros caminhos que não só aqueles que rivalizavam o ocidente com o oriente. Assim, Pamuk aprendeu que viver era participar da vida real modificando-a através da escrita, pois tal como diz Mallarmé, "tudo no mundo existe para ser posto num livro".
Reconheço em Orhan Pamuk um processo muito semelhante àquele que encontro na psicanálise. Aliás, este mérito é do próprio Freud que dizia que os poetas e romancistas sabem muito melhor descrever os processos psíquicos do que os próprios analistas. "Para mim", diz Pamuk, "ser escritor é reconhecer as feridas secretas que carregamos, tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da literatura." Isso é exatamente o percurso de uma análise: explorar com paciência as feridas secretas – do inconsciente – para que se possa iluminá-las e dar-lhes outro destino. "O escritor fala de coisas que todos sabem, mas não sabem que sabem." Não poderia haver definição melhor do que é o estatuto do inconsciente: um saber não sabido. Seria isso uma literanálise? Creio que seu pai não poderia ter lhe deixado uma herança melhor do que esta. A transmissão de um mundo a ser continuamente reinventado através da ficção.
Carlos Eduardo Leal
Psicanalista e escritor
Para você que gosta ler ouvindo música, não perca o cd da Stacey Kent: "The boy next door"


Os Anjos Caídos no Paraíso Perdido


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Os Anjos Caídos no Paraíso Perdido

A recordação da felicidade já não é felicidade, enquanto a dor é ainda dor.
                                                                           Lord Byron

A idéia do Paraíso Perdido sempre foi fascinante para o ser humano. A vontade de reencontrá-lo parece ter sido substituída por um lenimento na tradição cristã, um adiamento post mortem, ou seja, a felicidade seria alcançada no encontro com Deus. Por que Adão, o primeiro anjo pecou, nós, anjos caídos descendentes dele, estamos fadados a cada passo a estarmos mais próximos do cadafalso. A esperança plantada como uma célula terrorista em nossos corações, ou como um chip infestado de vírus em nossas almas é de que a Terra é tudo aquilo que não é o Paraíso Perdido. E, de nossa parte, parece que estamos bastante empenhados em fazer dela a confirmação do que disse: uma devastação nas condições de vida que vão das relações do homem com o meio-ambiente até as mortificações das inter-relações.
O escritor holandês Cees Nooteboom teve uma experiência real muito interessante. Nooteboom relata que foi convidado para um evento de arte em Perth, pequena cidade da Austrália: ele e algumas outras pessoas iriam fazer um percurso por certos lugares na cidade para encontrar anjos. Pessoas comuns vestidas de branco e com asas, nas mais diversas situações. Num prédio abandonado, atrás de um armário, olhando para a parede estava uma mulher imóvel vestida de anjo. Um anjo decaído. Ficou fascinado por aquela personagem ali jogada olhando para o nada. Tentou conversar com ela. Após algum tempo, o máximo que ouviu foi: “não posso falar com o senhor”.  Foi a partir desta experiência que ele escreveu Paraíso Perdido (Companhia das Letras).
O livro conta a história de Alma - o nome é proposital – uma linda e jovem brasileira que após ter sido estuprada numa favela em São Paulo, voa para a Austrália com sua melhor amiga, Almut. Ambas têm descendência alemã, estudam história da arte e Alma é obcecada por anjos. Ela terá um affaire com um pintor aborígine feito de sexo e longos silêncios à beira-mar. É ela quem se transformará no anjo cênico. Paraíso Perdido é um pequeno labirinto metalingüístico onde o acaso anda à solta, como um anjo, a promover encontros e presenciar desencontros e mal-entendidos humanos, demasiadamente humanos, diria Nietzsche.
Em certo momento dá-se o encontro com o anjo: “E ele? Um homem num aposento fitando um anjo estendido no chão. Anjos são seres míticos, mas em pleno século XX caem na categoria do kitsch, da ironia ou da encenação. E, ainda assim, aquele corpo mirrado e encolhido, aqueles pés descalços, todo aquele ser feminino – porque era uma mulher, ele tinha certeza, por mais que parecesse com um menino – causara nele um efeito: medo, comoção, desejo. Ele precisava vê-la levantar-se e bater aquelas asas que jaziam, grotescas, na poeira.” Retorna ao hotel, mas naquela noite ele não irá dormir. Pensa nela continuamente nela. Todo anjo é atemorizante, escreveu Rilke. E onde há medo, também há desejo. No dia seguinte ele retorna. “Pousa o olhar no rosto imóvel, nos pés descalços, nas asas. O que aconteceria se ele dissesse alguma coisa? Um tijolo arremessado contra um espelho, um ruído de cacos se quebrando, uma espécie de gemido vítreo, e o silêncio volta a se impor. Um silêncio dos que violam o intangível. Senta-se, de costas para a parede. O tempo, desprovido de peso, recebia um lastro em que tudo pesava: a tensão, o pressentimento de uma cilada. Pensa ter ouvido alguém se aproximar, mas é um alarme falso. Ele toca uma das asas bem de mansinho, com a maior ligeireza possível. – Please, go away. – I cannot. I want to talk to you. (...) Acontece que me apaixonei perdidamente por você”, ele diz. “Foi por causa das asas. Você não foi o único. Mas anjos e seres humanos são incompatíveis”.
É nesta tênue linha entre ficção e realidade que Cees Nooteboom transita e parece nos levar ao intangível das relações.
O acaso faz com que o ‘autor’ e Alma se encontrem no avião de volta. Ela lhe sussurra: “Será que o senhor já parou para pensar no inventor do Paraíso, um lugar onde não ocorrem mal-entendidos? O tédio incomensurável que deve reinar lá só pode ser entendido como uma punição. Para inventar algo assim, só mesmo um mau escritor.”
Se estamos fora do Paraíso, qual é o habitat que esta Terra nos reserva? Será que a humanização tem nos tornado demoníacos?
Harold Bloom, Anjos Caídos (Objetiva), escreve que “o anjo Adão foi um anjo caído que logo pôde ser distinguido de Deus. (...) Eu afirmo alegremente que todos nós somos anjos caídos, e trato agora de nos separar e de nos afastar para longe de nossos primos mais antipáticos, os demônios e os diabos.”

Carlos Eduardo Leal
Psicanalista e escritor

Para quem gosta de ler ouvindo música, a voz de um anjo: Virgínia Rodrigues no cd Recomeço. Principalmente, a primeira faixa: Todo o sentimento (Chico Buarque e Cristóvão Bastos). Biscoito Fino.



sábado, 17 de junho de 2017

No sítio do meu vô




João Luis não sabia o que era o amor. Sua mãe avisou que não era negócio seguro não. Pegava, virava ao avesso e depois deixava assim na grama sem desvirar feito jabuti. Achou engraçado porque gostava de desvirar jabutis. Tinha lá seu quinhão de sabedoria e alguma astúcia ao fazê-lo. Seu vô disse: o retorno do vento no rosto é garantia de enamoramento. Se nos olhos entrasse poeira, areinha que fosse, e lacrimejasse, era amor na certa. O certo é que João Luis tinha uma árvore que era só sua. Ficava lá no mais alto dos morros do sítio. Assim: havia um descampado, e no meio do nada do capim, brotava imensa, majestosa e com copa suficiente para abrigar o menino e sua enorme imaginação. Da sombra assentada sobre o capim, sombra que balançava e voava nas horinhas do dia, João Luis sentava e fertilizava amores por aquela árvore. As raízes eram o prolongamento de suas ideias e seus braços esticavam tanto que faziam cosquinha do verde das folhas com o azul do céu. De lá avistava o mundo. Diante de seus olhos descortinava um vale e vez por outra, algumas vacas e inúmeros passarinhos. O amor por aquela árvore havia fisgado nos olhos e na carne macia de sua alma. Reciprocidade e reconhecimento não eram nomes ditos pelo avô Chico, mas era sentimento que transbordava sem carecer de palavras. Dizem que até hoje, face enrugada, olhos cansados de marejar a vida, o menino ainda aparece por lá naquele amor só dele. Amor endoidecido de menino pela natureza nunca careceu de razão não senhor.

Carlos Eduardo Leal

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Os pais


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OS PAIS

Bernardo atravessou a sala correndo em busca de socorro. Não gritava talvez por falta de ar. Talvez porque, ainda pequenino, não soubesse usar o tamanho dos seus passos com a velocidade pretendida. O fato é que não achou ninguém ao redor. Foi até a cozinha e lá estava Hercília, a antiga empregada que já vira uma geração inteira nascer e agora acompanhava com gosto o crescimento dos meninos.
- Lila! Lila! Lila! Gritou mais forte o menino de apenas três anos.
Sem demonstrar espanto, prevenida pela idade com a gritaria de gralha dos miúdos, a generosa Hercília resmungou qualquer coisa afetivamente como se dissesse: acalme-se menino. Não precisa ficar tão afogueado assim. Tudo vai passar. E, como se Bernardo adivinhasse o pensamento de Lila, gritou batendo as perninhas no chão:
- Jan quebou. Jan quebou tudo. Vem logo. Vem Lila!
- Quebrou o quê, menino? Vamos, diga porque estou atrasada preparando o almoço.
- Quebou o quato dele. Tem sangue! Muito sangue nele!  Bernardo, irmão mais novo de Jean Paul com 13 anos e Lívia, com 8, ainda não conseguia pronunciar o “erre”. Era o ‘Cebolinha’ da casa embora o caçula nem soubesse de quem se tratava: o dos quadrinhos ou o tubérculo.
Estavam de férias, nenhum dos três tinha hora para coisa alguma, mas Hercília gostava de manter a tradição geracional de servir o almoço pontualmente sempre às 12:30hs. Quando estavam em aula, JP e Lívia que já estudavam de manhã, almoçavam mais tarde, por volta de 13:00hs. Bernardo ainda almoçava 11:30h por causa da condução que o levava à escola. Hercília organizava a casa com precisão suíça como já havia feito durante muitos anos na casa dos pais de Juliette. A mãe tinha 38 anos, era uma arquiteta famosa pela sua criatividade e ousadia tanto nos projetos arrojados quanto na ambientação da casa: o prestigiado design de interiores. Gostava de misturar coisas simples encontradas em antigas fazendas em demolição com o pós-moderno criando ambientes que davam um sutil toque de rústico-chic. De descendência francesa, Juliette Bell-Ambroise, nasceu no Brasil porque sua mãe que era voluntária na França dos Medecins sans Frontieres, os médicos-sem-fronteiras. Veio ajudar e dar capacitação para uma comunidade carente próximo a Crato, no interior do Ceará. Interessava-se pelo Brasil porque nos anos 30, seu avô viveu aqui como diplomata. Gostava das histórias que ele contava para sua filha, a Petite Juju, como era carinhosamente chamada por ele. Apreciava também a sonoridade da língua e principalmente a música. E foi ficando.
Juliette Bell-Ambroise nasceu em Recife no dia 13 de junho de 1978, dia de Santo Antônio. Juliette, a francesinha, era tipicamente uma parisiense descolada. Bolsa a tiracolo, vestidos multicoloridos, olhos de lápis-lazúli e cabelos de fogo caídos com suavidade sobre os ombros. Esguia, sardenta e sempre com um sorriso franco em seus olhos que conquistava com sua simpatia, qualquer um por onde passasse. Era bom ouvir seu falar recifense-cantado com um quê de sotaque francês oriundo de sua casa. E foi em Olinda, dançando quadrilha no meio da rua em plena festa de seus 19 anos, que Juliette encontrou Chico Só no meio da rua, no início da vida.
Chico era órfão de pai e mãe. Quando o pequeno Francisco tinha apenas 3 anos, idade atual de Bernardo, seus pais morreram num trágico naufrágio no Rio São Francisco. Das 82 pessoas a bordo na embarcação, apenas Chico e mais seis pessoas sobreviveram. Antônio, seu pai, conseguiu amarrar o menino numa boia e implorar para que o salvassem. Cumpriu-se o pedido, mas não se evitou de chamá-lo de Chico Só. Chico era festeiro, adorava cerveja e pinga e dizia que uma era o tira gosto da outra. Não se sabia bem se a cerveja era o tira-gosto da pinga ou vice-versa, mas talvez justamente por isso, o fato é que estava sempre alegre. De barba sempre por fazer, nariz afilado, olhos negros, profundos, cabelos encaracolados e magro, como se estivesse sempre com fome. Chico tinha 20, estudava jornalismo e, entre uma cerveja, beijos e passos desequilibrados de frevo, os dois juraram amor eterno.
Descobriram inúmeras coincidências: estudavam na mesma universidade em Pernambuco, gostavam das mesmas músicas, da necessidade imperiosa de olhar as estrelas, buscavam um amor que não se liquefizesse após o álcool e tinham o mesmo desejo de morar no Rio de Janeiro.
Chico Só, terminou jornalismo um ano antes de Juliette que tinha ido fazer um curso de design de interiores em Milão com uma bolsa de estudos que havia recebido. Foram os oito meses mais longos para os dois. Nunca haviam se separado nem por um único dia. E, como há 18 anos atrás ainda não havia internet, facebook e WhatsApp, telefonaram-se o quanto podiam e o dinheiro dava. Não raro as contas explodiam e permaneciam em angustiante silêncio. Sabiam que o curso era importante para Juju e como ela mesma era muito determinada, nada a impediria também de o fazer. Sabia o que queria para sua vida profissional, embora também soubesse desde cedo que encontrara em Chico um homem para dividir a vida. O sonho de uma vida a dois divinamente equalizada era a garantia de uma trilha sonora feliz para o resto da vida. Assim se sonha, assim se vive quando se é jovem, e também se acorda para a realidade um pouco mais dura da vida.
Hercília tirou o avental e subiu rapidamente as escadas em direção ao quarto de Jean Paul. Havia sangue para todo lado. JP estava sentado no chão, branco como cal. Não dizia uma única palavra. Em sua mão direita um caco de vidro e no esquerdo um corte na altura do pulso. Lila deu um grito de socorro ao mesmo tempo em que levantava JP para levá-lo para ao banheiro. Colocou o braço de JP debaixo d’água na pia e logo viu que a extensão do corte não era tão grande.
- Acalme-se, meu filho. Vou cuidar de você. 
Lila secou cuidadosamente o ferimento, abriu o armarinho embaixo da pia e lá achou o que precisava: mercúrio cromo, gaze e esparadrapo. Quem tem criança pequena em casa sempre tem estas coisas, mas sempre pensando em machucado e não em tentativa de suicídio, pois era isso que à primeira vista aparentava. Levou JP de novo para o quarto e só então foi que viu que Lívia estava acocorada no canto da cama chorando muito.
Era este um drama cotidiano, ou havia algo mais por detrás dos longos cabelos dourados de Jean Paul?
- Tá doendo, manico? perguntou Bernardo muito apreensivo. JP não dizia nada. Talvez envergonhado do que havia feito, o fato é que se mantinha cabisbaixo ajudado a recolher-se em sua caverna pela vasta cabeleira que encobria o ato quase fatal e o rubor.
Hercília virou-se para Lívia e disse com ternura: Lili, preciso cuidar de seu irmão, depois falo contigo, está bem? Lívia olhou para sua guardiã como quem pergunta o porquê da vida desistida. Lívia, em seus oito anos começava a sentir que alguma coisa não ia bem com seu irmão há algum tempo. E recordou-se quando ele se trancou dentro do quarto no ano passado e lá ficou durante quase o dia inteiro. Quando os pais resolveram arrombar a porta ele abriu e seu rosto era de estranha e angustiante calmaria ao contrário de todos na casa. Na época, Lívia durante o ‘dia infeliz’, como seus pais passaram a chamar aquela data, pensou que ele tinha perdido a chave, ou estivesse dormindo, ou ainda que seu irmão mais velho tivesse fugido pela janela dentro de uma nave intergaláctica. Jean Paul aos 13 era viciado em jogos eletrônicos e música clássica. Sem saber o porquê, Jean Paul adorava Vivaldi, Bach, Mozart e achava a nona sinfonia de Beethoven algo de outro mundo. Ode to Joy de Beethoven e As Seis Suítes para Violoncelo de Bach, eram seus temas favoritos.  Lívia, que estava no auge do aprendizado das letras, gostava imensamente de livros e revistas coloridas próprias para uma menina de 7 anos. Chico Só contava para a filha algumas aventuras de Monteiro Lobato. Bernardo ainda estava nos blocos de montar, rabiscar cores nas folhas e algumas vezes experimentá-las nas paredes do seu quarto e assistir avidamente desenhos na televisão. Bernardo era luz solar, Jean Paul, crepuscular e Lívia ainda flanava nas nuvens azuis num dia de outono. Como toda família, havia algumas turbulências, mas nada que beirasse o ato suicida cometido por Jean Paul nesta manhã de terça-feira. Hercília não sabia o que fazer e os dois irmãos estavam atônitos. Aliás, neste caso só havia mais uma coisa a fazer e, urgentemente: ligar para os pais.
Hercília, sempre tão comedida e de atitudes não intempestivas conseguida através dos anos de experiência naquela família, estava com a voz abafada, embargada e gaguejante ao telefone.
- Juliette. Dona Juju.
- O que foi, Lila? Por que esta voz assim? Mãe sempre percebe e fareja a raposa perto do galinheiro.  Mas desta vez o ferrão vinha de dentro de onde se esperava tranquilidade e mansidão.
- A senhora precisa voltar para casa.
- O que foi? Diga! Você está me assustando, Hercília. Alguma coisa com as crianças? Como uma mãe consegue? Como ela pode pressentir o mal a rondar-lhe a paz capturada no exercício diário com os filhos? 
Hercília não sabia mentir. Ao menos quando se tratava da segurança das crianças. Era uma mulher fiel aos seus princípios e sabia muito bem da importância do lugar que ocupava naquela família. Era ancestral e hierárquica. Era firme e doce com os pequenos. Era a segurança para que Juliette e Chico Só saíssem para trabalhar. Cuidou de Juliette e agora cuidava dos filhos dela. Generosa, cabelos já quase todos grisalhos e um pouco encurvada pelos dias diante da pia e do fogão, gostava do que fazia e tinha prazer em vê-los crescer como se fosse seus.
Havia casado muito nova, mas descobriu em Dermeval o sabor amargo da traição. Ele era um galinha, dizia furiosa. Mas, depois, sorria vitoriosa e completava: o machinho aprendeu de uma vez a lição. Ela nunca contou e ninguém nunca ousou perguntar o que ela havia feito. Porém, o sorriso irônico de vitória indicava uma vingança à altura da traição. Não teve filhos, mas cuidou de Juliette como se fosse sua e, agora, cuidava dos filhos da patroa como se também fossem seus. Ao longo da vida teve muitos namorados. Mas sabe-se que sua grande paixão foi o Val, como ela assim se referia a ele. Uma mulher não esquece sua grande paixão, costumava dizer. Um homem que faz uma mulher se sentir verdadeiramente uma mulher, vai ter um lugar de amor ou ódio em seu coração para sempre. Medéia que o diga.
Quando Hercília conheceu Dermeval, ele fazia teologia para se tornar pastor da Igreja da Eterna Salvação. Comunidade evangélica criada pelo pai de Dermeval, o famoso Pastor Epaminondas. Homem bom, correto, de boa família, Hercília, também temente a Deus, jamais imaginou que a casa atrás da igreja fosse um reduto em que Dermeval ‘cuidava’ espiritualmente de suas apóstolas. “Elas precisam de orientação espiritual”, dizia o safado. Afirmava que a virgindade era um dom divino e que só “deitaria na cama após o sagrado casamento. Amém?” Hercília, que era muito fogosa em sua adolescência, a tudo escutava e, com o coração em brasa esperava ansiosa pelo desfraldar das velas e se lançar no mar dos seus desejos mais secretos. Val dizia, reinventando a Bíblia, que Adão e Eva foram expulsos do Paraíso porque comeram do fruto proibido antes do tempo. Hercília, maravilhada, a tudo ouvia em puro êxtase aquelas sábias palavras que saíam como mel da boca do homem que ela havia decidido se entregar. Nós somos um em Cristo, dizia. E achava lindo ele se guardar também para ela. Juntos iriam descobrir o fogo que já lhe queimava o peito quando ficavam um pouco a sós.
Mas eis que o destino prega suas peças e um belo dia, a própria mãe de Hercília pediu que sua filha lhe acompanhasse à casa de oração para buscar o xale que ela havia esquecido no culto dominical. E, sabendo que a porta da igreja da frente já estava fechada, passaram por uma pequenina porta lateral, rodearam a pequenina casa de aconselhamento espiritual quando ouviram umas risadas. Antes que Hercília falasse alguma coisa, Dona Esmeralda tapou-lhe a boca e fez com o dedo em riste um sinal de silêncio. Avançaram até uma pequenina janela em basculante que ficava entre a casa e o muro. E eis que as duas não conseguiram se conter diante da cena e, como se houvessem combinado, gritaram em uníssono o mesmo palavrão. Hercília correu para o outro lado e gritava para que Dermeval abrisse a porta. A vizinhança com o barulho da gritaria foi chegando. Na calçada já havia uma pequena multidão que não entendia o que estava acontecendo. Eram pessoas simples que frequentavam a Igreja da Eterna Salvação. - Safado! Safado! Abre esta porta que eu vou te bater muito seu pilantra. Abre se você for homem! Do lado de dentro não se ouvia um único ruído. Foi então que alguém resolveu chamar o pastor. E quando chegou, Rosinha Felícia saiu em disparada lá de dentro cobrindo o rosto de vergonha. Passou pela furiosa Hercília não sem antes levar um puxão de cabelo e uns dois tapas que todo mundo aplaudiu. Nem a força do pastor conteve Hercília que passou por ele antes mesmo que ele dissesse seu famoso, amém? E o que se ouviu foi o que toda pequena cidade de Brejo da Madre de Deus, no agreste pernambucano, comentou. A confissão em público durante o culto no outro domingo, fez com que o perdão divino caísse sobre a desconfiança do povo. Além de Rosinha Felícia, mas outras três meninas juravam que haviam sido emprenhadas pelo ‘bondoso’ filho do pastor. O que aconteceu com ele que ficou “doente” durante mais de três semanas em casa, ninguém soube ou ousou perguntar. Soube-se apenas que foi logo após uma inesperada visita ao ex-noivo que este caiu de cama com febre ardente. Ao menos esta era a versão oficial contada pela boca do próprio pastor.   
Foi neste cenário que Dona Esmeralda pegou a filha e as duas vieram tentar a sorte em Recife e acabaram encontrando numa feira, Judith, a mãe de Juliette. Encantadas por nunca terem visto um cabelo louro e uns olhos tão azuis como aqueles, as duas recém-chegadas do árido agreste, ficaram como que hipnotizadas. Assim surgiu a amizade entre elas.
Assim também irrompeu porta adentro Juliette gritando pela Lila.
- O que foi que aconteceu, Lila? Aonde estão vocês?
Estavam todos no andar superior da casa no quarto de Jean Paul. Lívia continuava encostada no canto da cama, Bernardo brincava no chão e JP estava deitado no colo de Hercília que carinhosamente passava a mão em seus longos cabelos louros. Juliette botou a mão na boca quando viu a gaze em volta dos punhos de seu primogênito.
- O que foi que você fez, meu amor? Quem te machucou assim? Não queria acreditar na evidência do sangue no lençol. Não queria acreditar que seu filho pudesse ter atentado contra a própria vida. Assim como não quis acreditar quando sua mãe morreu com uma bala perdida numa comunidade perto da capital. Era a morte em vida naquela cena. Era uma punhalada em seu próprio coração materno. Não existe ex-filha ou ex-mãe, pensou com lágrimas no triste azul de seus olhos.
- Ele se machucou sem querer. Socorreu a aflita Hercília.
- Não foi isso, mãe. E você sabe. Disse Jean Paul levantando envergonhado os olhos. Escondido sob o domínio da tristeza, JP sentia que sua opção de vida, que ora se delineava, não era compreendida por quem ele muito amava: seu pai. Meu pai não gosta de mim. Sentenciou seco.
- Claro que gosta. Gosta a maneira dele.
- Você sempre diz isso.
- Digo porque é a verdade. Ele gosta, só não sabe demonstrar.
- Ah, ele demonstra sim. Demonstra não deixando meus amigos gays virem aqui.
- Mas tem seus irmãos menores...

Jean Paul a cortou bruscamente e saiu do quarto batendo a porta atrás de si. Então Lila contou o que sabia e Lívia contou a sua versão e Bernardo não sabia contar coisa alguma. Só ficou com muito medo do sangue escorrendo do ‘baço’ do irmão.