sexta-feira, 5 de junho de 2009

Para Oscar Palacios

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Verdejante: restaurante do Oscar Palacios e da Maria Pia


Quando quis morrer não consegui. Agora, justamente no momento em que mais queria viver, te olho de cima. De algum lugar que ainda não sei bem, repouso o olhar sobre a divisão dos teus cabelos esbranquiçados. Ainda és bela. Não-jovem, bem sei. Mas ainda cultivas o esplendor da arte entre seus longos dedos. A erva daninha dos nossos dias eram arrancadas com a sabedoria e a precisão com que torneavas a cerâmica ainda úmida, fértil em formas. Arrancavas do chão o barro que irias processar a geração de uma nova obra. A criatividade ainda é-lhe uma grande aliada. Não mais trabalhas com o barro, bem sei, mas dás igualmente forma artística à comida verdejante que nossos amigos desfrutam em nosso restaurante. Sei que agora estás sozinha e, talvez pensando no último tango que juntos ouvimos depois de um exaustivo fim-de-semana de trabalho. Quando todos iam embora, ficávamos a sós, sentados na varanda daquela casinha no meio da floresta, local no Engenho do Mato que escolhemos para viver nossos últimos dias. Nunca pensamos quem iria primeiro. Achávamos que iríamos juntos, ou nem cogitávamos esta ridícula hipótese de um deixar o outro. Íamos juntos para todos os lugares: ao mercado esolher as frutas, o chocolate e a farinha integral para suas deliciosas tortas, passeávamos pelos hortifrutis da cidade em busca da rúcula, da alface e da chicória frescas, compradas ainda na sexta-feira, pois só abríamos nosso restaurante aos sábados e domingos. As tâmaras secas, o triguilho, a soja, o trigo sarraceno, o tomate cereja, a endívia e tantos outros verdejantes produtos você os colhia com a força e o cuidado de quem retira uma criança do útero de sua mãe, e, assim fazendo, lhe dá a vida.
Nos últimos tempos já andávamos exaustos com o trabalho, mas você não esmorecia e sempre tinha uma palavra de ânimo: Oscar, neste final de semana farei um quiche de abobrinha com ricota fresca e ervas finas que vai ficar uma delícia. A cada desânimo ou abatimento meu você respondia com a invenção de um novo prato que iria deleitar nossos fregueses. A criação sempre fez parte dos seus planos. Quando você no mercado olhava para o arroz selvagem ou o arroz negro, já sabia do seu tempo de cozimento e que tempero colocar para realçar ainda mais o sabor, fazendo de cada prato uma delicada iguaria. Teu olhar infindo, doce e forte, rasgavam as folhas das hortaliças e do meu coração.
Nosso sangue argentino dava-lhe a paixão e a coragem necessárias para continuar mesmo depois de sofrermos alguns reveses. E não foram poucos, mas nossa união sempre foi o tempero mais forte da nossa vida. Agora, estás sozinha e eu te deixei sem o querer. Te deixei porque meu tempo acabou como acabam as estações. Te deixei para te reencontrar quando a tua jornada alcançar a minha. Te deixei porque uma maçã também apodrece esquecida em cima de uma fruteira. Não, eu nunca fui esquecido por você. Mesmo agora nos meus últimos dias, você me levava na cama a minha sopa predileta e com enorme desvelo dedicava-se a cuidar de mim como nos primeiros dias das nossas vidas.
Minha alma de artista sempre esteve ao seu lado. Gostava de pintá-la. Agoro posso dizer (pois muitos me perguntavam) que era você nua na cama dos nossos sonhos, os quadros que eu pintava e que ainda continuam pelas paredes. Minha paleta estava repleta com suas cores. Gostava de retratá-la em sépia, em suaves pinceladas que davam contornos ao seu dorso nu. Os cabelos quase em desalinho demonstravam a sua rebeldia para com o mundo. Coisa de artista que se rebela para poder criar o que era genuinamente teu. Fiz muitos quadros, mas os teus gostava de expô-los pelo restaurante para que vissem aquilo que eu mais amava: te pintar e saber que era toda minha.
Agora eu me fui. Rápido como uma fuga de Bach tocada pelo Glenn Gould. Ah, como esta vida é veloz. E você costumava compará-la ao tempo de cozimento al dente de uma vagem. Aquece-se a água até que esta ferva, joga-se a vagem nesta fervura e quando esta menos espera, retira-a da panela e a despeja num recipiente com gelo dando-lhe um enorme susto. Pronto, a vagem fica al dente e crocante. Você sorria com suas comparações entre o preparo ligeiro da comida e a brevidade da vida. Vida breve como um simples período de aquecimento e rápido como um resfriamento. E a vida seguia suave como folhas ao vento, sem ao menos um último olhar, réquiem para uma despedida.
De onde estou não sei se estou suave. Sei que sinto a tua falta. Ainda não me acostumei a olhá-la do alto. Do alto e sozinha/sozinho. Vislumbro novamente a divisão dos teus cabelos no alto da sua cabeça. Notei que alguns outros fios brancos e prateados surgiram enquanto eu te escrevia.
Não, não chores a saudade, pois não posso estar aí para consolá-la. Sim, chore a saudade, pois eu sempre estarei ao seu lado para consolá-la.

Ps: Prezado Oscar: lembro, hoje com a vista úmida, e isso faz tanto tempo, quando nas terças-feiras de manhã cedinho eu pegava o carro, dirigia por 40 minutos e ia até o seu restaurante ter aulas de desenho com você. Você me aguardava com seu sorriso sereno, abria a porta do restaurante que se transformava num ateliê. Abria as janelas para o verde, abria as janelas para o mundo e colocava uma música clássica. Então, eu esquecia da vida que havia na minha vida e me transportava para uma outra dimensão. Ali desenhávamos e, com sua delicada, mas firme mestria, me ensinava muito sobre a simplicidade da vida tal como a leveza do lápis preto esfumaçando sobre o papel em branco. ...sobre o papel em branco. ...o papel em branco. ...papel em branco. ...em branco. ...branco. ...

15 comentários:

Michelle Nicié disse...

bela mensagem de amor e de amigo.
bjs
M.

isis disse...

pensei uma palavra tão feia...
pq a beleza do que li é tanta que só um pqp
vindo do fígado expressa a força do impacto que a beleza dessas palavras, dessas vidas, causam.
Que lindo, as palavras, e essas vidas.

isis

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo,
A saudade dos que se foram é algo que vez por outra volta com a força destas tuas palavras tão lindas!!!

Reactions

As I look out of the window of my heart
I see sorrow, tears and anger.
But if I use the eyes of my heart
I see smiles, laughter and strength
which marked my sister's life.

Isso escrevi logo que minha irmã faleceu tragicamente... Temos que aprender a relembrá-los com alegria - tão difícil!!!!

Abraços forte

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle, Isis e Anne,
Obrigado pela solidariedade nos afetos e nas palavras.
Bjs,
Carlos Eduardo

apuraessenciadoser disse...

Essa sensibilidade nas particularidades de cada ser e cada trocar, compartilhar, relembrar, combinado às diferenças e necessidades que se repelem, ou não se permitem. Tudo bem misturado, com pitadas de carinho, admiração e nostalgia... olhando de cima.

"Te deixei porque uma maçã também apodrece esquecida em cima de uma fruteira. Não, eu nunca fui esquecido por você. Mesmo agora nos meus últimos dias, você me levava na cama a minha sopa predileta e com enorme desvelo dedicava-se a cuidar de mim como nos primeiros dias das nossas vidas. Minha alma de artista sempre esteve ao seu lado. Gostava de pintá-la. Agoro posso dizer (pois muitos me perguntavam) que era você nua na cama dos nossos sonhos, os quadros que eu pintava e que ainda continuam pelas paredes. Minha paleta estava repleta com suas cores."

Admirável relato, desabafo. Lindo conto. Grande história.

Bjs,
Raquel.

Rosa Maria disse...

A beleza das coisas simples, permeadas pelo afeto. Belo texto, de uma sensibilidade que comove! A história de vida me evocou, de alguma forma, Oscar e a Senhora Rosa, do Eric-Emmanuel Schmitt.
Grande abraço.
Rosa Maria

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
Obrigado por "recortar" as minhas palavras, são sempre estas as mais tristes de escrever.
Bjs
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Rosa,
Obrigado pelas suas sensíveis palavras. Não conheço este texto do Eric-Emmanuel Schmitt. Você poderia me indicar a referência?
Com carinho,
Carlos Eduardo

Silvia disse...

O Verdejante já foi quase saboreado por mim, tal as mil referências. Como boa gaúcha já cheguei até o CTG, mais um pouco e chego "nos pastos", ainda mais depois desta ode tua.

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Vá lá, mesmo sem o Oscar, a Maria Pia é a grande chef que dá vida aos pratos mais incríveis. São pessoas que não podem imaginar comer a carne de um animal. Não esqueço do Oscar admirado se (me) perguntando como é que alguém é capaz de comer carne.
bjs
CEL

Anne M. Moor disse...

Deixo aqui meu abraço para o escritor no lançamento do livro hoje. Muita vontade de ter estado com vcs aí...

Beijos

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Mais uma vez obrigado pela sua delicadeza. Com certeza vc se fez e se faz presente no coração da gente.
Bjs e espero que o livro chegue por aí...
Carlos Eduardo

Mabel disse...

Carlos Eduardo,
acho que compartilhamos um profundo amor
por uma pessoa que esteve nesse mundo sem ser
do mundo, um homem gentil e diáfano, que canalizava sua arte para a vida...
Suas palavras para o Oscar são muito poéticas
e muito felizes na descrição de algo tããããão raro, mas que tivemos ao alcance das mãos...
beijo grande,
Mabel

Carlos Eduardo Leal disse...

Mabel,
Obrigado pelas suas palavras, você que também teve o prazer de compartilhar da amizade, do carinho e da generosidade tão grande quanto a do Oscar,
Bjs

Cristiano disse...

Oi Carlos bom dia, recentemente comprei um quadro desse grande artista num leilão chama-se Pindárico, é uma tela linda, porém sinto falta dos significados do quadro, ficaria muito feliz caso você pudesse me ajudar, se puder enviaria um email com foto, e sem pressa aguardaria pela interpretação do quadro, pois isso também é parte importante das obras desse artista, desde já agradeço.