sexta-feira, 19 de junho de 2009

A inveja

Loretta sempre teve uma queda por homens mais velhos. Quando criança adorava os 'tios', fossem eles verdadeiros ou postiços. Chamava de tio qualquer um com mais de trinta e fazia questão de que eles a chamassem de sobrinha ou, quando muito, de Lori. Vai que a vida corre a galope sincopado e a menina cresceu em exuberância de seios e coxas bem torneadas, mas a ideia dos tios continuava a mesma de quando menina. Encasquetava de querer namorar só homens bem mais velhos. Aos dezesseis deu em cima do pai de Clarinha, sua melhor amiga da escola, que havia acabado de ficar viúvo. Seu Haroldo riu sem graça das insinuações quase que impertinentes da colega da sua filha. Mas Lori era insistente. Quando colocava uma coisa na sua cabeça, aquilo ganhava a dimensão de uma verdadeira obsessão. E esta ideia fixa a consumia em suas noites e dias. Ficava à la cebolinha tratando de arranjar um 'plano infalível' para caçar um 'coroa' que era como suas amigas chamavam os homens da preferência da Lori. Clarinha, passada a raiva da amiga ter dado em cima do seu pai logo após a morte da mãe, tentou arranjar uns quatro ou cinco caras para ficarem com a Lori, mas ela nem deu bola. - Clarinha, minha amiga, disse Lori, você só me arranja fraldários. Gosto de segurar nuns cabelos grisalhos. Eles possuem mais vivência e eu gosto da 'pegada' da experiência e não daquelas mãos que não sabem o que fazer com elas.
Mas o destino é embaraçoso em seus caprichos e as veredas sorrateiramente moleques a quererem pegar peça na pobre garota. Em todo cara que ela dava em cima tudo não passava de uma única noite. O livro podia ser lido numa única noite riam os homens da cara dela. Mas, o que acontecia que nada acontecia ou ia muito além? Era muito oferecida?
Pois acontceu o que de pior poderia acontecer a uma garota, agora com dezenove anos. Num fim de semana ela tinha ido viajar com os pais e, infelicidade, o carro desgovernou, saiu da estrada, capotou e sua mãe veio a falecer antes de chegar ao hospital.
Traumatizada e ainda chorando muito, ela e o pai conseguiram ficar no mesmo quarto do hospital. Ele havia fraturado duas costelas e o maxilar e Lori fraturara o punho esquerdo, e as duas pernas além de sofrer várias escoriações pelo rosto, marcando-o profundamente.
Mas nada é tão ruim que não possa piorar.
Clarinha, lembram dela? Há anos a melhor amiga de Lori... Pois é, ela veio visitá-los e quando os viu desmaiou. Os médicos acorreram em socorrê-la e, pelas condições precárias do hospital de beira de estrada, recostaram-na na mesma cama do pai de Lori. Quando acordou estava recostada no peito de Nataniel, o pai da Lori, que a estas alturas fuzilava a amiga com o olhar.
Mas, vocês podem estar se perguntando: como é que a Lori poderia nutrir um sentimento destes pela sua melhor amiga que nunca gostou de homens mais velhos e, ainda por cima, justamente quando sua mãe havia acabado de morrer? Recorro ao velho Shakespeare que dizia que há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.
- Quer sair de cima do meu pai! Foi a primeira frase dita aos gritos e com extrema raiva pela Lori assim que Clarinha abriu os olhos. Mas Nataniel, tal como F. Pessoa, num gesto largo, liberal e moskovita, abraçou a menina com ternura e agradecendo pelo carinho disse quase que sussurrando: Clarinha, fique aqui o quanto você quiser. Clarinha sorriu condescendendo. Lori fuzilou ainda mais a amiga que recostou-se ainda mais e mais naquele ombro amigo.
Já em casa Clarinha ia todos os dias visitar os dois. Dava um beijo na amiga e sumia. Silêncio na casa e Lori com as duas pernas imobilizadas sem poder levantar-se gritava aos soluços que agora entendia tudo, entendia aquela sacanagem que os dois estavam fazendo com ela, só não entendia a vida. Ela que sempre quis um homem mais velho via agora como tudo se desenrolava. Não, não era possível, sua melhor amiga com seu pai.
Seus quarenta dias de agonia na cama deram-lhe tempo suficiente para municiar-lhe a inveja do romance que agora se consumara de fato. Entre os intervalos da fisioterapia pesquisava coisas em segredo na internet. Ficava horas trancadas em seu quarto e, obviamente, nunca mais dirigira a palavra para sua ex-melhor amiga que vivia não só na situação que ela sempre quis, mas que também roubara seu pai.
Estava decidida, se ela não podia ter ninguém como ela queria, sua amiga também não. Cegara-se em sua iracunda decisão: ia matar Clarinha. Só ainda não sabia como. E era isso que pesquisava na internet. Como cometer um assassinato perfeito.
Ah, mas a inveja é um para-chóque de caminhão. A inveja é uma merda, pois querer estar no lugar do outro é perder de vez o seu lugar. E entre o pensamento e o ato a excutar, eis que a pobre Lori perdeu a razão. Vestia-se com as roupas da Clarinha, cortava e pintava o cabelo tal como a amiga e dizia ser ela. E era mesmo impressinante a semelhança a ponto do próprio pai confundí-la com a amiga. Embirutou, diziam nas redondezas. Saía pelas ruas só de calcinha e sutiã com uma faca na mão e a foto da Clarinha na outra. Tentaram, acalmá-la, mas foi impossível. A menina gritava e chamava pelo pai, diga-se de passagem, chamava pelo pai de Clarinha, fique bem entendido. Chamaram o Corpo de Bombeiros e a internaram numa clínica psiquiátrica.
Quando o pai, consternadadamente triste foi visitá-la, não encontrando a Clarinha, acabou indo só. Achou inclusive que seria melhor assim para sua filha não ver sua rival e causa de toda aquela loucura. Mas quando ele chegou lá, qual não foi seu espanto quando encontrou Clarinha amarrada numa camisa-de-forças, e com os olhos esbugalhados de tanto haloperidol, apenas espumava com um sorriso perdido no horizonte e já sem o brilho dos dias felizes.
A inveja nem sempre mata, mas pode enlouquecer.

9 comentários:

Anne M. Moor disse...

A inveja como o ciúme corroem a pessoa. Que tristeza isso!!!

Beijos

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Então, estarmos alertas contra o excesso de ciúme ou inveja não é deitarmos um passo em direção da possibilidade da não-tristeza?
Talvez até possamos chamar, quem sabe, isso de alegria, ou quase a "Ode to joy" de Beethoven.
Bjs
Carlos Eduardo

Anne M. Moor disse...

Sabes Carlos Eduardo, uma de minhas filhas teve um papel preponderante em me fazer um ser pensante. Desde pequena ela não aceitava 'não' sem uma argumentação lógica e coerente. Ensinou-me a pensar nos meus atos e tentar entendê-los... Esse 'estar alerta' está permanentemente comigo, o que é bom, se bem que as vezes eu queria tanto ser 'uma loira burra' rsrsrsrsrsrsrs
Bom dia e beijos

Raquel disse...

Que irônica a vida, né?

=)

Bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Apesar de poder estarmos alertas Paulo Leminski já nos avisou que "Distraídos Venceremos"
Bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
Vou dar continuidade com estas questões sobre a vida aqui. (Ciúme, inveja...) Talvez no próximo texto escreva sobre a Alegria. Estive pensando num projeto antigo de um livro que talvez transcreva aqui para o blog. Vou ver no que dá.
bjs
CEL

Lu Andrade disse...

Ocorreu uma lembrança relendo o conto: Obsessão, Erica Splinder... Esta munição de "ações" improváveis provenientes de um sentimento.
Adorei o desfecho.
Bjos.

Rosa Maria disse...

Oi Carlos Eduardo,
Esses tais de sete pecados capitais são muito complicados mesmo! :))) Excelente, como sempre, o teu texto, em forma e conteúdo... Lembrei do Rubem Alves, citando Fernando Pessoa, quando diz que a inveja dá movimento aos olhos, e conclui que "o verme da inveja nunca faz nada com os tomates da horta alheia", "só com os da horta própria". E outra lição não se extrai da história...
Beijo da Rosa Maria

Silvia disse...

Custei a me decidir: comento este texto, ou não? Que lancinante, meu amigo. Decidi-me após ler o comentário de Rosa Maria: se a inveja dá movimento aos olhos deve ser para que não vejam a podridão dos seus próprios tomates.
Boa FLIP para ti.
Bjo