segunda-feira, 6 de julho de 2009

D. Carola e a Flip

D. Carola. Este é o seu nome. Encontrei-a perto da minha pousada em Paraty. Tive tempo de conversar com ela. Ela, ela tinha "todo o tempo do mundo" e o mundo já não lhe importava tanto. Só estranhava "tantos carros, tantas pessoas assim como você". Não quis perguntar o que era aquele "assim como você", não quis ser invasivo e já bastava a foto (concedida com sua autorização) para aquela invasão bárbara. A literatura invadira a sua cidade e ela foi tornando-se invisível. As pessoas passavam rápido por D. Carola e ela naquele passinho singelo, sem pressa para a vida, como se a vida já tivesse lhe dado o suficiente. Eu não lhe daria mais nada a não ser, talvez, o meu sorriso e uns "dois dedos de prosa". Engraçado, todos ali falando de suas prosas, de seus versos e ninguém, absolutamente ninguém afim de prosa com D. Carola. Todos tão letrados, todos tão internacionalmente vertidos em Proust, Dostoiévski, ou dos vivos tão distantes Mario Bellatin, Gay Talese, Simon Schama que estava tão (todos) preocupado (preocupados) com O futuro da América e seu Barack Obama. Mas quem se interessava pelo futuro das histórias que D. Carola tinha para contar? Ela em seu passo lento, barroco, sorria cumprimentando a todos agarrada ainda em seu passado de reverências simples e cumprimentos formais.
Tive vontade de lhe dizer: é a senhora D. Carola que é nosso passado vivo no presente e o meu presente para o dia de hoje. Tive vontade de lhe dizer muitas outras coisas, mas ela apenas me fitava com seus olhos que me enganavam tristes, mas apenas estavam esgotados em seu ensimesmamento. Tive vontade de lhe dizer dos muitos livros que nos circundavam naqueles dias, da festa da literatura neste Brasil tão pobre de leitores, mas descobri a tempo que ela era o meu Brasil iletrado, que ela, em sua grandeza de sua roupinha simples era a beleza que faltava naquelas páginas de todas aquelas pilhas de livros.
Deixei-a, mas ficou em mim a sua sombra que subia nos meus degraus inacabados. Um vazio. Tive vergonha de minha pequenez, eu que me achava muito porque ia entrevistar um escritor francês, eu que dali a alguns minutos com certeza estaria autografando meu livro.
Ela seguiu com seus passinhos miúdos não sei para onde. Eu segui meu rumo agora com a certeza de que meus passos eram muito menores do que os dela. Não consegui olhar para trás. Certamente viraria uma estátua de sal, ou, quem sabe, ficaria cego tal como Orfeu. Eu havia experimentado o gosto do pecado. O pecado de ver sua invisibilidade. Ela havia aberto em mim um ruído impossível de apagar. O impacto do encontro com o rudimentar, com a simplicidade, me fazia enxergar minhas cegueiras atávicas sobre o amor e sobre a vida. Agora eu pecava com uma força ainda maior do que todas as potestades. Eu era cúmplice das injustiças com as coisas simples e com as pessoas que a borracha da história apagava sem piedade. Agora eu sabia menos de mim, mas estava aberto para o mais. Mas Artaud não estava ali para me ajudar. Pobre Antonin, talvez ele também não soubesse e, por isso, tenha enlouquecido. Naquele instante, teria sido melhor enlouquecer? Não, não e não. Mil vezes não. Antes o encontro com a dor da verdade do que a fuga na loucura.
Assim, pude apenas constatar que D. Carola era a história viva que não coube em nenhum daqueles grandiosos livros, e eu, apenas mais um personagem em sua vida que ainda não havia sido sequer narrada.

26 comentários:

Telma Gomes disse...

Um verdadeiro encontro com o Amor. Mais Clarice, quase impossível. Melhor. Só com Clarice é possível. Sem ela e D. Carola o Amor seria impossível. Um abraço e o meu olhar comovido. Telma.

Michelle Nicié disse...

Bela D. Carola!!!
Me lembrou três personagens que aparecem numa peça curta do Beckett que se chama Ir e Vir. Nessa peça, Beckett destaca o fato de que as personagens têm idades indeterminadas. A única ação de toda a peça se resume ao movimento circular, contínuo e repetitivo de ir e vir, de cada uma das crianças/moças/senhoras... Um pouco como D. Carola, que parece não ter idade nenhuma ou trazer em si todas as idades do mundo. Belo olhar o seu!!! bjs

Michelle Nicié disse...

Esqueci de dizer o mais incrível, as personagens se vestem de modo similar ao de D. Carola e o chapéuzinho é idêntico... Um dia te mostro a foto de uma montagem recente.
beijos

Silvia disse...

D.Carola certamente existe. Não é uma ficção. Como não são ficções todos os tantos personagens anônimos desta nossa bucólica e romântica Paraty. Já sentiste o cheiro de "caminho real" que as pedras do chão exalam? E a cor sépia do anoitecer? D.Carola é dona disto tudo, em sua simplicidade. Que bom alguns se aperceberem disto!

Rosa Maria disse...

CEL,
D. Carola roubou a cena! Também estou aqui encantada com ela! Personagem saída diretamente das páginas de um livro (estou certa), em uma festa literária, e com alma mangueirense! Só o verde e rosa já me haviam hipnotizado, e me perguntava o nome do livro, lamentando não poder ver-lhe as mãos e o olhar (sou apaixonada por mãos e olhares), quando experimentei clicar em cima e a foto inundou a tela! E agora o fascínio é maior ainda! A delicadeza das havayanas rosas, em modelo que não conhecia, o rosto que me trouxe à memória os Cem Anos de Solidão, e sobretudo a chave pendurada ao pescoço! A chave da vida, não? Ah, e o melhor de tudo é que ela encontrou quem tinha olhos para vê-la, e ainda para trazê-la generosamente até nós! (será que a excitação e o brilho da FLIP provocam a cegueira branca do Saramago, como o dia-a-dia muitas vezes ofusca as coisas que realmente importam? Ou, ocorreu-me agora, talvez ela mesma escolha quem vai vê-la e fique cinzenta e incorporada à paisagem para os demais!). Mas me restou uma curiosidade: como é a sua voz? (os olhos, tenho certeza, são da cor do tempo, e imagino cheirasse a guardados, como na música do Chico!). É muito abuso pedir-te para descrever o som, o tom da sua voz (e o sotaque, se o tinha?) :)))
Mil desculpas, desde já, parabéns e obrigada. Beijo da RM

Carlos Eduardo Leal disse...

Telma,
Clarice nos habita e nos habitará para sempre para iluminar a nossa cegueira da vida cotidiana.
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Cláudia,
Obrigado por este fragmento de Dostoiévski tão rico. Você saberia me dizer qual é este texto?
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle,
Aguardo então pela foto da D. Carola Beckettiana
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Sim, já fiz a travessia do caminho real e, por lá, estava D. Carola.
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Rosa,
É possível te dizer que a voz dela era suave como todas as vozes do mundo poderiam ser e rouca como todas as vozes do mundo um dia ainda ficarão. A gente fala tal como a gente escuta. Ela escutava pouco como as pessoas se escutam pouco hoje em dia, por isso falam línguas que não compreendemos quando às vezes falam só o português.
Bjs
CEL

Raquel disse...

Querido Carlos,

Que beleza na simplicidade da vida, que deixamos escapar... mas vc captou maravilhosamente. Tenho orgulho de ser sua leitora.

Bjs,
Raquel.

Raquel disse...

Camus, ao receber o Nobel, disse: "o escritor não pode se colocar a serviço daqueles que fazem a História; ele está a serviço daqueles que a sofrem".

claudiarreina disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
Obrigado pela sua leitura acurada e tão sensível. Assim, depois do Camus, eu vou acabar me candidatando a ganhar o Nobel da literatura de blogs. Acho que vou ser o primeiro e único e último...risos,
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Cláudia,
Obrigado pela referência. Vou procurar o texto nas minhas obras completas de Dostoiévski. Se não achar procuro neste da Ed. 34.
Abçs
CEL

Lu Andrade disse...

Incalculável: assim defino minha impressão emotiva ao ler, ao sentir o sabor da história, o enriquecimento que isso proporcionou. Os detalhes, o ritmo da conversa e sua presente comoção. Parabéns Carlos e obrigada por dividir esta experiência marcante. Beijo.

Carlos Eduardo Leal disse...

Oi Lu,
O "sabor da história" é a história quem nos conta. Nós escritores, só temos que ter uma antena ligada (pode ser a do coração, da alma ou dos sentimentos) para captar o que ocorre à nossa volta.
E por falar em antena ligada, na próxima terça-feira dia 14, darei uma entrevista aí na Rede Minas de BH no programa Brasil das Gerais (canal 9 ou 20) das 19:00 às 20:00hs (ao vivo)sobre o meu livro "A última palavra" que foi recentemente lançado pela Rocco. Se puder e te interessar veja. O programa vai falar sobre 'separações' que é o tema do meu livro, mas não só.
Bjs
Carlos Eduardo

Ana Paula Gomes disse...

Adoraria conhecer D.Carola, mas ela já não seria apenas D. Carola. Seria D. Carola vista pelo seu filtro, aquele dos raros, que podem ver a beleza onde ela é mais difícil! bjs,
Ana Paula

Lu Andrade disse...

Claro,
Irei conferir emocionada...
Bjos.

Carlos Eduardo Leal disse...

Ana Paula,
O António Lobo Antunes disse lá na Flip(com enorme sabedoria) que o leitor é tão importante para o escritor que deveria vir impresso na capa do livro de cada um o nome do leitor. Meu filtro também são suas leituras.
Bjs
CEL

Silvia disse...

Bon Jour! Tô de volta para falar sobre a análise que José Castello faz do livro "Histórias Reais" de Sophie Calle. Já está na minha lista dos próximos a serem lidos. Por enquanto só quero comentar que me parece irmão do teu "A Última Palavra". Se não leste o comentário vai ao Prosa e Verso do sábado dia 4 de julho. Bjo e boa semana!

Carlos Eduardo Leal disse...

Olá Silvia,
Ainda não li, mas vou procurar lê-lo. Dia 4 estava lá na Flip vendo/ouvindo a Sophie Calle.
Bjs e obrigado pela dica! Merci!!!!!
C. Eduardo

Ana Paula Gomes disse...

Não posso deixar de falar sobre o comentário da Silvia. O comentário do Castello sobre a autora e o livro é pertinente e elogioso, como tb o seria para CEL. Mas são obras completamente distintas. A Sophie Calle é pontual, diria até economica com suas palavras, embora assim mesmo transmita toda contundência do seu humor ácido. Quanto a CEL, seu livro transborda o amor, o ódio e a indiferença, de forma generosa para as tres paixões. É pura poesia vertida em prosa. Sem comparações.

Fátima Campilho disse...

E eu não vi Dona Carola por caminhar olhando para as pedras e por andar sempre com a cabeça nas nuvens.
Belo texto.

tfthfthsht disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Eduardo Leal disse...

Fátima,
Andar olhando para as pedras e ter a cabeça nas nuvens é olhar o mundo com a alma vadia. Andanças de poeta. Bem vinda ao Veredas! Volte sempre,
Abraços,
Carlos Eduardo