segunda-feira, 15 de junho de 2009

mar dos sonhos

Mar de Libros Viejos por Bacteriano.

As páginas dos livros são labirintos que tal como a Esfinge também interrogam àqueles que se aventuram por entre elas. O "decifra-me ou te devoro" torna o livro vivo como se fosse, ele próprio, um personagem real.
Não posso fingir mais para vocês. Eu sou um deles. Sou aquele ali no alto à esquerda. Estava ali em pé com minhas páginas abertas tal como as portas de um santuário. Um santuário à espera de ser lido, compreendido, talvez. Não esperava muito das pessoas. É verdade que meus personagens, meu protagonista e seus coadjuvantes interpretavam uma história que oscilava entre a aventura romântica e o burlesco. Uma bela história, porém medíocre sem grandes mistérios ou enigmas. Passível de ser entendida até por iletrados. O meu único prazer era perceber que estava rodeado por celebridades, grandes nomes da literatura mundial e, assim, talvez por osmose, complacência ou fidalguia, eu conseguisse extrair uma grande teoria filosófica ou um verdadeiro drama humano que desse dignidade e consistência às minhas páginas. Mas ainda me sinto tonto, embriagado de letras: extemporâneas, pirateadas por algum marujo especialista em contrabando de ideias, loucas, doidas em sua origem, totalmente perdidas, destrambelhadas para a vida, corroídas por algumas ideias suicidas (talvez o Vila-Matas com seus Suicidios exemplares esteja por perto), frases mallarmaicas, prosas baudelaireanas e algum egoísmo em querer ser tudo e todos e, contudo, não conseguir nem passar por debaixo da porta. Não, não sou um livro para ser lido. Sim, fui escrito, mas caí em desuso. O tempo que se esvai esgota-me a força das ideias e o pensamento se turva entre uma página e outra. Amo meus pares. Amo estar no meio dos outros livros. Já disse. Se não for por osmose, que seja pelas mesmas traças que nos consomem. Assim nos livraremos do que há de pior em nós e pouparemos o leitor do cansaço e da perda do tempo. Seremos breves opúsculos. Poucas linhas em pé daquilo que restar de nós. Somos o resto do que não coube em nossos autores, somos a palavra decaída no papel e, se por força do destino ainda nos mantemos em pé, é só para que o vento nos colonize com os olhares da próxima primavera.
Digo novamente. Prefiro este ser labiríntico, enigmático, sonhador de esfinges. Eu sou um livro, um livro num mar de sonhos. Ainda assim, você insiste em querer nadar em mim?



14 comentários:

Marianna Teixeira Soares disse...

nossa! como escreve bem!! como manda bem esse "meu" autor!
beijos
marianna

apuraessenciadoser disse...

Era um encontro de desrazões que se perdiam em meus desatinos. Desembocavam em uma anormalidade não-criativa. Um nada. Um vazio que gritava em mim sem saber a quem suplicar. E o primeiro livro foi a A Hora da Estrela, da Clarice Lispector. Uma onda trazendo e levando partículas esquecidas de mim mesma, num belo sonho que comprou ingresso na primeira fila do meu teatro. Me redescobri. As emoções continuaram a me transpassar pelas letras de José Saramago, que devastaram minha alma com sua poesia e obviedade de relações falhas, em toda a beleza das imperfeições. Sofri, penei e abri a porta para o mar de palavras que pareciam esperar por mim. O caminho não existe, como já dizia Nietzsche, e isso me conforta. Isso me permite sobrevoar o tapete de nuvens das possibilidades de recontar. E escrevi a primeira palavra. No meu caso foi a primeira, não a última. A primeira palavra importante foi ex-felicidade. A partir daí, deslizei minhas vozes sobre outras, aquelas que, especialmente, trazem essa reverberação, identificada em instintos abissais. E a sua, Carlos Eduardo, é uma delas. Já mergulhei.

Sua leitora,
Raquel.

Carlos Eduardo Leal disse...

Marianna,
Este "seu" autor, impulsionado por esta editora que me lê de maneira tão sensível, continua em seus mergulhos abissais nas folhas das folhas dos textos.
Bjs
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
Ex-felicidade realmente é uma palavra deslumbrante. Não é infelicidade, que seria mais próxima da tristeza. Talvez eu arriscasse dizer que é saudade da emoção experimentada, mas isso ainda é muito pouco. Talvez não importe mesmo o sentido, mas sim que foi uma palavra-alfa, primeira do seu alfabeto de deslizamento das suas vozes. 'Tchibum' para vc.
bjs
Carlos Eduardo

Anne M. Moor disse...

"Eu sou um livro, um livro num mar de sonhos. Ainda assim, você insiste em querer nadar em mim?"
Esta última frase me levou ao corredor cheio de livros na casa do meu avô paterno... Muitos dos livros dele habitam os cantos de minha casa hoje. Um mar de sonhos foi o que eles sempre provocaram em mim, um mar a ser explorado...

Maravilhos texto! Beijos...

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo,
Desativa esta 'coisa' de letrinhas que pede para postarmos um comentário... :-)

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Também fui herdeiro de muitos livros do meu avô materno que era advogado, farmacêutico, pastor, leitor de filosofia e psicanálise (quando eu nem sabia o que era isso) e tinha um extremo senso de humor. São ótimas estas heranças destes mares nunca d'antes navegados.
Bjs
Carlos Eduardo
Ps: E agora? Como é que se faz isso de desativar esta 'coisa'de letrinhas rs??? :)))

Lu Andrade disse...

Que entrelace de conceitos! Que percepção incrível.Fiquei embevecida, Carlos... Meus livros (a partir de agora) são praticamente protagonistas de um enredo mental. Surrealidade inata e isto aprecio intermitentemente. A questão em que o "sonho em palavras" finda é perturbadora. Eu quero sim!
Abraços!

Carlos Eduardo Leal disse...

Oi Lu,
Bem-vinda por aqui. Sonhos em palavras, mar de sonhos. O surreal é a palavra que se desloca descontinuamente na cadeia de pensamentos sem um porto seguro a não ser em outro mar de palavras. Talvez, assim, uma palavra habite outra.
Bjs
Carlos Eduardo

Anne M. Moor disse...

Na configuração Carlos Eduardo :-)

Adriana Guedes disse...

O labirinto me angustia. Prefiro o livro como libertação.
Lindo texto!
Bj
Adriana.

Carlos Eduardo Leal disse...

Querida Adriana,
Mas não é através do labirinto das palavras que podemos vislumbrar uma página de libertação?
Bjs
C. Eduardo

Silvia disse...

Certamente quero "nadar em ti". A propósito, estou devorando teu "A Última Palavra". Comento depois, agora quero falar sobre a inesquecível noite no Jambeiro: literatura, música, gente que vale à pena (nos dos sentidos), vinhote e beliscos, o casarão com suas janelas e sacadas, e seus jardins. Egídio nos deu uma magnífica aula sobre as origens e destino da mansão. Tudo "supimpa", pra combinar com o ambiente.
BEIJO E PARABÉNS. Volto ao livro.
Silvia

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Obrigado pela sua presença não só nos salões do Jambeiro, mas principalmente nas palavras das minhas páginas.
Aguardo ansioso, os teus comentários.
Bjs
Carlos Eduardo