quarta-feira, 10 de junho de 2009

bocaAboca


Ontem lancei meu livro , A última palavra, um romance/ficção, com um bate-papo que foi prá lá de animado. Na hora dos autógrafos e dedicatórias alguém disse algo a respeito de como um livro hoje em dia ganha outras dimensões de circulação (com enorme amplitude) através do boca a boca. E fiquei pensando nesta imagem: bocaAboca. Não na hora, porque na hora você não pensa nada de tão excitado que fica com um filho que está nascendo. Então, pensei nisto só depois ao chegar em casa. E, no silêncio da casa, eu não dormia. Lá na livraria eu também ganhei o maior presente que um escritor pode ganhar: um livro. E, novamente me veio a ideia do bocaAboca. E pensei no náufrago, na respiração boca a boca que se faz quando ele está desmaiado, quase  morto, desfalecido. Neste processo, o salva-vidas pressiona o peito ao mesmo tempo, ou no mesmo ritmo que, boca a boca, retira ar de si e dá ao corpo inerte na areia. 
Creio que o ato de dar um livro a outra pessoa é algo semelhante: você leu um livro que gostou muito, te deu ar, nova vida, novas inspirações e compra para dar este livro para outra pessoa. Está aí o bocaAboca. Você oxigena a outra pessoa com o ar, as ideias, os sentimentos que achou dentro do livro e que estavam guardados em seu interior, transbordando para outra pessoa. O verdadeiro bocaAboca é isto: dar algo que já não cabe dentro de si a outra pessoa que você percebe que já está quase desfalecendo para a vida. Pode ser um livro, pode ser um pôr-de-sol que você queira compartilhar (ver sozinho é quase não enxergá-lo, pois você precisa do olhar do outro para testemunhar o seu), pois já não cabe dentro de você. 
Ah, e ainda tem a pequena, mas não menos importante, possibilidade de que a bocabeijada, ou o livrolido, sejam saborosíssimos. Aí então o bocaAboca torna-se infinito. Como dizia o poetinha, que seja enquanto dure.    

Ps: Na próxima quarta-feira, dia 17, o lançamento é no Solar do Jambeiro em Niterói. Ver o outro convite acima.
Abraços a todos e, até lá.
Carlos Eduardo
 

8 comentários:

Raquel disse...

Carlos,

Hoje eu me apaixonei. Duas vezes seguidas, por pessoas diferentes. Ninguém me deu um livro, nem me deu um beijo. E penso que deve ser verdade que a vida começa aos 40. Porque só hoje, aos 30, descobri e pude sentir A Love Supreme (John Coltrane), In A Silent Way (Miles Davis).

Ao precisar dividir essas veredas pulsionais com alguém que pudesse imaginar a sensação, o boca a boca me trouxe aqui, para desaguar o que não cabe em mim...

E também, como diria o poeta

"Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo."

Bjs,
Raquel.

Carlos Eduardo Leal disse...

Pois é Raquel,
Eu daqui escuto Chet Baker cantando "The Thrill is gone". É preciso arrepiar-se com os calafrios da vida. Não, John Coltrane não é para qq um, muito menos Chet Baker. É preciso ter a alma ensanguentada para tentar transbordar a sede que a vida não suporta.
Bjs

Anne M. Moor disse...

Querer compartilhar e compartilhar são duas coisas que separam as pessoas que gostam de viver e se interessam pelos outros daqueles que já morreram e só contaram pra nós :-)

Beijos

Rosa Maria disse...

Oi Carlos Eduardo,
Só para te dizer que estou chegando da Livraria Cultura aqui em BSB, já com o meu A Última Palavra, e louca para iniciar sua leitura (espero um dia nele ganhar o teu autógrafo!). Queria comprar outros exemplares, para amigos, um inclusive para remeter a Lisboa, onde tenho uma grande amiga, que além de poeta e ficcionista, é editora, mas só havia aquele. Prometeram-se imediato pedido e remessa pela Rocco em quinze dias. Vê o sucesso!
Grande abraço, com renovados votos de muito sucesso!
Rosa Maria

Carlos Eduardo Leal disse...

Dedicatória virtual:
Querida Rosa Maria,
Que estas palavras encontrem em sua sensível leitura, a altura da sua alma e a profundidade do seu coração.
Com carinho,
Carlos Eduardo
Ps: Esta é a primeira dedicatória virtual que faço. Alguém antes já havia feito? Então, transcreva-a para o seu (meu) livro e, não se acanhe, assine embaixo. rsrs

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Com-partilhar (que é partilhar com o outro), é uma das grandes sabedorias da vida. E, assim como o Chet Baker, também não é para qualquer um. Obrigado por com-partilhar suas palavras com a qual lavras estas Veredas e teu lindo blog.
Bjs
Carlos Eduardo

Adriana Guedes disse...

Querido Eduardo,
a imagem do bocaAboca é tão linda...dar o transbordamento ao outro em sua deriva... Mas veja, receber o ar é não contentar-se com sua solidão. É aceitar que o outro faça parte do seu delírioentregamortenaugrágio. E isso é muito generoso; só os que tem alma grande sabem receber o que o outro precisa dar.
Foi uma noite de alegria ver "seu"/nosso filho nascer: afinal, uma vez nascido, nós leitores vamos dar tratos a ele também. Ler o seu livro foi um bocaAboca inesquecível!
Adriana.

Carlos Eduardo Leal disse...

Nossa, Adriana...rs
Então, que venham outros livros/filhos como este!
Eu que te agradeço a sua mediação tão sensível, delicada, com fino humor inteligente no bate-papo.
Bjs
CEL