quinta-feira, 16 de julho de 2009

Casulo



Ilana foi pouco a pouco tirando a roupa. Ela já não era mais uma menina, mas ainda usava a mesma roupa que sua mãe lhe dera no natal anterior. Não, pobre também não era. Era mais por superstição, dizia, por ir à missa com o mesmo vestido verde claro com gola branca. Ilana continuou tirando a roupa. Não, não eram movimentos lentos, mas também igualmente não eram bruscos. Eram sentidos. Havia sentimento em seu movimento. E sentir, sentir-se, era o que ela mais queria naquele momento. Deveria eternizá-lo? Só o último ato daquele movimento solo dir-lhe-ia o saber sobre o seu ato. Era um ato preciso, precioso. Não, de modo nenhum era fácil, mas ela estava disposta a continuar a desfazer-se daquela roupa. Não media movimentos. Não. Chegou a pensar nisto, mas recuou dele com vigor. Tudo menos isto. Tudo menos recuar desta hora tão espetacularmente misteriosa. Desagasalhar-se era um movimento sutil, subjetivo, particular e, extremamente íntimo. E ela estava só em sua intimidade. Ilana estava excitada e esta excitação era o alcance da sua felicidade. Ajeitou os cabelos com as pontas dos dedos. Jogou-os para trás num movimento que tantas e tantas vezes fizera. Mas, agora, ela estava em sua magia particular. Cada fragmento de si, de sua pele, de seus contornos, de seus seios, de suas coxas, era o infinito do universo salpicado em seu corpo. E ela adornava seu corpo com seu olhar lânguido de desejos. A cada movimento, seu corpo se iluminava como um vaga-lume na escuridão da sua vida anterior. Ganhava luz própria como uma lanterna chinesa a revelar os ideogramas milenarmente ocultos. Ilana continuava seu delicado movimento. Delicado, porém preciso. Preciso e determinado. Havia se determinado a cumprir mais do que um simples ritual. Era um rito de passagem. Era uma despedida da sua infância. Movimento outonal. Desfolhava-se de seus atavismos.
Ilana agora acabara de retirar a última peça de roupa que sua mãe havia sobreposto à sua pele.
Mas, misteriosamente ela não estava nua. Ilana vestia a roupa com a qual deveria caminhar sua própria vida na inconstância pulsante dos seus erros e acertos. Viva, delicadamente viva, como a vida pede, exige mesmo nestes momentos. Delicadeza consigo própria. Ela estava encharcada de si e, sua felicidade, escorria-lhe perna abaixo. Havia acabado de sair do casulo: a prisão de seda construída pela sua mãe. Voou na tranquilidade dos seus próprios ventos.

14 comentários:

Raquel disse...

Nossa,

Ainda bem que ela tirou a roupa... Impressionante como você mostra a dificuldade que algunas pessoas têm de se libertar dos casulos maternos.

Beijos,
Raquel.

Michelle Nicié disse...

casuloabrigosentimentomovimentolentooutonalsutilnudezatoprecisopreciosaintimidadevagalumelanternachinesaideodramasmilenaresdelicadaseda...
bom ouvir um pouco do universo particular de Ilana.
bjs, M

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
"O nó górdio" dos laços maternos está sempre nos assombrando!
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

MichelleNiciéIlanaesuamãeestãoestarãosempreporaí.bjs
CEL

A.Tapadinhas disse...

Os fios de seda tecem prisões de que é difícil libertarmo-nos...

Aprender a voar é um imperativo que só se pode realizar voando...

Abraço.
António

Carlos Eduardo Leal disse...

Prezado António,
Você tem razão. Soltar as amarras que nos prendem também é um voo solo, ato único. Inaugural de outros voos, novas partidas e muitas chegadas. Obrigado pela visita aqui e, retorne sempre,
Grande abraço,
Carlos Eduardo

Adriana Guedes disse...

Lembrei-me de Alice, do Nó Górdio. Mais livre apenas.
Lindo texto.
Vou te mostrar um livro de André Neves que leva este título e, em ilustração, fala de sua Ilana também.
Bj
Adriana.

Anne M. Moor disse...

Sair do casulo e levantar vôo é algo que requer vontade e coragem e a sensação de viver é ímpar quando isso acontece. Escrevi um poema justamente com o título deste teu texto certa vez...

Beijos

Rosa Maria disse...

Belíssimo texto Carlos Eduardo!
Que bom para a Ilana que o vestido verde claro com gola branca ainda não virara pele!
Beijo.
RM

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
É verdade, "O nó górdio" ainda habita em mim. Talvez habitará para sempre. Espero pelo livro do André Neves.
Um bj
C. Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Parece que este é um tema universal, né? A relação mãe-filha. Adoraria, se possível, poder ler o teu poema.
Um bj,
C. Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Rosa,
Às vezes fico achando que as mulheres possuem inúmeras peles. Vão "desfolhando"com o tempo e, com isso, amadurecem até chegar ao seu âmago.
Bj
C. Eduardo

Anne M. Moor disse...

No meu caso não foi relação mãe-filha e sim relação eu comigo mesma rsrsrsrs

Aqui está o endereço: http://anne-lifeliving.blogspot.com/search?q=Casulo

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Obrigado pela generosidade e o carinho da poesia.
Vou lá ver.
Bjs
Carlos Eduardo