sábado, 18 de julho de 2009

Um peixe chamado João


Ele era um peixe chamado João. João não queria nada da sua vida úmida. Nadava simplesmente. E esta resolução em nadar estremecia seu pai Durvalino. Peixe grande, destes que se diz de quem tira a sorte maior na vida. Coisa de robalo, ou até mais, um cherne como o grande Chico, talvez mesmo um Marlin Azul. Durvalino era todo prosa com sua prole de oitocentos e trinta e três filhotes. Número cabalístico, dizia. "Com um cardume destes sou capaz de enfrentar até tubarão branco", vangloriava-se. Era um verdadeiro cardume prateado com listras azuis e amareladas para ninguém botar defeito, ou quase. Havia o João, ou quase. Porque o João é que não havia. João era meio moleque. Sempre foi. Em suas profundidades mais abissais ficava dias sem dar notícias. Enroscava-se em perigosas redes e saía com a maior facilidade, alimentava-se de pequenos moluscos que encontrava nas tocas das costas dos recifes do norte do Brasil quando todos estavam de férias pelos costados do sudeste.
Mas o tempo passou e João também cresceu. Cresceu muito. Imaginem um peixe grande. Imaginaram? Maior. Impossível? Mentira? Pois digo que João era muito maior do que uma baleia. Sua cabeça mergulhava nos Açores e sua cauda espirrava água na Jamaica. Certa vez tentou subir o rio Amazonas. Entalou em Marajó. Precisou de mais de dezoito dias de maré cheia e muita pororoca para poder recuar e retornar ao oceano. Enquanto isso, a população ribeirinha fazia festa e pensava logo na fartura em retalhar o João. Sonhavam os moquequeiros, sonhavam as frigideiras, sonhavam mais ainda os assíduos frequentadores do bar do Seu Lionel, que era campeão no caldinho de peixe com cachaça embelezada de cupuaçu. Vieram moças formosas sonhando com pentes de osso do pobre João e vieram também todos os padres, pastores, mães, pais e tias de santo para rezarem pela alma do aquático. Aquela miscelânia religiosa, aquele sincretismo religioso oportunista era de enfurecer qualquer cristão, mas tudo, diziam os religiosos, era feito pela boa alma do peixão. Afinal de contas, esta história de multiplicação dos peixes estava ali bem defronte deles através de uma única espécie. Milagre! Milagre! Milagre! Gritavam os pastores mais exaltados. Santo! Santo! Santo! Clamavam os diáconos ajoelhados. O coral gospel da cidade improvisou um hino ao peixão: "Aqui me tens oh, Salvador/ Adorna a minh'alma com seu louvor/ Retira este peixe dos mares/ Que eu me ajoelharei em seus altares."
E João que nunca quis nada, apenas nadar (era seu verbo predileto), importunava-se com estes roedores humanos que queriam catequizar sua cauda para melhor abocanhar-lhe as entranhas.
E foi por volta do vigésimo dia que ele conseguiu iniciar seu movimento de retorno ao bom e velho oceano. Primeiro mexeu a cabeça e a onda produzida fez os plantadores de coca no Peru pensarem que era a divisão anti-drogas dos EUA que estavam fazendo outra investida. Mario Vargas Llosa, ainda de pijamas, chegou até a varanda de sua casa de campo para ver o que estava acontecendo. E pensou logo em escrever um livro que se chamaria,"La puta madre del pez". Quando João mexeu finalmente a cauda, a água transbordou até o Pantanal e fez com que Manoel de Barros acorresse aos seus caderninhos para anotar: "beiral de água come mosca e eu, engulo rios."
O mal estava feito e João tornava-se cada dia mais popular, pois ele não parava de crescer. As redes de televisão do Japão excitavam-se arregalando os olhos para documentarem o maior sashimi que eles já haviam visto. Diante dele, Celacanto era um Giraya amedrontado e, Godzila, apenas uma lagartixa assanhada. João não tinha mais como se esconder, pois até as águas dos oceanos parece que tinham ficado como uma bacia onde se lavam os bebês com mais de um ano por insistência da falta de banheira.
E de tanto lhe importunarem e quererem fazer filmes hollywoodianos com ele (Tom Cruise tentou filmar Missão Impossível 6, mas desistiu, Steven Spielberg quis fazer um misto de ET com tubarão, mas os efeitos especiais de George Lucas nunca eram suficientes para uma única tomada de cena) que João resolveu iniciar uma verdadeira revolução. Pela primeira vez, o mundo testemunhava horrorizado um peixe autofágico. João que nunca quis nada (lembram?), iniciou um processo masoquista de autoflagelamento só comparado aos grandes mártires da história. Jogava-se de cabeça contra os arrecifes, mergulhava até as regiões abissais e ficava só com a cauda para o lado de fora por dias a fio. Era um espetáculo de dar dó.
E foi num destes espasmos nada filantrópicos que aconteceu. Aconteceu bem diante da vista de todo o mundo, inclusive de seu pai Durvalino. João ia voltando velozmente do fundo do oceano em diração à superfície quando ele ultrapassou as nuvens. E foi subindo, subindo, subindo. Espiralando em sua grandeza prateada. Todos batiam palmas estupefatos. Virou um cometa e sua cauda ainda pode ser vista em noites de lua minguante.
Dizem que deixou mais de um trilhão de herdeiros. Os romeiros do alto amazonas já preparam uma nova caravana até a santa foz, agora também denominada Estuário ou Santuário do João.

8 comentários:

Adriana Guedes disse...

Eduardo, acho que a história de João é um belo enredo para um livro infantil!
Nem preciso dizer que amei, né?
Adorei a reação do LLosa e do Manoel de Barros ao encontrar os efeitos de João. Quanto a vc, acho que João te acordou a infância e seus "achadouros".
Lindo texto!!!!
Bj
Adriana.

Anne M. Moor disse...

Voar assim deve ser um delírio...

Bjos

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
O infantil está em todos nós, basta deixarmos ele fluir e teremos nos "achadouros". Bom q vc gostou. Sabia disso.rs.
Bjs
Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Voar nem sempre é só para os pássaros. Os escritores, poetas (como vc) e aqueles que possuem a "alma vadia", como dizia o próprio Fernando Pessoa, também voam com as palavras.
Bjs
C. Eduardo

virginia disse...

carlos eduardo, nesta "viagem" onde pousa a fantasia, pousa bem mais o vasto conhecimento que voce possui. além do imaginário, há muito, muito, muito do real. bela linguagem, belíssima expressão. parabéns!!
bjus*
vi

Carlos Eduardo Leal disse...

Virginia,
Na verdade, o limite é muito tênue entre a realidade e a fantasia. Resgatar o infantil sendo um adulto é coisa que poucos querem ver.
Bjs
CEL

Renata Vilanova disse...

quero desenhar.
renata

Carlos Eduardo Leal disse...

Oi Renata,
Aceito com enorme carinho e prazer,
Viaje então com este peixe,
Obrigado pela sua sensibilidade,
Bjs
CEL