quarta-feira, 22 de julho de 2009

Van Gogh em mim


Van Gogh sempre me impressionou. Em minha infância, na casa onde morava, as paredes eram decoradas com enormes reproduções das telas de Van Gogh. Não sei como foram parar lá. Nunca perguntei quem as comprou. No meu quarto havia uma tela enorme. A tela (exatamente esta da imagem) mostra casas distorcidas, cores que oscilam entre o famoso amarelo (nas gramíneas), o azul e tons de verde. Uma rua torta e árvores igualmente tortas descaminham por entre as casas. Viajava neste quadro. Enxergava bichos e alguns outros animais que só existiam na minha fantasia. Ou não? Descubram vocês mesmos: na nuvem no alto à esquerda um homem de fraque empurrando um carrinho que tem uma carinha. Ainda na nuvem ao centro há um homem com uma espécie de cachimbo perto do nariz e mais abaixo um animal. Descubram um dromedário, duas cobras, bichinhos verdes, etc.
Eu era criança e enxergava isto tudo e, no silêncio do meu quarto, no silêncio das minhas ruidosas fantasias, inventava histórias e fugia para dentro do quadro, assim como Kurosawa fez em seu filme "sonhos". Com certeza vem daí a minha paixão por Van Gogh e os impressionistas. Porém, Van Gogh foi mais do que um impressionista. Ele retratou os sofrimentos da alma humana pintando a natureza. Fez coincidir o olhar patológico com a suavidade de suas paisagens na Holanda ou na França. Em suas correspondências com seu irmão Theo ele pintava com palavras as cenas que ele via quando morou na Inglaterra. Pintar com palavras não é para qualquer um. Eu mesmo gostaria de fazê-lo, mas talvez me falte a loucura necessária ou o olhar do gênio holandês. Assim, procuro aqui apenas relembrar uma parte da minha infância sonhadora através de Van Gogh.
Na vida, às vezes a gente tem algumas felicidades. A minha foi, por mais de uma ocasião, estar em Amsterdã e passar horas sem fim dentro do Museum Van Gogh. O retorno à infância era um prazer inevitável. E ali, eu não queria evitar nada que me reconciliasse com minhas fantasias.
Em meus ensaios como pintor, recriei livremente algumas telas de Van Gogh. Deixei o pincel correr solto com as tintas coloridas das minhas fantasias. Há um que eu gostei do resultado. É o "quarto de dormir" do próprio Van Gogh. Numa carta a Theo ele diz a respeito deste quadro que eliminou as sombras para que a obra parecesse uma ilustração japonesa (ele adorava quadros japoneses e em seu museu tem uma ala com a sua coleção) e que as cores deveriam dar um ar de "tranquilidade". Coloquei-o no meu consultório.
Nesta semana ganhei de uma amiga um lindo livro de arte sobre Van Gogh e, com ele, tenho revisitado meus atavismos e minhas fantasias oníricas de criança. Este texto, sobretudo, é um agradecimento a ela.

12 comentários:

Anne M. Moor disse...

Van Gogh... lindo! Quem também adora o artista é outro artista, meu amigo, António Tapadinhas http://semargens.blogspot.com que sabem pintar a palavra e escrever a pintura brilhantemente. Recomendo uma visita ao António, que já andou por aqui...

Teu texto é um pintar da palavra... Dá mesmo pra se perder nos quadros do Van Gogh...

Beijos

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Obrigado pelas tuas palavras-em-cores. Com certeza vou lá ver o António. Grato pela indicação.
Bjs
Carlos Eduardo

virginia disse...

nossa!! fico imaginando uma criança viajando nesse quadro,sozinha a noite. vc não sentia medo?? eu vi o dromedário, o velho com o cachimbo e outas imagens assustadoras desenhadas nas nuvens. em minhas fantasias de criança, a noite e sozinha no quarto escuro, com certeza, eu sentiria medo. rs. mas não posso negar a beleza do todo, será porque não temo minhas fantasias e minhas ilusões ou porque cresci?? rs.
bjus*
vi

Carlos Eduardo Leal disse...

Virginia,
Não, disso com certeza eu não tinha medo porque eu viajava feliz em minhas aventuras imaginárias. O bicho homem é que me assustava em criança. Talvez, por isso, eu tenha ido em adulto estudá-lo...rs.
Bjs
CEL

virginia disse...

é, faz sentido. rs.
bjus*
vi

Raquel disse...

Nossa, Carlos,

Sou apaixonada por Van Gogh. Tenho na minha sala a gravura de A Noite Estrelada, meu quadro preferido. Ele consegue colocar sentimento e movimento na pintura de coisas aparentemente comuns.

Bjs,
Raquel.

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
No início do blog escrevi um conto inspirado justamente neste quadro (noite estrelada) e um pequeno texto chamado Van Gogh sobre o quadro "os sapatos".
Dê uma olhada lá,
Bjs
CEL

Ana Paula Gomes disse...

Carlos,

Eu já sabia que Van Gogh era seu preferido e quase já brigamos por isso. Vc veio com o argumento que o conheceu antes de mim, e agora percebo que o Carlos, artista em tantas frentes(literatura, pintura, cinema e por que não psicanálise?) nasceu na casa de Van Gogh. É linda a homenagem que vc faz a ele e a amiga que deu o livro. Tb adoro escrever sobre Van Gogh, em breve vc verá e lerá um tributo às cores das telas da fantasia. Obrigada por continuar me inspirando.
Bjs,
Ana Paula

Carlos Eduardo Leal disse...

Ana,
Obrigado pelo carinho das suas palavras em cores. Então ficamos assim combinados: vou esperar pelo seu Van Gogh.
bjs
CEL

Silvia disse...

Sem redundãncias....mas também sou uma das apaixonadas pelo mestre Vincent. Uma amiga me presenteou com uma "repintura" do quarto de dormir onde ela também se esbanja no amarelo "vangoghiano". Se não se pode ter o original tem-se o que foi feito com muito carinho, que nem o teu texto.
Bjo, Silvia

claudiarreina disse...
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Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Van Gogh me ensina a cada dia como tornar bela as coisas mais simples.
bjs
Carlos Eduardo