domingo, 8 de fevereiro de 2009

A Janela Conto

A janela

 

Aqui do alto da minha janela, aquela praia era tão minha que poderia sem o menor esforço calçar as pessoas na palma da minha mão. Isso não fiz, mas dei para incluí-las no meu pensamento. O que dava no mesmo, ou quase. Assim, aos poucos e de cada vez, dia após dia, eu tecia fios firmes e delicados. Com meu pensamento feito anzol eu fisgava na areia da praia de Copacabana aqueles tipos que mais me interessavam.

Icei bem alto uma mulher negra em sua selvagem gordura que comia risoles e empadas gordurosas. Comia rindo e a cada mordida escorriam farelos de seus filhos. Um se chamava Antonio como seu avô paterno. Outro Habacuque, porque era bíblico. E ela evangélica. Havia ainda um terceiro e um quarto que não eram filhos, mas quase. Seus pais haviam morrido em acidente com uma arma que era para defesa. A mulher disparou a arma sem querer e o marido foi atrás dela porque quis. Foi assim que os filhos ficaram órfãos. Nomes nem tinham direito. Do que chamassem respondiam. Ocorria então algumas vezes, não poucas, de responderem no lugar de outros. Isso dava par ouvir daqui de cima. Aliás, do alto tudo é muito figurativo. As pessoas não têm cheiro, unhas mal cortadas ou epiderme purulenta. São lisas em seus sentimentos e quase em câmara lenta os seus movimentos são presságios nebulosos de suas vidas. Religião sempre, principalmente quando vão entrar no mar. Benzem-se para Deus e Iemanjá e dão as costas para Oxossi que é deus das matas. Mergulham seus corpos como fazem com os legumes quando vão lavá-los dentro de uma grande bacia. De tempos em tempos saio da janela. Talvez para olhar para mim mesmo ou buscar um copo d’água na cozinha. Quando volto à janela noto que alguns se afogaram no tempo. Já são outros que estão ali a disputar um pedaço de areia macia.

Iço outro. Agora é um rapaz que faz embaixadinhas com uma bola. Demonstra fazer tudo que sabe. Demonstra para quem? Ele não sabe. Só sabe que deve movimentar-se ligeiro com a bola. Finge chutes incríveis, passes mágicos, canetas memoráveis e lençóis diabólicos. Chama-se Zico Coimbra dos Santos. Nasceu no mesmo ano em que o flamengo foi campeão mundial. Seu pai, que Deus o tenha, era flamenguista da cabeça aos pés, como ele mesmo gostava de dizer. Adorava ser chamado de Zico Santos. Achava que isso lhe dava mais respeito e de certa forma reverenciava duplamente seu pai: pelo nome do batismo e por ter certeza que seu pai havia virado um santo lá nos céus. Porém ficava triste quando lembrava da chance que havia perdido para jogar futebol pelo seu clube do coração. Foi no mesmo ano que seu pai morreu de cirrose hepática. Assim soube porque os médicos lhe disseram. Seu pai bebe muito. Mas não bebia. Era mentira por verdade. Seu avô também havia morrido de cirrose. Mas sua língua travou e ele não soube dizer isso para os médicos. Faltou muito para ficar com o pai. Quando este morreu, faltou muito de ficar com o filho. Era saudade religada pela bola. Religião do Pai como se costuma dizer. Sempre rindo estava Claudemir, seu irmãozinho. Filho do segundo casamento tinha pai, mãe e irmão mais velho para protegê-lo de quem quisesse lhe bater. Assim folgava com os outros porque sabia que estava protegido pela fraternidade, folgava com a vida porque sabia comer os restos mal digeridos da sua hereditariedade. Seu pai Adroaldo, entre uma latinha de cerveja e outra que tirava do isopor, passava óleo de cenoura nas costas da sua mãe. Era uma mistura feita por ele mesmo a base de cenoura ralada, óleo de girassol, linhaça e bronzeador. Celestina debruçava-se sobre a toalha estendida cuidadosamente na areia, retirava com delicadeza o nó do sumário biquíni nas costas e esperava pelo óleo revigorante. Seus seios fartos adornavam tanto a areia quanto os olhares dos homens que passavam por ali a testemunhar aquele momento mágico. As curvas daquela bunda a desfilar aquela asa delta crepuscular era o regozijo para os que tinham na visão do espetáculo corporal o único ganho de satisfação em seus fins de semana. O apelido daquelas curvas sem fim era ‘Crepúsculo de Cubatão’. Mais não preciso dizer. Os apelidos às vezes encaixam mais do que biquíni em suas terminações adiposas. Adroaldo bem sabia que os homens olhavam para aquelas curvas perfeitas da sua Celestina. Com suas mãos ásperas de pedreiro, mas com o coração sereno de amor, Adroaldo ia meticulosamente passando óleo por cada centímetro daquele corpo espetacular sem parecer se interessar com o que acontecia ao seu redor. Ela sabia de seu apelido. Assim, em pleno meio-dia alguém suspirava alto: que crepúsculo meu Deus, que crepúsculo. Deitada, com soslaio no olhar, ria mordiscando os lábios, depois deixava-se soltar todinha, espreguiçando como se estivesse em lençóis de areia à espera de seu Netuno. Virava de bruços e o mar encapelava como se estivesse à espreita de um vendaval.

Dia desses me deparei com um hiato. Não era um deserto de areia, era um deserto de pessoas. Não havia o menor sinal de chuva e o céu sem nuvens tocava o mar sem deixar vestígios dos limites entre um e outro. Esfreguei os olhos pensando ainda estar dormindo, mas a areia era visível e estéril. Transbordei as palavras para fora da janela na esperança de poder içar outras pessoas. Elas retornaram esvaziadas. Umas proferiam impropérios, outras silêncio ensurdecedor. Então, pela primeira vez, após longos anos, saí da minha janela e desci em direção à areia. De repente, sozinho na areia, senti meu corpo subindo. Consegui ver de relance. Era um outro escritor em sua janela. Mas não sei o destino que ele me reservou.

Carlos Eduardo Leal 

3 comentários:

Adriana disse...

Esse conto é uma obra prima! Faz o leitor encaminhar seu olhar pela janela do narrador com cumplicidade e curiosidade...
Parabéns, Eduardo.
Abraço,
Adriana.

Adriana Guedes disse...

Eduardo, inspirada neste seu conto, fiz um outro, com uma narradora a encontrar o seu...
Espero que goste. Aí vai ele.

DISTÂNCIA



Ali na praia, naquele dia quente, eu brincava com meus filhos. Com um corpo maior do que eu planejara ter em minha juventude, eu mastigava com culpa um risole esfarelado que minha tia, cozinheira tão esforçada – mais esforçada do que boa, a bem da verdade – havia preparado para o farnel do dia. Um dia que se prolongaria para sempre em mim.
Envolvida em fazer cada filho calar e comer, atenta ao homem que catava mariscos na pedra e a todos os ruídos que me cercavam numa sinfonia indefinida e desafinada, eu fui me abstraindo pouco a pouco daquele inferno e olhei, desafiando meu destino tão aceito há tempos de só olhar para baixo, olhei para o alto. Foi então que eu o vi. Claro, alto, atento, um homem me olhava de sua janela. Por que me olhava aquele homem, me perguntei assustada, temendo que percebessem meu transparente desconcerto. Era triste, distante, humanamente angustiado com alguma verdade sobre a qual eu me fazia instrumento. Ele retirava de mim cada detalhe, os movimentos, o risole esfarelado de minha tia cozinheira, os filhos, minha pobreza. Ele se alimentava da cena quente, suja da qual eu fazia parte. Então era isso. Aquele homem me olhava de sua janela. Lá do alto ele olhava e desejava a minha temperatura, os meus excessos, as minhas experiências, meus insucessos, meu corpo sujo de areia, prova real de que eu vivia. Mas ele me contemplava de sua janela, com medo de viver. De sua janela, ele se mantinha discreto, atento, à escuta dos sons imprevisíveis e surpreendentes.Não se sujava, não se envolvia, não se misturava, não vivia. Mas posso acreditar que sentia. Ah, como ele sentia. O seu rosto transparecia o desejo de estar ali comigo, sujo, provando do risole de minha tia cozinheira.
Alguns minutos se passaram apenas. Fui expulsa de minha contemplação tão suave daquele homem triste, cansado, encantadoramente solitário. O que se passava do lado de dentro de sua janela que o impedia a sair e se sujar de areia ficarei sem saber. Mas sua imagem se prolonga até hoje em mim, e numa espécie de sintonia oculta, rezo para que um dia possa encontrá-lo na rua e olhar dentro dos seus (meus) olhos.

Adriana Bittencourt Guedes

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
Seu texto é belíssimo. Esta é realmente a ideia deste blog: que desperte outras leituras, outros textos, outros escritos. Que sejam escritos dos escritos, palavras das palavras, sentimento dos sentimentos, espanto diante daquilo que nos assombra, emudece, reverbera. Como gostavam de dizer os filósofos antigos sobre a realidade do mundo que se descortina diante de um olhar perplexo. Estar neste estado de 'espanto' é estar aberto ao mais da vida, para pensar em Artaud e no seu texto sobre van Gogh (Van Gogh: o suicida da sociedade).