terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Vik Muniz ou o olhar dentro do olhar

A exposição do fotógrafo e artista plástico Vik Muniz no MAM vai além do prazer escópico, ou seja, há um outro olho que olha para além daquele que vê. Trata-se da pulsão escópica. Há um prazer anexado a um gozo que capta, empuxa, captura, apreende o olhar para dentro da tela e o enquadra ali dentro da moldura. O aprisionamento neste frame, como gostam de dizer os cineastas,  na verdade é uma abertura dialética ao mais além. O que se prende também é o que se abre para uma outra dimensão. Outra dimensão da palavra e seu dizer. As fotografias de Vik Muniz produzem no expectador uma sensação de espanto, surpesa, admiração, contemplação e estas definições metonímicas poderiam continuar infinitamente, pois nehuma daria conta de recobrir o último sentido de qualquer quadro. Não há um único sentido ali. Talvez nenhuma fotografia e, ouso dizer, nenhum bom quadro jamais possa ser expresso em mil livros. Há sempre algo que escapa. Há sempre algo fora do quadro. Há sempre algo para além do quadro que restará sempre por dizer. Por isso, para cada série, há ao lado uma explicação sobre o processo criativo do artista que recobre suas fotografias com mel e geléia, no caso da Mona Lisa, numa explícita influência de A. Warhol. Existem imagens que foram montadas com entulhos (pneus, latas velhas, pontas de cigarro, etc) e depois fotografadas. Uma vertigem de perspectiva que ao mesmo tempo nos convoca a olhar de perto o que na verdade só podemos enxergar de longe. O todo só é visível a uma certa distância. Mas há também milhares de todos ali contidos. 
Quando alguém apaixonado por um montanha quer vê-la de perto só a vê aos pedaços. Como no amor. Quando você quer ver alguém muito de perto, você acaba vendo, na melhor das hipóteses, apenas uma pequena parte da outra pessoa. Às vezes olho no olho, principalmente quando se trata de descobrir a verdade. Puro engano. O que se tem é o amor aos pedaços. No ventre da palavra germina o não-todo da verdade. A verdade toda não existe. Deveríamos saber que para olharmos a verdade precisamos de um certo distanciamento senão tudo o que é espelho acaba embaçando. O hálito da verdade não deve cair no engodo de tudo contar ou tudo querer igualmente saber. É o resto que nos aprisiona ao Outro. É o que ainda nos falta dizer que provoca um novo reencontro entre os amantes. A monotonia do 'já disse tudo que havia para dizer' provoca o cansaço na imagem do outro que se dobra sobre o outro. Enfado e asfixia provocam no olhar um desvio, uma vereda pulsional que tende para outras margens, outros caminhos. A pulsão é assim mesmo. Vai a esmo como num barco à deriva no meio de um oceano bravio. Ela vai espiralando enigmas indecifráveis que retornam, retornam, retornam até 'fazer diferente', como disse o Manoel de Barros. O espelho da retina engana, distorce e vai mais além do olho: esta é a função do olhar é o que se diz. Mas isso não se captura. Isso, se sente. 
Nesta exposição (mas, quem é que está exposto, a obra ou expectador? Reviramento possível desde Merleau Ponty em O olho e o espírito e O visível e o invisível.), tudo que é etéreo, tudo que é sobra, tudo que é resto descartável está aprisionado infinitamente no tempo do clic da imagem nos quadros de proporções enormes. Há fotos feitas sobre telas cuidadosamente trançadas com linhas que vão entre o claro e o escuro de seus amontoados produzindo efeitos de perspectiva, até outras onde o Jackson Pollock está lambuzado de chocolate. Crianças pobres que o artista colocou açúcar sobre suas fotos para adoçar-lhes um pouco a vida. Os olhos não se cansam de procurar novos caminhos.
Janelas da alma é o que dizem os filósofos e os poetas sobre os olhos. 
Mas, eis que o meu olhar é capturado por uma cena. Uma cena maior do que todas as outras que tentei inutilmente aqui descrever. É a foto de uma mãe negra, catadora de lixo com dois filhos ao colo. Eles estão no meio do lixo do lixo. Um fino véu branco recobre sua cabeça. Mas a cena não termina aí. Não para mim. Diante deste quadro sentada num banco, está uma mãe apertando carinhosamente com o braço seu filho pequeno sentado ao lado dela. O apertava contra seu corpo. Corpo contra corpo como uma boa mãe faria. Com docilidade, mas com firmeza. Porém ela já não estava fisicamente mais ali. Me aproximei um pouco mais. Seu olhar estava fixo no quadro. Era para lá que ela se transportara. E chorava. Chorava seu choro de mãe compartilhando a dor daquela outra mãe que talvez jamais pudesse sair daquela cena da vida ou da fotografia? Jamais saberei e não me presto aqui a nehuma interpretação, pois toda e qualquer tentativa seria um grotesco reducionismo. E a lágrima não represada não estancava em seu rosto. 
Era um olhar dentro do olhar, uma cena dentro da outra. As imagens se fusionavam em rara beleza enquanto muitos visitantes passavam.
Ao sair da exposição eu comprei o catálogo com as fotos. Para minha surpresa esta foto da mãe com as duas crianças no lixo não estava no catálogo. Teria sido tudo ilusão minha? Teria visto mesmo aquela cena? Mas, o que foi real nisto tudo?   

4 comentários:

Adriana Guedes disse...

Eduardo, Walter Benjamin, crítico feroz da modernidade, relacionava estes restos, de que se faz obra nesta exposição, ao trapeiro. Aquele que vive a colher o que não mais se consome para dar-lhe sentido, para redimensioná-lo num tempo de ruínas. Sua leitura da exposição nos inspira a visitá-la num tempo, sem tempo. Obrigada pela bela sugestão.
Abraços veredianos,
Adriana.

claudiarreina disse...
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Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
Guimarães Rosa escreveu: "e se as unhas roessem os meninos?" Com os restos que amontoam a vida, pergunto: E se as palavras nos roessem?
Fequente (sem medo e sem trema, não trema)sempre este blog.

Carlos Eduardo Leal disse...

Claudia,
A poesia é um adubo necessariamente quotidiano para a aridez das nossas almas.
Obrigado, um abraço,