sábado, 7 de fevereiro de 2009

Veredas: literatura e psicanálise

- Nonada
Deveria começar assim um blog? Bem, não deixa de ser um início. Por onde? Pelas veredas. Quais? Talvez deva deixar a água escorrer um pouco mais através das palavras. Leio em Molloy de Samuel Beckett: "...tão bom, apagar os textos em vez de escurecer as margens, tapá-los até que fique tudo branco e liso". Sim. Talvez possa ser isso. Estas Veredas. Colher algumas palavras aqui e ali, lavrá-las sem nenhum outro pretexto a não ser escurecer um pouco as margens, reescrever textos, apagá-los num eterno palimpsesto
Lembro da imagem de James Lord sendo repintado quase ao infinito por Giacometti (Um retrato de Giacometti. James Lord. Iluminuras). Uma obsessão. Uma busca pela perfeição. Mas, novamente Molloy nos avisa que "não há nada para expressar, nada com que expressar, nada a partir do que expressar, nenhuma força para expressar, nenhum desejo de expressar, junto com a obrigação de expressar." 
Veredas? É subverter este imperativo categórico beckettiano: "nenhum desejo de expressar, junto com a obrigação de expressar". Ou a última linha de O inominável, também de Beckett: "tenho de continuar, não posso continuar, vou continuar."
O que pulsa se imiscui ao desejo e nele fica como A fera na Selva. Mas, escrevo mais uma página e caminho. Permanecer tal como a fera na selva é muito perigoso. Você vê o desejo desaparecer bem diante das suas veias. Muito menos repetir o fabuloso Bartleby, o escrivão de Wall Street de Moby Dick. "Escrever, dizia Marguerite Duras, "também é não falar. É calar-se. É uivar sem ruído"
A literatura já é o próprio bote/mote através da qual reconheço que a margem é sempre assustadora, que o livro vira e revira em curvas imprevistas, manancial caudaloso afiando-se entre pedras de amolar. Que as palavras me consomem, se prendem entre arbustos da alma, viram e reviram à procura da terceira margem, onde também sou leitor/autor/psicanalista entretido na escuta atenta de outras paragens, outras palavras, outras lavras, outras larvas que arejem o que pode estar por vir. 
Ali onde a palavra se empresta ao ridículo, ao seu quase total desaparecimento, ao desperdício, ao resto. Ali onde a palavra se esconde num toco de árvore embriagada de hereditariedades e genealogias. Ali onde o mar empresta sua saliva branca para lavrar a palavra-rocha, a palavra-grão, a palavra-sim-e-não-talvez. 
Por aí deverá caminhar Veredas: literatura e psicanálise. Comentários de livros, textos, música, filmes, alguma prosa e outras artes.   
Travessia.
Carlos Eduardo Leal

9 comentários:

Michelle disse...

... repentino impulso de... contar... depois precipitar-se enlouquecida na direção do primeiro que encontrasse... do banheiro mais próximo... e aí descarregava... torrente continua... sem pé nem cabeça... estranhas vogais... incompreensíveis... as palavras... o cérebro... agitando-se enlouquecido... agarrando-se a qualquer coisa... a oscilar... e então o vazio... tentar outra coisa... agarrar-se em outra coisa... o tempo todo aquela súplica... em qualquer lugar aquela súplica... que tudo aquilo terminasse... nenhuma resposta... prece não atendida... ou não ouvida... muito fraca... continuou assim... sem trégua... a tentar... sem saber o quê... o que ela estava tentando... o que restava ainda tentar... o corpo como que entorpecido... apenas a boca... enlouquecida... continuou assim... (Samuel Beckett, Eu Não). Cel, continue a tagarelar... continuo a te escutar... e a tagarelar... Bj, M.

Ana Carolina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Eduardo disse...

Michelle,
Sempre Beckett! Enlouquecer com as palavras é melhor do que não usá-las. Então, que elas nos usem através das nossas leituras, dos nossos textos, das nossas escutas.
Adorei seu comentário!
Bjs
CEL

Elaine Pauvolid disse...

Carlos Eduardo, excelente iniciativa! Pretendo voltar para colher palavras e escutar silêncios. muitas vezes certas palavras conjugadas respiram silêncios.
abraços

Carlos Eduardo disse...

Elaine,
Obrigado pela sua leitura sempre atenta, sensível e delicada. Gostei muito das "palavras conjugadas que respiram silêncios". Extremamente poético! Seja sempre bem vinda também aqui.
Abraços,
CEL

Adriana disse...

Oi, Eduardo,
confesso que fui pega de surpresa! Uma bela surpresa. Não se pode esconder uma vereda assim como a sua, trilhada pela sensibilidade da escuta, da escrita, pela alegria da amizade e, às vezes, pela dor da solidão(própria de todo escritor). Adorei o blog, muito!!!
Bj grande,
Adriana.

claudiarreina disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Ana Carolina disse...

Oi pai!
Como sempre, seu texto está ótimo! Aliás, excelente esta sua iniciativa de criar um blog... um espaço para florescer tudo aquilo que brota em você.
Um beijo,
Filha.

patriciageovu disse...

Neste primeiro momento gostaria de deixar registrado aqui a minha alegria por este Blog, não expresso surpresa porque um escritor como vc, com certeza ,não se limita nunca, está sempre adiante, na busca constante, no conquistar permanente, semeando e despertando em nós, pobres leitores mortais,através de suas palavras , sentimentos maravilhosos.
Parabéns!!!!!!
Patricia.