sábado, 21 de março de 2009

No silêncio eu entendo

O pior sobre o silêncio é achar uma palavra que o defina. Gostaria de achá-la. Ficaria procurando uma vida inteira se soubesse onde encontrá-la. Já procurei pelos desertos, nos mares gelados do sul, nas noites sem lua, nas ruas vadias, na magia do cinema e nas noites insones. Ah, já procurei em tantos livros que as palavras amarelaram de tão usadas. Algumas desgastaram-se com o tempo, outras simplesmente foram pouco a pouco desaparecendo como quem dá o último adeus ao seu grande amor numa estação de trem. Para achá-la preciso do silêncio. De um silêncio que não é solidão. Um silêncio que 'me aperta o peito e me faz suspirar'. Para encontrá-la preciso estar dentro do silêncio, e tudo o mais por fora. Só assim meus olhos se acostumariam com a escuridão e eu poderia escutar quem tanto procuro. Não é uma questão de estilo ou perspicácia detetivesca, e Edgar Alan Poe sabia disso na Carta Roubada. Tentei achá-la nas pausas das músicas, mas ali ela reverberava ainda mais alto. Como sofri no concert in F for oboe, strings, and continuo de Bach. Todo pequeno intervalo era o mote para tentar encontrá-la, mas o oboé me arremessava contras as cordas de uma forma totalmente sublime. E, assim, eu já não sabia se delirava ou se os sons me espiritualizavam numa eterna nuvem de imagens barrocas. Atravessei pântanos e me plantei como uma árovore que migra ainda em grão no bico de uma ave canora e viceja num solo longínquo onde nem meus herdeiros me achariam para reclamar a palavra por dizer. Há silêncios que me habitam, bem sei. Há partes de mim no prelo, quero dizer. Há outros lugares em mim que simplesmente desconheço, mas sei que existem. E a confirmação da existência destes lugares me é dada muitas vezes apenas por uma pequena modulação ou entonação da voz. Uma oitava acima e, pronto, lá está ela. Escuto então que ali, ali adiante, bem defronte de mim, existe outra parte. Apenas não a vejo, mas sei porque sinto. E sentir para mim já é prova da existência de um outro ser em mim. Sinto, logo existo. E não há nenhum mal entendido nisso. E esta é a prova de todos os mal entendidos. Se encontrasse em mim o que procuro fora seria a constatação de que há em mim algo que não eu, e isso me deixaria feliz. Ao menos digo que sim. E isso basta já que é uma crença. É preciso acreditar no silêncio embora eu não ache uma palavra para ele porque quanto mais eu falo, menos ele aparece. E isso me deixa triste, embora nem um pouco convencido da sua não existência. Já disse: falo, falo, falo, logo ensurdeço. Isto não é uma saída, mas um tropeço. Mesmo assim me leva adiante mesmo que seja aos trancos. Aos solavancos das palavras que vou tentando tatear. São fios mesmo estas palavras, fios que me conduzem, condizem, bem dizem outros lugares, outros sitios, como querem os portuguêses. De lá da terrinha penso que saudade pode ser uma palavra para abrigar o silêncio. Aliás, a palavra saudade pode abrigar tudo. Até nos abrigar nela. Menos nos proteger dela. Então não serve. O ruído da saudade me faz soltar âncoras e adormecer no outono. Gosto desta palavra: outono. Possui melodia, além disso, outono é uma palavra que cai. Gosto de palavras assim, sem pouso definido e ao desabrigo das estações. Outono é uma palavra que já atravessou todo o verão, mas ainda não encontrou seu inverno. Por isso ela ainda guarda um pouco do calor, mas já não há claridade e, sim, luminosidade. Outono é uma palavra luminosa. Talvez possa procurar uma palavra para o silêncio dentro do outono, ou dentro da luminosidade que acabou por trair o verão. Deu-lhe as costas e banha-se na luz que acumulou entre as gotículas de chuva e os raios do sol. Por isso que o extremo da luminosidade é o arcoíris que contrasta com o cinza das nuvens, mas guarda o sol dentro da chuva.
Talvez eu esteja perto de encontrar uma palavra para o silêncio. Ando cansado, mas ainda ávido, torrencialmente ávido. Sedento, diz-se. E já escrevi todo um livro sobre isso. A minha sede. Não me sobraram muitos lugares para procurá-la. Nesta busca vejo um oásis. Torço para que não seja uma miragem, um engano, uma ilusão que ludibria a vista e engana enlouquecendo a alma. Só me restou uma única esperança: procurá-la dentro dos teus olhos. Você deixa?

13 comentários:

Eugenia Ribas Vieira disse...

"L'automne déjà! mais pourquoi regretter un éternel soleil..." (Arthur Rimbaud, un saison en enfer). Lindas palavras. Eugenia.

Michelle Nicié disse...

A verborragia dos textos de Beckett não é uma busca de um sentido, ao contrário, é a exposição nua e crua do nosso desespero por não encontrar sentido algum ou pelo menos um sentido definitivo, único, pleno. Então, inventa-se, escreve-se, inscreve-se... essa falta, esse vazio. O silêncio se torna ruído, barulho ensurdecedor diante do que não se consegue dizer completamente. Estamos em carne viva, expostos ao inominável, não encontramos abrigo nas palavras. A palavra se torna capenga, faz a gente tropeçar. Em O inominável, Beckett diz: “A busca do meio de fazer cessar as coisas, calar sua voz, é que permite ao discurso continuar” (p.14).
Adorei o texto,
bjs
Michelle Nicié

Juliana disse...

Belíssimo texto!!!
Juju

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle,
Você foi certeira no seu comentário. Eu escrevi este texto assim que terminei de ler O Inominável, do S. Beckett. Fiquei atordoado. Assim, terminei a trilogia: Molloy, Malone morre e O inominável. Talvez, decorrido algum tempo de respiração eu consiga escrever sobre os três. Vou tentar, não posso tentar, tenho que continuar tentando, talvez consiga, mais adiante, talvez, talvez, talvez.
Bjs
Carlos Eduardo

Michelle Nicié disse...

continue...continue...continue
bjs
M.

Adriana Guedes disse...

Eduardo,
a beleza do outono (e concordo com vc qd diz sobre a palavra que cai) se encontra na transformação, na atitude de mudança, no porvir, na serenidade que há no silêncio. Quero muito o que está DENTRO. Só o silêncio das palvras pode nos dar isso; pode nos fazer retornar a esse estado de unidade: por isso falamos em língua materna.
Abraço grande e solit(d)ário,
Adriana.

Paula Saraquine disse...

Carlos Eduardo, assim como é difícil definir o silêncio, é também difícil encontrar palavras sobre seu texto. É impressionante a sensibilidade com que vem registrando seu pensamento, suas idéias...
Belíssimo!
Um abraço
Paula

claudiarreina disse...
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Carlos Eduardo Leal disse...

Cláudia,
Só me resta curvar diante de F. Pessoa. Aliás, quantas vezes mais me curvarei diante dele e de tantos outros que me ensinam aonde se escondem as palavras que procuro e não acho. Ele é um destes seres que o mundo deve algo mais. Mais do que uma palavra no silêncio.

Ana Paula Gomes disse...

O Silêncio da saudade

Podes olhar dentro dos meus olhos
Mas não garanto que terás silêncio
Pois as marcas da saudade
Guardam milênios

Milênios de rios
De lágrimas
Dos choros
Dos risos
Das casas
Das camas
Dos leitos
Desfeitos
De quem amas

Podes olhar dentro dos meus olhos
Mas não terás silêncio
Apenas saudade
Do cheiro
Da carne
Massacrada de lama

Podes olhar dentro dos meus olhos
E terás apenas silêncio
Da palavra jamais pronunciada
De quem ama.

Ana Paula da Costa Gomes

Adriana Guedes disse...

Ana, teu lirismo traz um perfume feminino irresistível ao leitor. Lindíssimo poema. Parabéns!!!!!!!!11
Abraço, cheio de saudade,
Adriana.

vinicius disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
vinicius disse...

Ótimo texto. Uma procura difícil, mas de palavras intensas. Neste momento penso que o silêncio possa ser o "estar fora". Talvez eu encontre com meu silêncio quando olho para fora. Fora de mim, fora do meu mundo, fora daquilo que posso compreender. Um barulho é qualquer ruído no momento em que algo toca aquilo que sou. Vagar por entre entulhos que não me dizem nada é estar em contato com um silêncio, como se eu olhasse a vida do alto de um edifício. Então, a apatia da minha sensibilidade pode me encaminhar ao silêncio. E será mesmo que ele existe, tal como procura?
Abraços.
Vinícius.