segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Bartolomeu Campos de Queirós



A infância brincava de boca de forno, chicotinho queimado, passar anel ou corria da cabra-cega. Nossos pais, nesta hora preguiçosa, liam o destino do tempo escrito no movimento das estrelas, na cor das nuvens, no tamanho da lua, na direção dos ventos. O mundo não estava dividido em dois, um para as pessoas grandes, outro para os miúdos. As emoções eram de todos.” Bartolomeu Campos de Queirós - Indez

Não é fácil se despedir de quem se ama. Toda despedida, se for sentida, torna-se saudade antes mesmo da partida. Saber da morte de um escritor, por mais que ele tenha deixado muitos livros, traduzidas em frases líricas, poéticas, histórias infantis, juvenis não é fácil. 
Descobri o Bartolomeu já tarde. Gostaria de ter sido um menino (embora ele não escrevesse nesta época) para tê-lo lido desde cedo. A minha identificação com ele se deu através da simplicidade. Mineiro, gostava das coisas corriqueiras e acreditava que espanto era coisa que se aprendia com a alma aberta tal como a lua de boca aberta para as estrelas. 
No sitio de meu avô as coisas eram assim. Se de dia ia para a horta é porque haveria de estar na mesa a couve que eu havia visitado cedinho com minha bisavó. Se ia ao galinheiro, no almoço lá estava o  frango ensopado com as batatas. A morte era apenas a continuação do dia de outra maneira. As montanhas (sempre acreditei nisso) encontravam o céu em seus cumes. A vertente da montanha conversava com as estrelas durante a noite. De manhã cedinho eu ia contar as estrelas cadentes. Certa manhã cheguei a contar mais de cem. Elas diminuíam incrivelmente de tamanho e transformavam-se em gotículas d'água nas folhas de inhame. Foi meu avô quem me ensinou isso. Nunca duvidei de sua sabedoria para crianças.
Tinha com o Bartolomeu uma relação assim de neto para avô. 
Hoje perdi outro vô contador de histórias e causos. Mas, não há de ser nada. Amanhã vou subir novamente no alto da montanha e tocá-lo com a ponta de meus dedos.
Até amanhã, Bartolomeu. 



O escritor mineiro Bartolomeu Campos de Queirós morreu na madrugada desta segunda-feira (dia 16/01/2012) em Belo Horizonte. Autor de mais de 40 livros, ele morreu em decorrência de insuficiência renal, informa a agência EFE.
Queirós tinha 67 anos, não era casado e não deixa filhos. Ele sofria de problemas nos rins e fazia hemodiálise regularmente. Ele estava internado no Hospital Felício Rocho
Seu corpo será velado esta tarde na Academia Mineira de Letras, da qual Queirós era membro.
Rafael Munduruca/Divulgação
Bartolomeu Campos de Queirós
Escritor Bartolomeu Campos de Queirós morreu nesta segunda-feira em Belo Horizonte
Nascido no município de Pará de Minas (MG), mestre e crítico de arte, trabalhou em diversos projetos de incentivo à leitura patrocinados pela Biblioteca Nacional e pelo Governo de Minas Gerais.
O autor estreou na literatura em 1974 com "O Peixe e o Pássaro" e se dedicou principalmente à literatura infantojuvenil. Seu trabalho mais recente é o autobiográfico"Vermelho Amargo", lançado em 2011.
Segundo a assessoria da editora Cosac Naify, ele deixa um trabalho inédito ainda sem título e sem previsão de publicação.
O autor recebeu inúmeros prêmios, entre eles o Jabuti, maior condecoração literária do país, e o prêmio Ibero-americano SM de Literatura Infantil e Juvenil de 2008. Bartolomeu foi, além disso, finalista em 2010 do prestigioso prêmio internacional Hans Christian Andersen de Literatura Infantil.
O prêmio Ibero-americano SM reconheceu "a transcendência de sua obra que se manifesta na profundidade dos temas abordados, o respeito pelo leitor, os desafios que teve de enfrentar, seu compromisso com a arte literária sem concessões e o caráter poético e filosófico de sua obra".

(Da Folha.com - Ilustrada)

7 comentários:

Carmen Cynira disse...

Também gostava do Bartolomeu

Telma Miranda disse...

"Porque quando a dor é muita eu escrevo". E a vida se repete na estação. E assim... "chegar e partir são só dois lados da mesma viagem". Pra ficar na mineiridade. Evoé!

Anônimo disse...

Pense no encantamento que as crianças no céu sentirão com suas histórias... Fazer uma criança sorrir alegra a Deus *,*,*,

sonia disse...

"Uma estrela cadente que se transformou em gotícula d'água nas folhas do inhame."

Não o conhecia mas seu rosto tem algo de muito familiar!

Valéria disse...

Um pedacinho da prece de Clarice no "Livro dos Prazeres", pra acalmar a despedida: "Alivia a minha alma, faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha, faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade..."

Um forte abraço pra vc e todos que o amavam,
Valéria

Ana Carolina disse...

"Viver exige legendar o mundo".
Quer coisa mais delicada? Mais uma simplicidade do Bartolomeu. Adorei o texto.
Beijos

Lucia São Thiago disse...

Eu que não o conhecia antes de sua partida pretendo ler tudo que ele deixou. Quero desenhar a doçura das suas palavras.