domingo, 22 de janeiro de 2012

Os escritores e os dias

    


Existem dias que acordo Fernando Pessoa. Então a vida me desnorteia em muitos eus profundos. Nestes dias desassossego em poesias e heterônimos. Corro para a Tabacaria mais próxima e fico absorto, sem metafísicas. Percorro Campos, perscruto Álvaros e Bernardos. Tenho abalos sísmicos com Ricardo Reis até que de repente tudo se acalma e quando vou ver a bruma noturna já engoliu o dia.
Existem dias que acordo Clarice Lispector. O mistério ronda a alma, o amor me acolhe de maneira incompreensível e quero pular para dentro de todas as palavras que ficaram interrompidas, todas as reticências que iniciaram frases. Dias assim, tenho saudades do bonde, do Jardim Botânico e de Macabéa. Preciso me recolher ao quarto da empregada e cheirar passados. Ulisses é a angústia por vir: medo e insegurança diante da aprendizagem do amor...e dos prazeres.
Existem dias que acordo Raduan Nassar. Então o incesto brota de forma larvar nas minhas reminiscências avoengas. Estou só. Planto Lavouras Arcaicas e sinto o ódio subir a sebe quando as putas das formigas destroem relações e transbordo copos de cólera.
Existem dias que acordo Samuel Beckett. Acordo com intermitências gritando nas veias: tento. fracasso.  não importa. tento outra vez. fracasso de novo. fracasso melhor. tento de novo. falho de novo. falho melhor. Nestes dias não consigo parar de escrever. preciso parar de escrever. não quero parar de escrever. não posso. preciso. ainda mais. mais, ainda.
Existem dias que acordo Guimarães Rosa. Redemunhos e cãos ladram ao redor das minhas ideias. Tudo é um urubuquaquá no pinhém. Pego espingardas, chamo jagunços, embrenho sertões e amo Diadorim. Dias assim são para reinventar pedaços que ficaram desnorteados na vida. Os buritis dão sombra para minhas veredas. Fico na terceira margem das palavras banhando-me nas encostas da alegria. 
Existem dias que acordo Carlos Drummond de Andrade. O mundo torna-se grande como numa janela sobre o mar. Pergunto por José. E agora José? O tempo, o amor e o desejo respondem de outros lugares. Mergulho em poemas e memórias: "Amar o perdido/deixa confundido/este coração." Drummond é uma vida inteira em mim. 
Existem dias que acordo Dostoievski. Então acho, não sem culpas, que a beleza salvará o mundo. Cometo crimes e espero pelos castigos. Sou um idiota, mas é deste lugar que posso dizer o que quiser. 
Existem dias que acordo Nicolai Gogol. Então quero ser um inspetor geral das coisas que ainda não sei. E me faço passar por comprador de almas mortas. Sou rico. Farsantemente rico e opulento. E desdenho burguesias a ponto de meu nariz andar em pé sozinho, destacado do meu corpo.
Existem dias que acordo Machado de Assis. Então sou um bruxo do Cosme Velho e tenho ciúmes doentios de todas as capitulinas que me cercam. Faço uma canção para a missa do galo e desconheço-me se me retiram os espelhos. Em dias assim a dualidade da alma fica aos destroços.
Existem dias que acordo Nelson Rodrigues. Bonitinho, mas ordinário. E eu que não sou fluminense vou a todos os jogos deste time e creio na vida como ela é: "é impossível amar e ser feliz ao mesmo tempo" ou digo que "pouco amor não é amor". Dias assim, transbordo erótico. 
Exstem dias que acordo Paulo Coelho. Ai, nestes dias quero me matar. Nem levanto da cama porque acho que ainda estou tendo pesadelos...

16 comentários:

rosi disse...

Tem dias que me sinto assim...é o humano em suas várias faces, e o poeta deixa transparecer melhor tudo isso.
E por que não Paulo Coelho?! ( De médico e de louco todo mundo tem um pouco)Rs..brincadeirinha..ninguém merece!
Parabéns!Lindo texto!Lindo como tudo o que vc escreve!

Carmen Cynira disse...

Gostei muito. É assim. O final,assusta!

Silvia King Jeck disse...

Como disse Carmen Cynira o final assusta. Mas o início e o meio estão demais! Segue rondando outros escritores para nosso deleite!

Anne disse...

Adorei tua descrição através dos escritores diversos e o último me arrancou gargalhadas!!!!

Estou de volta aos blogs...

beijos
Anne

Valéria disse...

Quando é sentida a sua força é que o amor existe. Mas, sua qualidade de erótico é mesmo um luxo,sorte... possibilidade de aprendizagem dos prazeres...através dos dias, inspirados por nossos queridos escritores e poetas.
"Mas sem amor eu não seria nada"

Abraços.

Fênix disse...

Sim, é verdade, somos "um" e nesse "um" cabem muitos..
Lindo.
Beijos,
Fênix

missosso disse...

sensacional, Carlos, vc conseguiu com requintado humor, um belo passeio pela melhor (e pela nem tanto, de leve) literatura. bravo!

Tais Luso disse...

...E quando acordar um 'Raduan Nassar' (rsrs), tem um conto denso, forte que se chama 'Hoje de Madrugada' – escrito em 1970.
Fantástico!
Adorei este seu texto.

Abraços, amigo.
Tais Luso

Carlos Eduardo Leal disse...

Obrigado, Rosi
bjs
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Carmen
O final é meu pesadelo rs
abçs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Obrigado, Silvia pelo teu carinho de sempre
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Eu te intimo a nunca deixares teu blog que amo tanto tuas poesias. rs
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Obrigado, Valéria
O que seria da vida sem erotismo?
Abçs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Fênix,
Que tuas asas renasçam sempre nas minhas palavras
abraços
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Missosso,
Obrigado pelo carinho da tua leitura
Abraços
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Tais,
Adoro o Raduan
Não lembro deste texto dele. Está em "Menina a caminho"? Único livro de contos dele.
Deste livro adoro "Ventre seco".
Bjs
CEL