terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Palavras: um retorno


Retornar às palavras. O que faríamos se não houvesse este eterno retorno? Meu avô contou uma história que lhe foi contada pelo seu avô. Era assim:

Cristóvão era pequeno quando seus pais disseram que ele precisava sair de casa para ajudar. Ele não sabia muito bem o que era ajuda, nem a quem precisaria ajudar. Esta palavra permaneceu árida de adubos: outras palavras contrabandeadas na fertilidade de segredos.

Deambulou pelos campos por algum tempo. Ele tinha todo o tempo do mundo. A fome veio e, então, conheceu a palavra 'fome'. Descobriu que se comesse a fome iria embora. Mas a palavra fome ficou.

Dormiu ao relento, sentiu frio e descobriu não só a palavra 'frio', mas que se conseguisse se agasalhar o frio iria embora. E, novamente, esta outra palavra foi plantada em seus sulcos. A palavra 'relento' não foi embora com a chegada da manhã. Ao contrário, foi uma palavra regada por estrelas.

Acordou entre estranhos. Logo fez amizade e a palavra 'estranho' também ficou, mas o sentimento havia ido embora. Cristóvão era um rapaz bom. Porém, logo ele descobriu que haviam roubado sua inocência. Percebeu não só a palavra 'inocência' em sua detumescência, mas através dela, a palavra 'dor'. Descobriu que, como a vida, mais cedo ou mais tarde elas também iriam embora. As palavras fertilizavam seus campos e ele crescia entre frases incompletas.

Com a vida, Cristóvão também descobriu que poderia ajudar àqueles que careciam das palavras, pois ele sabia o significado de algumas. Plantou letras e gerou histórias. Suas genealogias. Lambeu docilmente a palavra ‘filhos’.

Mas a vida lhe trouxe com os cabelos brancos, a palavra 'saudade' e, só então, lembrou-se de voltar para casa.

Para sua tristeza, descobriu que seus pais já tinham ido embora sem as suas palavras.

Só então começou a descobrir o verdadeiro significado da palavra 'ajuda', pois agora precisava com urgência daquilo que ele havia saído para buscar. Ficara órfão de uma palavra que mal conhecia.

9 comentários:

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo!
Ajuda, fome, frio, dor ... VIDA né não? Tu és um verdadeiro contador de histórias nas entrelinhas! Por isso gosto tanto do que escreves. Parabéns!

Beijo
Anne

virginia disse...

penso que a gente só aprende aquilo que a gente vive. FELIZ VIDA p/ todos nós!
bjus*
VI

Ana Lúcia Porto disse...

Oi Carlos,

"Ficara órfão de uma palavra que mal conhecia."
Nestas horas é que o chão parece não existir... e a dor é profunda...

Interessante o relato deste seu caminhar..., deste seu crescer..., amadurecer...

Beijos,
Ana Lúcia.

Ana Claudia disse...

Carlos,
Que bom que existem palavras pra expressar o que a gente sente. Estou retornando às palavras e vendo como são belas e que apesar de irem embora, continuam sempre dentro da gente.
Parabéns pelo texto!
abs, Ana Claudia

Camila disse...

Lindo texto Carlos!!!!!!!

Ana Carolina Nunes disse...

O MEU ESCRITOR PREFERIDO!!!
Beijos,
Filha

Silvia disse...

Oi Carlos Eduardo. Tô de volta após muitas boas andanças pelo nosso mundinho. E quantas palavras me ficaram ! IDA, VOLTA, RETRATOS, DESLUMBRAMENTO... E não fiquei órfã de nenhuma porque elas me acompanham em sonhos...
Bjo,Silvia

Sônia Silvino disse...

Carlos!
Palavras também alimentam!
Bjkas e bom domingo!

Mabel disse...

...quando as palavras vão se tornando coisas...
...muito tocante, muito magistral o jeito coomo você coloca isso...
...parabéns!
Tem sido uma experiência muito interessante, depois de muitos anos de contato, poder ouvir você dizer...
Beijos,
muito êxito nessa empreitada,
Mabel