quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Campo de concentração


Yael tinha oito anos quando foi molestada pelo padrasto. Não foi a única vez. Com a "facilidade da familiaridade", outros toques, novos olhares iam se avolumando sobre aquele pequeno e frágil corpo de menina. Com o passar dos tempo, Yael que era uma menina dócil, meiga e brincalhona havia se transformado numa criança irritadiça e mal educada. Aos treze anos ela já não queria mais ir para a escola. Aos quinze havia fugido de casa sem nunca ter conseguido contar nada para sua mãe. A revolta interna deu lugar a fuga. Yael morava em Haifa, cidade próxima a Jerusalém. Num dia entrou num ônibus e foi até ao Muro das Lamentações. Havia escrito uma carta para D'us. Nesta carta pedia o que a vida não havia lhe dado. Mas, sempre não pedimos o que não temos, ou acaso alguém pede o que já possui? Com ela não foi diferente. Aliás, foi muito mais sentido. Isto sim, pois seus olhos transbordaram ao colocar o papel na parte à direita do muro destinado as mulheres. Yael pediu com força. Pediu destemida. Que a vida fosse só isso, definitivamente ela não acreditava. Por detrás de seus olhos verdes, sua pele branca e seus cabelos muito negros, Yael escondia a beleza da garra pela vida de quem aprende através da dor.
Não ia sucumbir àqueles anos de molestação sexual. Que a procurassem nas periferias, que a procurassem nas sinagogas. Ela havia se comprometido com a vida. Poderia ser "mulher da vida", esta profissão inaugural, pois aprendera muito. Mas decidira ser mulher-com-vida. E, pensando assim, veio-lhe a ideia do 'campo de concentração': fato triste e humilhante não só para os judeus, mas para toda a humanidade. Para sempre relembrado, e, portanto, nunca recalcado. Pensou que gostaria de fazer o seu Campo de Concentração e, assim, subverter a lógica de que a vida iniciada torta não poderia ser desfeita. Queria "concentrar" num único espaço as diferenças. Queria um campo de concentração para o pensamento sobre o novo, para as atenções e as novas ideias que lhe brotavam: acolher diferentes raças e etnias. Queria provar que era possível o convívio entre judeus, palestinos e árabes. Queria se desvestir da sua dor, da intolerância generalizada e do sofrimento imposto. Criaria uma escola onde "concentraria" a diversidade, a diferença e a tolerância. Hoje, nesta escola, ninguém se diz árabe ou judeu, mas simplesmente, seres humanos. Yael conseguiu atravessar o seu Muro das Lamentações...

Parte deste texto foi inspirado numa história real, numa escola real, contada pelo jornalista Ari Peixoto. Reproduzo um trecho:

Escola árabe-judaica dá exemplo de convivência pacífica em Israel

Judeus e palestinos vivem em harmonia, com respeito e amizade. Isso é possível para uma nova geração.

ARI PEIXOTOJerusalém

Duas professoras em sala de aula. Uma fala hebraico. A outra, árabe. Elas explicam as formas geométricas para alunos da quarta série, israelenses e palestinos. Não muito longe dali, as brincadeiras das crianças do jardim de infância, comandadas pelas professoras Mimi e Aya, também nos dois idiomas, confirmam que esta não é uma escola comum.

Das cinco escolas bilíngues Max Rayne que funcionam no país, a de Jerusalém, inaugurada em 2008, foi a pioneira. Lili, argentina de nascimento, diz que um idioma complementa o outro, e isso ajuda os alunos e que tanto ela quanto Angie, a colega de classe, se sentem realizados trabalhando na escola.

Atualmente, 500 alunos árabes e judeus sentam-se lado a lado nas salas de aula. Juntos, discutem as lições ensinadas pelos mestres. Aprendem a respeitar as diferenças culturais e, acima de tudo, aprendem que suas escolhas não dependem das questões políticas dos governos.

Em qualquer outra parte do mundo, isso não chamaria a atenção. Mas em uma região onde ódio e violência são matéria-prima do dia a dia, a iniciativa bem pode ser chamada de revolucionária.

Mais do que provar que a coexistência em harmonia entre árabes e judeus é possível, escolas como esta são uma espécie de ponte entre um presente e um passado de guerras e discórdias e um futuro de paz e compreensão.


Recomendo o documentário: "Promises" (promessas de um novo mundo).

3 comentários:

Anne M. Moor disse...

Que coisa linda! Já leste o livro "Three Cups of Tea" do Greg Mortenson? Adoro estas histórias que provam que SIM uma pessoa pode fazer a diferença. É só ter vontade e garra!!

Thanks. Beijos
Anne

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Não li, mas vou procurar. Obrigado pela dica.
Bjs

Minha Humana Condição! disse...

Lindo post,bem que poderia existir mais pessoas que fazem a diferença,pena que esses seres geralmente passem por algum tipo enorme de sofrimento!Que isso nos sirva de lição!

Forte abraço!