segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A palavra inventada


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Minha bisavó era religiosa. Ela acreditava nas folhas de couve. Dizia assim: "meu neto, se aquela couve brotar viçosa (ninguém mais diz a palavra viçosa como ela dizia), vou dar um nome para ela". Para ela, dar um nome fazia com que a couve brotasse em flor e folha como uma linda floresta. E eu ficava imaginando uma floresta de couves com formigas colossais e caracóis gigantes que passeavam sob suas sombras. A bisa acreditava nos nomes e dizia que o nome é o primeiro ato de amor que podemos dar à uma criança. E remendava: "quando você dá um nome para uma criança que ainda não nasceu, ela imediatamente passa a pertencer a sua família. Antes disto ela não é ninguém. Isto é um ato de amor, pois amor é acolhimento", dizia ela em sua singela e enorme sabedoria.
Então, aventureiro como sempre fui quando o negócio se tratava de palavras, perguntei a avó se eu mesmo poderia batizar aquele pé de couve. Mas vai que "chuva que beira a noite, não tarda em desfolhar palavras", dizia ela. E o dito ficou pelo feito. O dia virou noite antes mesmo do sol se por e houve o destronamento da horta. Era água que nunca caberia em nenhum dicionário por maior que fosse. Na verdade, choveu mesmo da página 93 até a página 215. E foi tanta chuva que chorei prevendo o que acabei por constatar na manhã seguinte. Corri até a horta e nem mais a palavra horta havia, se eu soubesse naquele tempo, escrevê-la.
E eu tinha ficado com a palavra inventada atravessada na minha cabeça, como um estrepe no pé.
-"Vó", eu disse engolindo um soluço, "o que eu faço com o nome que eu havia inventado para aquele pé de couve?"
- "Vamos plantá-lo", disse ela sorrindo. Mas eu sabia que por dentro ela também estava triste, por que ela também tinha inventado muitos outros nomes para os outros pés. Seu Nonô, que era quem trabalhava na horta, veio logo com uma enxada.
_"D. Tavinha, Seu menino" - ele nunca soube pronunciar meu nome e, no entanto, nunca senti tanto encantamento no impronunciável como quando ele me chamava -, "não há de ser nada não. Quando uma muda couve se adianta, outra mais forte se alevanta". E isto era quase Camões, mas era o velho Seu Nonô em sua prosa poética.
Nós três passamos a manhã ali. Plantei palavras como nunca soube que plantaria. Minha bisavó me ensinou que no corrido do canteiro não tem importância você plantar um 'n' antes de 'p' ou 'b', "pois lá embaixo, sob o estrume, as raízes é que embaralham certo a nossa cultura". A bisavó falava de cultura e eu bebia daquela sua água colhida ao longo da vida: água que eu colhia já quase sem esperanças no final do alfabeto, dentro da letra 'u'.
Hoje, quando fico ateu das lembranças que tinha dela, recordo logo da sua crença e me reconcilio inventando outras palavras. Como diz o poeta Manoel de Barros, "as palavras que não têm nome são as mais ditas por crianças."

6 comentários:

cristinasiqueira disse...

Oi meu querido,

Adorei a foto feliz.E o conto é além de especial.E esta vovó que sabia de acolhimento a começar pelo nome...e as palavras embaralhadas sob a terra...a terra de Sêo Nonô Camões.E a chuva a desfazer horta e plantio de nomes.
E você com estilo a contar histórias encantadoras.Pura magia seu bruxinho terno e feliz.

À você que me lê com o coração,

Suspiro pelo ano que se encerra e nos permite tempo de pausa para reflexão.
Durante um tempo longo fui sentindo,sentindo... as vibrações que circulavam ,claras e obscuras,
rápidas demais,fortes e frágeis,distintas e misteriosas,espertas e inocentes,confiantes e assustadoras,enfim
carreguei por todos os lugares um texto ,um amarrado de palavras que a cada noite se desvanecia,depois se encorpava,até que finalmente em uma tarde
se fez nascer ..."ANTES de TUDO".Senti alívio e o contemplei prosa a se dizer poema com olhos amorosos de mãe quando vê seu filhinho pela primeira vez.
Agora este texto é seu,meu presente de Natal,leia sem pressa,o examine lentamente,deixe-se ser tocada por êle.
Envolva-se com a sinceridade transparente com que o escrevi, com a delicadeza,com o tom suave e meditativo.
Compreenda o amor e a dor do texto,o luto e o nascimento ,a coragem a clamar por bravura,a solenidade,o consolo,a humanidade em nós semelhantes.
"Antes de Tudo"...postei no www.cristinasiqueira.blogspot.com

Feliz Natal

Cris

Fernanda Irene disse...

Nunca deja de sorprenderme la capacidad de un blog para conocer nuevos amigos en todas las partes del mundo. Gracias por encontrarme, para mí ha sido un placer.

Un afectuoso saludo

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo
Inventar palavras e plantar couves é uma delícia que nunca deveríamos esquecer!!! Conta mais vai...

Beijos :-)
Anne

Michelle Nicié disse...

oi querido!

adorei o seu Nonô... com sua sabedoria cheia de poesia e humor...
ateu de lembranças... que bela imagem!
bisous
Mimi

Adriana Guedes disse...

Eduardo,
o retorno ao passado é o melhor movimento para impulsionar um futuro cheio de luz e alegria!!!!
Feliz Natal, cheio de palavras e memórias.
Bj
Adri.

Sônia Silvino disse...

Carlos!
Um lindo Natal! Está bem próximo! Já preparou o seu coração?
Bjkas!!!