quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Palavras rolando

Noite estrelada - Van Gogh

A noção de que as ideias voam e as palavras rastejam não é nova. Nasceu, com certeza, com a minha bisavó e não de Shakespeare como muitos pensam. Ela era dada a novidades. Certa vez descobriu uma nova constelação, uma colcha de estrelas, como ela mesma dizia. E isto a olho nu. Ela enxergava longe. Ela fazia fuxico e, antes de morrer, me deixou uma colcha que agasalha a minha imaginação até hoje. Era uma mulher além de seu tempo. Vivia no mundo da lua, ou quase lá, aliás, às vezes e, frequentemente, ultrapassava a lua e bordejava estrelas.
Ela me dizia por detrás de seus óculos pequeninos: "meu neto, as palavras veem das estrelas. Elas descem de noite, entram nos nossos sonhos e a gente quando acorda está de palavra nova". Assim ela dizia, assim eu cresci em sua crença. Coisa de menino que via no escuro da roça, as palavras tomarem forma. Algumas vezes eram palavras candentes. Noutras, eram palavras azeitadas no inferno. E nestas horas eu corria para debaixo da cama que é o lugar mais seguro do mundo quando se está com medo e a vida não transcorreu mais do que cinco anos. É assombroso o que se imagina do inferno quando se é pequeno: um lugar sem brinquedos, sem sossego, sem minha avó, sem o vô, com muito fogo que sai do leão de duas cabeças. Tudo bem que é o Cérbero, famoso cão do inferno, mas criança sempre acha leão pior do que cachorro, ainda mais quando se tem alguns e na roça o que a gente mais tem são cachorros, pulgas, carrapatos, trinca-ferros, coleros, abelhas, vespas, catapora, coqueluche, bicho de pé, nariz fungando, vagalumes, estrelas e mais estrelas. Na roça as estrelas são em maior número do que em outro lugar. A não ser quando chovia. E era nestes momentos sujeitos a chuvas e trovoadas que eu, ainda pequeno e impertinente, perguntava mais ou menos assim a minha avó:
- "Vó, hoje de noite não tá chovendo?"
- "Claro, meu neto. Tá chovendo muito".
- "Então o céu não tem estrelas".
- "Isto mesmo, meu neto".
- "Então hoje não teremos palavras novas?"
Pela primeira vez eu vi minha bisavó triste, triste como uma mariposa em volta da luz. Então ela me contou uma história surpreendente. Era sobre um menino chamado Sísifo - assim do seu tamanho, ela dizia -, que morava num lugar que chovia toda a noite e, portanto, há muito tempo não ganhava nenhuma palavra nova. -"E como é que ele fazia para viver sem uma única palavra nova?", perguntei ansioso. "Ele ia rolando sua palavra até no alto de uma montanha, mais alta do que o seu pensamento pode alcançar, e quando ele estava quase lá no alto ele a soltava e ela ia fazendo como uma bola de neve: ia crescendo em outras palavras e quando ela chegava lá embaixo já havia quase uma frase. Tinha dias que ele colhia uma história quase que por completo. E assim ele fez todos os dias ao longo dos seus centro e trinta e dois anos de vida, pois ele viveu muito", contou-me a vó. - "Então ele escreveu muitos e infinitos livros?", perguntei fascinado.
Cresci com a crença de que as palavras veem mesmo das estrelas e disso eu não duvido nem um pouco. Tanto é assim que quando eu fico sem inspiração para escrever, eu volto sempre ao campo e, deitado ao relento, olho fixamente para o céu e me deixo regar pelo mar de palavras que caem em noite estelar.

9 comentários:

Anne M. Moor disse...

Ahhhhhhhhhhh Carlos Eduardo,

Deitar na relva, no silêncio da noite e olhar pras estrelas e deixar os pensamentos voar de uma a outra recolhendo palavras... Que imagem bem gostosa essa que se forma neste teu texto! Contador de histórias você... Lindo!

Beijos
Anne

Telma Miranda disse...

A palavra como o "piano dos dias" que carregamos ad infinitum... sempre a mesma e sempre podendo ser outra, nova, redentora, abençoada, absolvedora, sobretudo. Uma das possibilidades de colher novas palavras é estar novamente criança, admirada com as estrelas, para poder, de novo, criar o mundo e os nomes das coisas. Bacci. Telma.

Adriana Guedes disse...

Eduardo,
recomendo também a pílula falante. Quando criança, acreditava que, assim que a encontrasse, se descortinaria um mundo novo de palavras. Quem sabe? Não deixei de acreditar jamais.
Bj e abraço,
Adriana.

Tatiana Telink disse...

Como é que pode tuas palavras sempre virem tão amarradas de imagem? Venho aqui, te leio, fecho os olhos e vejo... um mundo inteiro que se criou dentro de mim. Carlos, você é o Fellini das palavras novas!

Walkyria Rennó Suleiman, disse...

Puxa vida, adorei todos seus blogs, teve um que me deu fome, delícia de risoto. Terei que voltar com calma pra te conhecer melhor. No começo era brincadeira, e continua sendo. Muito legal!

Sônia Silvino disse...

Oi, Carlos!
Vim te visitar e gostei muito do teu espaço!
Tens o dom das palavras! Parabéns pelo teu trabalho, amigo!
Visite: http://soniasilvinothebestblogs.blogspot.com
Tu estás em destaque lá!
Abraços e ótimo fim de semana!

Tamyris Torres disse...

Deve ser mesmo inspirador. Aqui no Rio tá faltando um lugar destes para eu ser abençoada com uma noite de inspiração. Enquanto isso eu ouço o minhas músicas e procuro na poesia algo que me faça sentir melhor...
boa semana!

Maira Parula disse...

oi, Carlos, gostei desta ideia de que as palavras rastejam. É isso mesmo. Serpentes sem asas. Só as ideias são livres, se deixarmos. rs Mas o barato é inventar palavras, tentar criar umas asinhas. Gostei de vir aqui. Um super 2010 p/ vc.
besos

rosi disse...

As palavras chovem com as estrelas...