quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A fábrica de palavras



Escrevi no meu último post (leiam: A palavra oculta) que meu bisavô tinha muitas manias. Não era uma única. Se vocês voltarem lá verão que a palavra já estava no plural Ele próprio era plural. Ele era singularíssimo em sua pluralidade.
Sua casa era simples como seus abraços. Abraçava e a gente se sentia extremamente acolhido como a noite acolhe o fim do dia e eles sabem a razão de se sentirem assim. E pronto. Sem adereços nem outras fantasia. Meu bisavô era a sua casa e, agora sabemos com tristeza, mutilado da minha bisavó, seu grande amor. Mas meu bisavô era um homem muito ativo, dado a fazer e a inventar coisas. Seu luto e seu eterno conversar com os livros não consistiam num abatimento. Muito pelo contrário. Arrancava de dentro da sua baixa estatura e corpo franzino, que a idade sempre contribui por fazer enxurrada, uma grandeza jamais vista.
Ele tinha uma oficina atrás de sua casa. Consertava tudo e seu tudo para gente simples do interior era bem pouco, ao menos para o muito e o excesso que conhecemos hoje. Vocês sabem do que estou falando. Tudo de seu mundo, bem dito. Mas era habilidoso com as mãos para a madeira e o torno. A bisa tinha a mão boa (que destino ingrato) para plantar.
Mas, vai que desde sua viuvez, o bisavô passou a se trancar em sua oficina. Criança, por sua natureza, é sempre um serzinho extremamente curioso. Quando se diz 'não pode', 'não olhe', aí é que o bicho da curiosidade germina e coça sem parar. Eu queria saber o que ele fazia. Barulho havia (plainas, serrotes, pregos sendo batidos, esmeril, serra elétrica, etc), o que não havia era entendimento para aquilo tudo. Talvez por medo ou vergonha ele não deixava ninguém olhar. Era mania sua e devia de ter alguma ligação com a morte da bisa.
E foi numa manhã azul de domingo que ele pediu que todos nos arrumássemos bem bonitos para irmos à missa. Mas quando estávamos todos prontos, ele disse que naquele dia ninguém precisava ir a igreja. Eu, ainda menino, como minha fé amarrada tal como linha puída de pipa, exultei de alegria com a notícia de meu ateísmo dominical. Ele fez a família se enfileirar tal como numa procissão e nos conduziu solene para a porta de sua oficina. Talvez fosse sua missa, talvez quisesse virar um beato religioso.
Cauteloso como era, deu um passo à frente de todos e disse com a gravidade que sua voz entoava. Hoje vocês irão conhecer a minha fábrica. E abriu as duas portas de madeira da sua oficina. O que vi não coube dentro dos meus olhos. Não coube dentro de mim. Talvez jamais caberá um dia.
Meu bisavô havia escrito um livro, aliás, um não, mas vários. Ou melhor, ele havia escrito várias histórias. Explico: ele havia feito letras, muitas letras de galhos retorcidos de goiabeira, outras letras de madeira de caixote. Letras de todas as formas, cores e tamanhos. Tudo com exímia perfeição. Tudo com um carinho, uma devoção e amor que só um homem apaixonado e apaixonante faria. E disse orgulhoso: "esta é a minha fábrica de palavras. Aqui estão as histórias da minha vida e aquelas outras que eu gostaria de contar para sua avó (e meu pai e toda a família chorávamos muito como um rio sazonal que acorda de repente de sua secura anual) e não tive tempo."
Eram letras lindas que formavam palavras que não entendíamos: nuigo, rastléu, ponciaras, luzdalua... Me desculpem. Já não sei mais se minha memória falha, ou aqui invento o não visto da saudade, mas como disse minha querida Clarice, viver ultrapassa todo o entendimento.
Então, foi com o o coração ultrapassado pelas palavras que abraçamos o vô com sua igreja de palavras inventadas no amor. Abraçamos o vô em sua doce simplicidade. Era o seu ofertório, seu alfabeto traduzido no sem fim do amor.
Foi neste momento que se deu um fato extraordinário: minha bisavó apareceu bem ali na frente de todos. Era uma febre coletiva, insanidade do vô transmitida em suas hierarquias? E sorria como a palavra amanhecer. E seu sorriso emudeceu nossos olhos arregalados. Chegou como se sempre tivesse estado ali, tomou a mão do bisavô e, um por uma, foi recolhendo todas as palavras, todas aquelas letras sem nenhum nexo aparente e colocando dentro do seu velho balde. Depois saiu da "fábrica" e a procissão familiar a acompanhou até a sua horta. Ali ela pegou a enxadinha que continuava caída no mesmo lugar desde a sua partida. Com o mesmo carinho e desvelo de sempre, olhou para nós com um sorriso convidadito e começou a cavar pequenos buracos naquela terra úmida de nossas lágrimas felizes e plantar, uma após outra, aquelas letras e palavras. Sem ninguém dizer nada, soltamos estupefatos nossas mãos e cada um começou a repetir seu gesto inaugural de plantar palavras. Meu avô era um crente. Ele acreditava que as palavras possuíam o mágico poder de fazer ressuscitar. Mas ele nunca mais foi a igreja. Precisava?
Ainda hoje gosto de voltar lá e rever seu canteiro de fertilidades. Reza a lenda local, talvez iniciada pelo próprio bisavô, que daquela horta nasceu Guimarães Rosa, Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade...

7 comentários:

Michelle Nicié disse...

querido,
que belo! palavras-clarões!
meu vô Manoel também era de uma simplicidade imensa e também tinha uma oficina... era apaixonado pelo metal e pela madeira... adorava descobrir um jeito de consertar as coisas aparentemente inúteis ou descartáveis... adorava inventar...
a-d-o-r-e-i!
beijos
M

Adriana Guedes disse...

Eduardo,
meus olhos, sempre encharcados de mistério e poesia (porque não consigo ver de outra forma a vida), enxergaram neste seu lindo texto uma grande metáfora do que se passa na vida de uma criança na alfabetização. Seu biso, tal qual um menino, de amor ingênuo e sem comedimento, foge dos rituais (de qualquer um se fosse preciso, não só da igreja) para reinaugurar sua própria escrita, ainda que sem conhecimento grande, mas com a alma cheia de curiosidade e espanto. A fábrica de seu avô é um caderno de garranchos encantadores que se constroem, todo dia, em algum lugar, por alguém que deseja "ofertar seu alfabeto no sem fim do amor".
Que texto encantador, garoto!
Bj
Adriana.

virginia disse...

com certeza, esse texto me mostra uma linda declaração de amor, contagiante tb. só quem ama tanto e tanto é amada, pode entender tais significados. lindo texto, parabéns!! amei.
bjo gde,
vi

Anne disse...

Carlos Eduardo,

Eu estou ficando repetitiva :-) mas tua maneira de contar as histórias da tua vida, da tua infância é de uma leitura que flui, que nos envolve que faz com que parecemos estar lá. As imagens pipocam!!!

Lindo!

Beijos
Anne

Reflexo d Alma disse...

Eiii!
Passando pra conhecer teu espaço...
achando ja tudo lindo,
volto com calma.
Qualquer coisa meu blog esta as ordens...
bjins entre sonhos e delírios

Reflexo d Alma disse...

Respondi seu post
mas la no meu...
bjins

Camila disse...

Olá Carlos!
Nossa adorei teu texto...tudo muito detalhado...pude ver a cena através da sua maravilhosa descrição!

Abraços