domingo, 13 de setembro de 2009

Saudade


"Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida." Mia Couto - Antes de nascer o mundo. - Agradeço a iluminação deste livro a Adriana Guedes

Quando eu ainda pouco sabia da vida o meu avô se foi. Não era a primeira vez que ia. Já havia ido diversas vezes. Acho que nunca o alcancei. Ele estava sempre alguns passos na minha frente, quer por sabedoria ou conversa com os bichos. Meu avô era dado a conversar com plantas. Principalmente no alvorecer do dia em sua fazenda. Ele acordava os netos atirando caroços de milho pela janela. Só agora penso que éramos seus pintinhos. Mas era minha bisavó quem jogava as pepitas de ouro no terreiro e um árvoredo balançava treslocado a bicar o chão empoeirado. Meu avô chamava nos encantando com sua infinita sabedoria de homem simples, mais afeito a rolinhas do que a cabos elétricos para anunciar a chuva. Eu, de um pulo, iniciava a minha caminhada em direção ao curral para tirar leite de vaca. Meu avô conversava com com elas. Havia a Mimosa, a Malhada, a Laranja (mais bravia) e tantas outras com seus estrumes e olhos esbugalhados. Tenho certeza que elas respondiam. Desde cedo também aprendi a linguagem dos seres que não falam: begônias, lírios do campo, mariposas, lagartixas, tanajuras, joaninhas vermelhas com bolinhas pretas, sapos-martelo, caracóis de açude, grilos, goiaba com bicho (as brancas tem sempre mais do que as vermelhas), girinos, taioba, facão de cortar cana, laranja lima, tangerina (você pode principalmente conversar com as mexericas, são mais femininas, mexeriqueiras), pasto depois da chuva, abil, cajá e jamelão, ah, principalmente jamelão que põe nódoa roxa em roupa de toda criança. Eu criançava na linguagem com estes e muitos, infinitos outros seres iluminados pelas conversas do meu avô. À noite, os pirilampos eram estrelas cadentes, candentes que o meu avô mandava acender para iluminar o que não havia. O que havia era temor de fantasmas. Mas ele nos sossegava contando estórias ainda mais fantasmagóricas. No fundo da noite, todos os seres elementais aprumavam as garras em direção à minha cama. Encolhía-me embaixo dos lençois, fechava os olhos e pensava na bravura de meu avô que dizia já ter enfrentado ninho de vespas africanas. Zás! Elas voavam e ele as cortava ao meio com suas estórias encantadas. Era magia de encantamento de criança, vocês poderiam retorquir. A saudade avoenga ajuda a não inventar. Mentira, por verdade, como diz Rosa.
Ainda hoje, quando sinto saudade dele, entro na mata e fico ali por horas seguidas. Perdi um pouco da fluência de falar com os bichos e as plantas. Mas é como andar no escuro de olhos fechados, com a prática os descaminhos se encaminham. Por sorte, eles acabam lembrando de mim e logo puxam conversa atirando a solidão para a outra margem do rio. Assim, de mansinho como rio antes de temporal, meu avô aparece, encantado. Sei que de tudo ele fazia troça e ria alto da minha insciência de garoto, mas sempre tinha um ensinamento para cada galho retorcido da vida. Ele já me apareceu como um bem-te-vi, um curió, um trinca-ferro, uma mangueira (neste dia precisava de amparo e acolhimento: apareceu frondoso), uma névoa matinal, aliás, sobre isto ele sempre dizia: 'serração baixa, sol que racha'. Em seu mundo não havia fronteiras. Seu mundo era maior do que o universo. Talvez ainda maior do que o maior eucalipto que minha vista de criança alcançava. Deitava no chão de barriga para cima a espiar o infinto azul por entre os altos verdes. Foi meu avô que me ensinou a vida. Não-toda de uma vez, mas aos goles, entre uma ventania e um passeio a cavalo. Ensinou-me a amar as coisas simples do cotidiano. Só me esqueceu de dizer como é que estanco esta saudade.
"Porque ele tinha razão: o mundo termina quando já não somos capazes de o amar" (Mia Couto)

21 comentários:

Eugenia Ribas Vieira disse...

Carlos, tenho a mesma saudade do meu avô. Ele gostava de mar. Beijos, Eugenia.

Telma Miranda disse...

Um prazer ler seu texto e sentir saudade junto. Creio que não saber estancar saudades é uma virtude, pois conviver com elas é nossa sina e glória. E é preciso coragem de herói para caminhar os descaminhos ( ou descaminhar os caminhos) sem nenhuma promessa. Porque nunca se chega, só se vai.
Beijos.
Telma.

Silvia disse...

Que coisa mais telúrica, Carlos!
Também tenho muita saudade do meu avô materno que me colocava nos joelhos para juntos ouvirmos e cantarmos fados. São saudades assim que compensam o sentido da palavra. Ri, reli, treli e a cada vez nova imagem se forma no palco da minha saudade.
Beijo, Silvia

Carlos Eduardo Leal disse...

Eugênia,
O mar costuma não ter fronteiras, assim como a saudades avoengas,
bj

cristinasiqueira disse...

e depois desta poética-menino de avô e jamelão.e depois de Mia Couto.
Daí ,só para você ver como é lindo:"Sei que de tudo ele fazia troça e ria alto da minha insciência de garoto, mas sempre tinha um ensinamento para cada galho retorcido da vida."
Adorei.Volte sempre lá no meu espaço,sempre benvindo.

Com carinho,

Cris

Carlos Eduardo Leal disse...

Coragem de escrever, me inscrever, me reescrever
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Este com. acima foi p/ Telma

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Os avós são nossos primeiros palcos da nossa vida, nosso colo, nosso solo, nossa terra onde nossos pés crescem raízes.
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Cristina,
Obrigado pela visita e sensíveis palavras. Claro que voltarei lá e seja sempre bem vinda por aqui tb
bj

Adriana Guedes disse...

"Quem nessa vida nunca teve uma saudade que amargou que nem jiló?"
A minha endereço a meu pai. Meu quase-tudo. A de minha mãe ainda não se fez. Já morreu, mas ainda está por aqui.
Linda saudade a sua, Eduardo!
Abraço,
Adriana.

Cynthia disse...

Eduardo,
Muito lindo... Obrigada!

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
Nossas genealogias também são as saudades por contar, sentir e reviver.
Mais uma vez, obrigado,
Bjs
Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Cynthia,
Eu é que te agradeço sua leitura. Bjs e volte sempre,
Eduardo

Renata Vilanova disse...

Nossa, como o texto desliza! Me vi menina de mãos dadas com meu vô. Lembrei-me de Bartolomeu Campos de Queirós não sei bem porquê. É uma leitura linda de uma infância adocicada, cheia de caroços de milho, e detalhes em flor, e releituras em refúgios, e... Senti muito. Obrigada...

SHE disse...

Un escrito con nostalgia y verdad.Encantada de leerlo.Gracias

Carlos Eduardo Leal disse...

Renata,
O Bartolomeu Campos de Queirós foi-me recentemente apresentado e, desde então, me debruço sobre seus textos como uma criança diante de uma iguana.

Carlos Eduardo Leal disse...

SHE,
Obrigado pela sua leitura. Encantado também por recebê-la aqui no blog, aqui no Brasil, volte sempre,

Michelle Nicié disse...

Oi Cel, adorei o texto.
Ensinar a amar as coisas simples do cotidiano é uma dádiva que alguns vôs conseguem e quando a química da certo a gente sabe da dimensão da saudade e do amor.
M(já)com saudades,rs

Carlos Eduardo Leal disse...

Olá Michelle,
Que bom que vc já chegou aí em Paris, mas vejo que ainda mantém um pé por aqui:)) Apareça sempre. Dê notícias de sua pesquisa. Sorte aí e beba bons vinhos nacionais! Isto também é simples e cotidiano: Montmartre, Palais Royal, Louvre, Sena, Tour Eiffel, tudo coisas simpleszinhas como Nikiti.rs

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo
Demorei mas cheguei... Eu tinha 2 vôs tão diferentes um do outro! Mas os 2 me ensinaram a vida, cada um a sua maneira. Mas o esteio da minha família foi minha vó materna, baixinha mas com um sentido de família ímpar. Saudades deles...

Beijos

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Creio que é o "sentido de família" a grande herança que possamos receber de nossos antepassados.
bjs