sexta-feira, 11 de setembro de 2009

RefleXos da Bienal


Vésper

A estrela da tarde está
madura
e sem nenhum perfume.

A estrela da tarde é
infecunda
e altíssima:

depois dela só há
o silêncio.

Orides Fontela



Xeguei agora da Bienal. Aliás, xegamos. Eu e minha filha (grande companheira das letras, desde que elas ainda eram letrinhas para ela, que seus olhinhos já faiscavam com os livros). De dois em dois anos fazemos nossa incursão ao mundo sagrado dos livros. É claro que a FLIP é muito mais xarmosa, mas também não queiram comparar aquele discreto xarme de Paraty, com aquele mostrengo do Riocentro. Fui, entre outras, para conferir se meu livro estava lá. Estava, e o stand da Rocco, uma lindeza. Lindeza também foi ver milhares, incontáveis crianças de escolas públicas, sorrindo com seus dentes ainda na muda, que invadiam as extantes dos livros. Crianças vindas de ônibus dos lugares mais distantes do Rio. É muito bom esta iniciativa das excolas, das excolas, excolas...peraí! Tá acontecendo algo de errado!!!
De repente, eu e minha filha ouvimos uma gritaria que jamais havíamos ouvido em nossas Bienais. Era uma verdadeira histeria coletiva. Já havíamos comprado tudo, ou quase tudo, que queríamos. Devía ser umas duas horas da tarde. Havíamos chegado assim que os portões se abriram nexta sexta-feira, 11 de setembro. Logo me veio um frio na barriga. Pensei nos ataques às torres gêmeas, mas me lembrei que estava no Brasil. Pensei ainda na época da ditadura, eu que estivera ali no Riocentro na festa do primeiro de maio, um ano antes de explodir a bomba no colo do sargento do exército. E me tranquilizei pela democracia, enfim instaurada em nosso país. Mas o tumulto e a correria só aumentava e, curiosos, rumamos para descobrir o que acontecia em nosso pavilhão, Setor Verde, eu que estava comprando uns livros maravilhosos na Cosac & Naify. E, assim que comecei a caminhar, lembrei que poderia ser um(a) grande escritor(a) xegando e fiquei imaginado quem seria: Luís Fernando Veríssimo, Mia Couto, Nélida Piñon, Ziraldo...sim, só poderia ser ele com seu Menino Maluquinho a tiracolo. Afinal, as crianças adoram ler suas histórias infantis. Lembro de ter pensado ainda por causa do frisson causado, que poderia ser a Clarice Lispector, Fernando Pessoa, Machado de Assis, não sei, qualquer um destes reencarnados, ali, vivinhos da Silva. Não conseguíamos chegar mais perto, então reuní todas as minhas forças e perguntei a um dos organizadores: quem é o escritor? E a resposta veio como uma bala de prata que acerta em cheio o coração deste vampiro dos livros. - É a Xuxa!
Olhei para minha filha, ela para mim e, sem dizermos mais uma palavra, compreendemos que a nossa visita à Bienal havia chegado ao fim. Olhei para os livros, e eles despencavam atônitos das prateleiras. Alguns se suicidavam das estantes mais altas. Outros, já ao rés do chão, rasgavam-se todos como se rasgam para o lixo os extratos bancários. Vi muitos outros livros. Suas capas ficando vermelhas, coradas de vergonha. Ninguém mais os olhava e todas aquelas crianças, agora diferentemente enfeitiçadas, tinham os olhos voltados em outra direção. Mesmo assim, ou, talvez por isso mesmo, eles, em suas capas duras ou ricas brochuras se envergonhavam de sua parca condição, pois sabiam que mais uma vez a televisão havia roubado seus futuros leitores.

Ps: 1)Há algum tempo eu queria comprar a obra completa de Orides Fontela. (Orides Fontela, Poesia Reunida /1969-1996/ Cosacnaify,2006). Lembro de uma reportagem que a Folha de São Paulo fez com ela. Encontraram-na pobre, muito pobre, morando num apartamento minúsculo, deplorável, na periferia de São Paulo. Estava esquecida pela família, os amigos... Mas Orides não esquecia a força de sua poesia: densa, algumas vezes seca, noutras lírica, com brilho forte, vivace, contundente, rascante como um vinho de uma uva esquecida. "Onde a fonte?" Ela se pergunta. "Secas mãos conchas/plasmam-se/receptivos leitos/a seu fluxo/ Vasos aguardam pacientes. Onde a fonte? Na sede um frescor nasciturno/se acentua." Ela possuía a sede de todos os poetas. Sua alma queria o encontro inexorável com a verdade sem reticências. Sua vida interrompida, calou-se em 1996. Definitiva. A 'teia' poética de Orides tinha sua essência em seus jogos de espelhos, imagens em reflexos que jamais se apagarão com o tempo. "Sob a língua/palavras beijos alimentos/ alimentos beijos palavras. O saber que a boca prova/ O sabor mortal da palavra." Tornou-se, assim, imortal. Em nós durará sua infinita verdade através de sua palavra-poesia: "A um passo de meu próprio espírito/ A um passo impossível de Deus. / Atenta ao real: aqui. /Aqui aconteço."

Ps:2) No dia seguinte...Leio hoje nos jornais que Xuxa foi visitar o Pedro Bandeira que está tendo o seu livro "O mistério de feiurinha"(orientei uma monografia de fim de curso de psicologia que estudava este ótimo livro, sob a ótica do narcisismo) adaptado por Tizuka Yamazaki para o cinema com Sasha, sua filha, no papel principal.
Ontem tive o prazer de presenciar a Thalita Rebouças ("Fála sério", Rocco) autografando (beijando) para uma fila enorme e eufórica de adolescentes.
Leio também hoje uma pesquisa inédita de que 47% dos cariocas não têm o hábito de ler livros. Talvez, se fizerem esta pesquisa no Brasil, o ídice seja até maior. É uma pena e há vários fatores que concorrem para isso. (A pesquisa está hoje, sábado, 12/09, no caderno Prosa e Verso/ O Globo). Isto apenas comprova a minha tese de ontem de que a televisão possui um apelo de sedução irresistível (um amigo recentemente me disse que preferia não perder tempo com livros e ver tudo mastigado na tv - pensei de imediato, mas que vida fast food! Sem gosto de nada!) num país onde não há o menor apoio governamental para saúde ou a educação. Vivemos num mundo onde o que importa é a informação e não a formação (esta foi a minha fala como patrono numa turma de formandos em psicologia há duas semanas). Estamos num tempo onde parecer ser é melhor do que ser. Um mundo fake? A supremacia dos objetos em detrimento dos sujeitos é o que constatamos em nosso dia a dia. Resgatar a palavra com suas infinitas significações, seus deslizamentos metonímicos, suas nuances metafóricas, suas alegorias, seus mistérios e levá-las ao público é ofício de todos nós escritores. Assim fazendo nesta luta diária, poderemos abrir portais do pensamento, fronteiras da alienação e pensar novos rumos da leitura e da educação para nossas crianças, ávidas por um mundo melhor.

3 comentários:

Telma Miranda disse...

Estrelas e silêncio são muito Orides. Silêncio na pedra, na rosa, na eternidade. E a nuvem?

"Asa sem
pássaro
se vai ou
vem
se vem ou
vai
quem
sabe?
Leve vazia branca

A flor do
céu. A forma
do silêncio"

Vc sabe que a minha poeta favorita é Marly de Oliveira, mas façamos um brinde à Orides.
"Na rosa basta o ser:
nele tudo descansa."

Telma Miranda

Valéria disse...

Carlos Eduardo,

Adorei este "post" e os outros. A palavra está perdendo sua força - poucas pessoas escutam - podemos até usar as palavras - mas alguem tem que escutá-las para dar sentido. E quem escuta hoje em dia? Estamos tão preocupados com o jeito "fast-food" de se viver, onde a virtude está naqueles que conseguem "multi-task" - comer, escutar música, responder e-mails e quem sabe até falar ao telefone ao mesmo tempo....isso é legal, o resto é careta....e onde ficam aqueles que gostam de ouvir e ver a pessoa falando - que prestam a atenção...? Será que a educação vai dar conta disso? Sei não, isso depende dessa nova geração de educadores em formação...eles estão lendo? Eles estão escutando? Espero que sim.
Um abraço,
Valéria (ex-aluna sua na FAMATh)

marta orofino disse...

por favor, podes me indicar esta monografia sobre o livro de Pedro Bandeira? quero trabalhar este tema, a partir da ótica psicanalítica, no curso de literatura brasileira.
obrigada