segunda-feira, 28 de setembro de 2009

A gravidez de Maria

A gravidez Mateus Lopes


Maria era uma boa moça, simples e esvoaçante como aquelas areias escaldantes que a circunvizinhavam. No seu tempo ainda não havia esta classificação das vaidades que hoje reina no mundo entre quem faz escova progressiva, lipo, quem usa metacrilex ou botox. No seu tempo as coisas eram mais simples deste ponto de vista, mas não das questões humanas. Estas atribulações em tempo algum foram simples. O problema do coração humano sempre em conflito consigo mesmo vem antes de S. Freud ou W. Faulkner, Sófocles ou W. Shakespeare. Mas, retorno a Maria e sua simplicidade espartana. Vivia para seu marido que fazia um biscate aqui outro ali. Consertava caibros de telhados, fazia bancos de madeira e mesas para caberem até doze pessoas. Fazia estes e outros serviços como ninguém mais no mundo. E havia o céu por testemunha. Os raios e os trovões, que nesta época eram muito mais próximos, davam esta certeza inabalável. E o mundo se regozijava por ser apenas assim.
Maria a tudo olhava e admirava embevecida ao seu marido. Batia a roupa suja na beirada de um poço a uns duzentos metros de sua humilde casinha. Naquela época, todos se ajudavam de pouco a pouco. Quem tinha pouco distribuía o muito que tinha. Quem não tinha nada não ficava de braços cruzados. Embora se soubesse que desde os tempos imemoriais, a condição de pedinte têm sido uma das condições mais humanas de que temos notícias.
Maria, como já disse, também pouco pedia e muito se esforçava nos seus afazeres sem vaidade. Mas, eis que um dia se descobre grávida e a gravidez iluminou sua vida como nunca havia acontecido antes. Como mãe, passou a reparar mais em seu próprio corpo. Passava em sua barriga óleo de amêndoas e tâmaras com mel para proteger-se e cultivar o crescimento daquele ser-por-vir. E a cada dia sua barriga aumentava e, foi assim, que um sentimento estranho passou a ocupar todo o pensamento de Maria. Estava, finalmente, ficando vaidosa. E fazia questão de segurar a barriga com as duas mãos enquanto caminhava por entre as casas. Segurava seu tesouro. Segurava, por assim dizer, a si mesma. Mas não se segurava de contentamento. E, isto, não fazia questão alguma de esconder. Sua gravidez era assunto entre todos tamanha a alegria que passou a tomar conta daquela mãe-mulher. Outrora simples, agora se achava a pessoa mais importante do mundo. Tão importante que resolveu ser importante só para si. Como assim? Explico: como aquela sensação lhe era única e esfuziante, resolveu que deixaria a barriga crescer indefinidamente. E o que antes era uma sensação espetacular, passou a ser um escândalo porque mais de um ano se passara, sua barriga não parava de crescer e ela dizia que não queria tirar o neném para o mundo. Tinha um mau pressentimento em relação ao seu filho. Queria protegê-lo. Mas sua barriga aumentava a cada dia. Dentro da casa já não entrava mais. Aliás, já não cabia em lugar algum. Tiveram que construir um galpão - seu marido foi um dos principais mentores deste projeto, pois queria abrigá-la - que em pouco tempo também ficou pequeno para abrigar aquela colossal barriga que agora já transbordava para cima das montanhas.
Dizem, lá por aquelas bandas, que sua barriga cresce até hoje e que por isso seu filho ainda não pôde vir ao mundo.
Ela disse que a criança se chamaria Jesus.



JOSÉ

Olhos cobertos de lágrimas

ombros curvos/contrito

asfixiado,

mãos atadas

pelo destino

que era, é e será.

Pouco a fazer

pelo filho

ali exposto

quase nu

ensanguentado

mãos perfuradas

olhos ao céu,

arregalados;

‘Pai, por que me abandonaste?’

gritava o filho,

condenado.

E ele,

José,

ali, ali para sempre,

perguntava

porque seu filho

não o fitava.

Por que não era ele?

Por que não era?

Por que não?

Carpinteiro,

lançou

último olhar

para a lasca

de vida

pendurada.

O filho em cruz,

suspenso no ar

e o pai,

ínfimo na terra,

sem entender

porque o filho

agiu, agia e agirá

deste modo.

Por dentro,

o pai gritava

silencioso:

filho, por que me abandonaste?

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8 comentários:

Adriana Guedes disse...

Adoro o fino abandono de José. Lindíssimo poema!
Bj
Adriana.

Vinícius de Oliveira disse...

"Casar com Deborah ou com Sarah
Meu bom José você podia
E nada disso acontecia
Mas você foi amar Maria
(...)
Me lembro as vezes de você
Meu bom José meu pobre amigo
Que desta vida só queria
Ser feliz com sua Maria"
José (Joseph) - Composição: G. Moustaki / Versão: Nara Leão

SHE disse...

Hola, gracias por visitar mi blog, el tuyo es sumamente interesante ,comenzando por este escrito.

Un gusto conocerte.

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
José para mim é o protótipo do pai moderno, o pai decaído em sua função. E quem vai salvá-lo?
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Vinicius,
Acho que o problema de José, e ele é um de nós, não é com a escolha de Maria, mas o que vai fazer desta relação depois,
Abraços,

Carlos Eduardo Leal disse...

She,
Seja sempre bem vinda aqui no Veredas, esta parte tão pequenina deste nosso imenso Brasil. Sinta-se acolhida,
Abraços,

Kaligia Cristina disse...

Lágrimas em meus olhos... Quem são os "Josés" de hj?

Carlos Eduardo Leal disse...

K. Cristina,
Os Josés talvez sejam um pouco de cada um de nós,
bjs