quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O prisioneiro

Cândido era cego de nascença e estava preso há muito tempo. Esquecera do mundo lá fora. Esquecera dos amigos, dos parentes e a recíproca era silenciosamente respeitosa e verdadeira. Um mundo opaco, sem ecos e sem álgebras. Sua linguagem não passava de algaravias: palavras entortadas pela falta de ventos contínuos e razão desfeita pelo azedume das sobras das carnes.
Os filhos ficaram de resto. Deus parecia estar cego para quele homem luzidio. Já não sabia se era pardo ou desbotado por viver encostado por entre as sombras. Recusava-se a sair para os banhos de sol. Deram-lhe a noite por opção, mas só deixava sua cela em noites de tempestade. Esperava por um raio divino, consolatório. Esperava. E a espera não o fazia sofrer menos.
Já não sabiam mais qual havia sido a sua pena.
Um dia, seu caçula, Cândido Benício Filho, veio visitar-lhe. A candura de seu pai, afeito à vida pelo nome de batismo, delineava um bom filho. Benício era só o acréscimo do bem ao seu redor, sua genealogia sem desterros, por assim dizer.
Então o velho carcereiro, tão idoso quanto seu pai, tão trancafiado pela vida quanto Cândido, perguntou-lhe se sabia qual era pena de seu pai. O guarda-vidas era entendedor de seus silêncios e aprendera ao longo de anos de guarda que os silêncios de Cândido eram sua fuga para a saudade.
Entendia os silêncios de Cândido, mas era impossível lembrar-se dos motivos de tão longa prisão.
Foi então que, com os olhos inundados d'água, Cândido Benício Filho, tão cego de nascença quanto seu amado pai, revelou-lhe a inexplicável sentença do hediondo crime paterno: "papai diz que consegue ouvir a cor azul".

6 comentários:

Renata Vilanova disse...

...fui... ao infinito... obrigada. bjs. renata

MaRi_aNa disse...

o seu prisioneiro me lembrou 2 coisas. o pai do personagem principal d'o ultimo voo do flamingo' de mia couto e 'o astronauta' de vinicius de moraes. lindo texto! bjo mari

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo
Texto interessante de trabalhar na aula... :-)

Preso talvez a uma inércia que o barra de viver... Não sei, triste é estar preso de qualquer jeito - a si mesmo, a uma ideia, a uma pessoa...

Quando li a última frase, em seguida me veio a mente o mar, sua energia, seu cheiro... Pra mim o mar me faz bem, mas o mar é traiçoeiro! Nada é só de fora pra dentro - nosso interior é um balaio de mistérios!!!

Beijos livres :-)

Adriana Guedes disse...

"Ouvir a cor azul" é uma sinestia linda!
Inspiradíssimo pelo Mia, heim?
Bj

Renata Vilanova disse...

oi, mais um apontamento:
na minha interpretação, não consideraria a cegueira física do prisioneiro como a cegueira real, mas sim a cegueira ao assumir que o que "via" (ouvia) de fato não existia e então o recolhimento do seu eu na vida dos outros, e não na sua crença - o que gera apatia. o azul a mim me lembra o filme imensidão azul, e o mar como já mencionado, quando o mergulhador opta por assim ficar no fundo do mar, assumindo sua loucura, sua capacidade de respirar como golfinhos, será? ele não aceitou a prisão e foi. não sei se se quebrou nos mares sem fim, ou no mar morto... também pensei: como todas as cores são ondas, porque não capturá-las em forma de som? sinestesia como foi delicadamente dito acima, e amplidão, arrebatamento.

até.

Adriana Guedes disse...

Corrigindo: sinestia não, sinestesia!
Bj
Adriana.