sábado, 25 de abril de 2009

Voo às cegas


Não sei muito sobre borboletas, mas sempre gostei muito delas. Seus ocelos, sua regrada simetria, suas combinações de cores inusitadas destas que se a gente fosse pintar num quadro ficaria horrível como destes pobres quadros de churrascaria de estrada. Mas existem aquelas de uma única cor. Pois foi uma destas que me interpelou hoje de manhã enquanto eu caminhava por entre matos, sombras, raios de sol e no a posteriori da chuva torrencial de ontem que lavou a enorme pedra com gravatás e tufos intocados da saudosa mata atlântica. 
Então, borboleteando seu amarelo-quase-limão, ela me interpelou como se me perguntasse por que eu por ali passava. Resposta não tive, antes, reverenciamento ou encantamento com este diálogo improvável. Logo surgiram outras, era um transvoo de borboletas todas da mesma espécie-não-sei-o-quê. Amarelas-limão. Quis responder que estava só de passagem como em outras manhãs em que acordo cedinho e vou deambular pelas matas. Quis respoder, mas já não sabia mais a qual responder porque agora todas em coro me perguntavam por que eu não voava? Esta resposta que a princípio me pareceu fácil de responder, pois eu poderia recorrer ao peso dos corpos, à insustentável leveza do ser, ao peso do ar, à aceleração da gravidade com seu g=9,8m/s2, acabei achando ridícula a minha tentativa cientificista de conversar com seres que me pareciam tão elementais como as fadinhas de Peter Pan. Elas voavam rápido num voo que apenas parecia às cegas. 
Vocês já repararam o voo sem a mínima uniformidade ou direção de uma borboleta? Mas, não se enganem, pois elas sabem o pólem que procuram. São apenas visualmente destrambelhadas e estabanadas. Em aparência são como aquelas pessoas que vivem esbarrando em tudo, tudo quebram. São um perigo para os copos e as cristaleiras da casa das avós. Só em aparência, porque uma borboleta está muito mais propensa a ter sua asa quebrada do que a quebrar algo ao seu redor.  
Às vezes não agimos assim como as borboletas? Voamos em nossas vidas meio que às cegas, deambulando feito um paciente pós-operado pelos corredores de um hospital que vai tristemente levando o soro enquanto caminha, caminha, caminha.
Quis mais uma vez responder àquela borboleta que me interrogava. Fiquei sem saber que resposta dar-lhe, mas eu também não sabia sua pergunta. Agora talvez eu saiba o que me impressionou naquele voo. Ela não me interrogava, ela me ignorava. Era eu que queria saber um pouco mais sobre seu mundo. Eu é que queria achar a palavra certa para descrever aquele encontro e não achei. As palavras, tal como a borboleta, voaram de mim. Talvez, aparentemente, sem um rumo certo. 
Os pólens das palavras são os leitores. Através deles as palavras proliferam outros escritores que procuram novos pólens. Esta sequência também a mim me parece nesta manhã, tal como daquela borboleta que me encontrou se eu não a olhasse.  

4 comentários:

Ana Paula Gomes disse...

Saiba que vc foi uma das borboletas mais importantes em minha vida. Primeiro na escrita do inconsciente, e agora no amor pela literatura. Qual a sua cor? Acho que essa pergunta se aplica mais a vc, pois voar vc já o faz ha muito tempo.

Michelle Nicié disse...

De fato, as palavras voam com as asas da borboleta num encontro fugaz...
"Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move, o perfume é que tem perfume no perfume da flor. A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor".
Fernando Pessoa/Alberto Caeiro

Adriana Guedes disse...

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

Mario Quintana (Caderno H)

Eduardo, quando li seu texto lembrei-me do Quintana. Acho que a literatura nos leva mesmo a esse estado de perda, de temas que vão se chamando e se percebendo afins, conclamando outros a perquirir novos caminhos. Para uns bem cedinho, para outros um pouco mais tarde.Há aqueles ainda que nunca serão encontrados. Lembrei-me tb que olhar para uma borboleta é estar de frente para a transformação, para a espera, para a mudança.
Adorei seu jardim.
Abraço, Adriana.

Carlos Eduardo Leal disse...

Inconsciente, Pessoa, Quintana...
Freud dizia que a interpretação tem que ser precisa como o salto do leão sobre uma presa. A cor que vai se desvelando de um escritor, sua poesia ou sua sensibilidade, também possuem uma hora H. Tenho percebido através dos olhos e das palavras das pessoas que me leem que esta transformação - como diz Adriana, ou esta cor, segundo Ana Paula -, que chega uma hora na vida em que você é tomado de uma tal forma pelas palavras que você não sabe mais o que é você ou o que são as suas palavras, como neste "estado de perda" (Lacan teria dito "pura perda", é o objeto a, como um resto inesgotável e que é causa de desejo), mas tem sido por onde tenho me (re)encontrado.
São os bons leitores que também fazem um escritor.
Bjs e obrigado pelos comentários. Continuem escrevendo para que este círculo proposto pelo Alberto Manguel entre leitor/escritor/novos leitores não se interrompa!