sábado, 18 de abril de 2009

Algumas curvas sobre a paixão

Velho Lendo a Bíblia

Alfredo se apaixonou sem saber o que era  paixão, ou pior, não sabia o que lhe esperava. Foi numa tarde qualquer de um sábado friorento que ele havia dado por perdido. Nenhum filme bom passando (ele que era um cinéfilo de carteirinha), a maioria dos amigos viajando, ou seja, Alfredo estava à mercê do único programa que lhe cabia. Entrar na sua livraria preferida, fuçar novos títulos e tomar um capuccino. Mas a vida, sempre ela, está atenta aos desavisados da vida. Digo que parece que a vida espreita os incautos, pois quando eles estão totalmente distraídos advém um golpe de ar fatal na nuca, ou o salto do leão sobre a presa, como diria Freud. 
Pois bem, Alfredo estava a menos de cinquenta passos da sua livraria na zona sul do Rio (já quase podia sentir o cheiro dos livros implorando para serem desvirginados) quando escutou uma senhora que já ia lá pelos seus oitenta com ar muito distinto pedir-lhe um inusitado favor: "Meu filho, você poderia me levar até Teresópolis"? Alfredo olhou incrédulo para aquela senhora que amavelmente lhe segurava pelo braço e o olhava profundamente dentro dos seus olhos. Sem se intimidar ou dar-se por vencida ela reafirmou o seu pedido. "Você poderia me levar até Teresópolis"? Alfredo, ainda estupefato, não sabia se ria ou se soltava o braço daquelas mãos trêmulas, mas cheias de decisão. Quis argumentar, mas nenhuma palavra um pouco mais sincera conseguiu sair da sua boca. Sem se importar com as tentativas de argumentação do Alfredo, ela continuou. "Meu filho, todo sábado de manhã eu vou para minha casa de campo em Teresópolis e nesta semana minha neta foi viajar e esqueceu de comprar as minhas passagens. Você me faria este favor?" Alfredo aproveitou a deixa para dizer que era longe, que ele estava atrasado para um encontro, mas diante do silêncio contundente daquela idosa senhora que parecia ter 'os olhos pedintes por profissão', como diria Alberto Caieiro. "Eu te sirvo um café coado em coador de pano quando chegarmos na minha casa." Alfredo se perguntou se ele próprio era confiável. Fez esta pergunta silenciosa por aquela ilustre desconhecida. Como que uma senhora aborda um transeunte na rua e lhe pede uma carona para um local tão distante? Alfredo pensou em avisá-la do perigo de fazer isso, quis avisá-la de um montão de coisas como se ela fosse sua própria mãe. Quis, mas ao invés disso, quando ele deu por si, estavam os dois dentro do seu carro já na Linha Vermelha em direção à serra. 
Foi quando ele resolveu perguntar o nome daquela simpática senhora. "Teresa. Imperatriz Dona Teresa Cristina, mulher do Imperador D. Pedro II." Alfredo soltou uma enorme gargalhada que ecoou por todo seu sábado. E, com certa ironia, fez uma voz reverenciosa. Então a senhora não deveria ter me pedido, a senhora deveria ter me ordenado como se faz a um vassalo. Teresa deu de ombros e continuou. "Sou tataraneta da Imperatriz." Verdade ou mentira, Alfredo respirou aliviado, pois pensou estar dando carona para uma louca. Mas o que ele ouviu a partir daí foi uma das mais belas histórias de amor de sua vida. Teresa, muito jovem foi amante de um jovem médico da cidade. "Naquela época", ela disse, "eu era muito mocinha, devia ter uns dezesseis ou dezessete anos. Pegava meu cavalo e íamos nos encontrar numa cabana no interior do Parque Nacional. Naquele tempo as coisas eram mais difíceis, mas nos apaixonamos perdidamente um pelo outro. Fui sua amante durante toda minha vida. É claro que casei e tive filhos, mas uma força maior do que todas as leis e regras nos empuxava um para o outro e nunca conseguimos nos separar. Ele também se casou, teve seus filhos, mas permanecemos para sempre juntos. 
Alfredo contou que coincidentemente nascera em Teresópolis e também era filho de um médico da cidade. Seu pai já estava bastante velho e seria bom deixá-la lá, pois depois do capuccino prometido, iria visitar seu pai. Na verdade foi essa ideia que o convenceu a dar a carona àquela ilustre desconhecida. Mas a forma com que ela lhe dirigia o olhar era de uma ternura tão grande que mesmo que ele não tivesse parentes lá em Teresópolis, ele a teria levado. Era como se ela o conhecesse a vida inteira. Agora ele tinha certeza disso. E quanto mais certeza ele tinha, mais ela contava episódios de um amor apaixonado que muitas vividas vividas não seriam capaz de chegar próximo daquele fogo irresistível entre os dois. Seriam necessárias várias vidas apaixonadas, vários filmes românticos, inúmeros livros com o melhor da literatura romântica para recontar aquela história. Alfredo ia devagar querendo ouvir toda a história de Teresa. 
Chegaram diante de um casarão no Quebra-Frascos, um bairro charmoso na saída da cidade em direção à Itaipava. 
Alfredo parou seu carro diante do portão. Desceram, ela segurou mais uma vez fime no seu braço, tal como na calçada quase diante da livraria há duas horas atrás. Era um enorme portão de madeira verde com puxadores de ferro preto. Ele a ajudou a empurrar e fechar com dificuldade o pesado portão que deveria ter a idade dela. Avançaram por uma alameda ajardinada com ciprestes, alfazemas e hortências até alcançarem a porta que dava para um salão de inverno onde havia um velho senhor lendo um livro. Alfredo um pouco impaciente disse-lhe antes de entrarem: "Não pensei que o seu marido estava em casa. Não vou incomodá-lo? Já lhe trouxe até aqui." "Não," retrucou ela com firmeza, "fui eu quem o trouxe até aqui."
Quando Alfredo entrou na sala e se deparou com aquele senhor lendo tranquilamente o livro, seus olhos arregalaram úmidos de espanto e, incrédulo, apenas conseguiu balbuciar uma única palavra: Pai!? 

2 comentários:

Patricia disse...

O maravilhoso do amor é que somos sempre surpreendidos por ele. Às vezes ele chega em doses homeopáticas, sorrateiramente, em outras vezes nos toma com tal ímpeto que nos tira o Norte .
Mas a nossa vida "moderna" de hoje, onde não há mais nada de artesanal, tudo é feito às pressas, onde os sabores não demoram em nós, não nos permite viver plenamente os amores ( ou somos nós que não nos permitimos e colocamos a culpa na vida ???? )...
Continue colocando doses de paixão em tudo o que vc faz ...
Bj.

Ana Carolina Nunes disse...

Amei pai. A imagem postada está em total sintonia com suas palavras. Acho que algum lugar aconchegante da serra te inspirou na descrição da alameda cheia de hortências...
Bjinhos