domingo, 5 de abril de 2009

Fantasmas

Toda cidade possui seus fantasmas. Alguns vivem em eterna neblina, lá aonde suas vistas não alcançam. Outros contemplam suas paisagens e se perdem nelas. Porém, há casos mais graves. São aqueles que não são vistos por ninguém: mendigos, analfabetos, desempregados, catadores de lixos e transeuntes anônimos. Ninguém os vê. Não são notados por nenhuma instituição pública e, mesmo a igreja, só os permite do lado de fora para arrecadarem um quota muito menor do que os polpudos dízimos. O dízimo é o sinal do arrependimento e da culpa, ou melhor, é uma forma moderna de holocausto e oferenda para agradar, receber proteção e aplacar a fúria dos deuses. Mas qual é a dívida que a cidade possui com os seus fantasmas? Parece que nenhuma, porque o incômodo que eles provocam é apenas um obstáculo à passagem na calçada, enquanto que o outro incômodo é um tormento na alma que requer solução/absolvição e contrita penitência. Por isso, se paga com dinheiro, sempre ele, nossa passagem entre as nuvens de neblina que nos cercam. Assim, não vemos estes fantasmas e continuamos incólumes diante do sofrimento ao nosso redor. É a nossa canhestra e torpe defesa contra o mal do outro. 
É preciso ter olhos de Clarice para ver um cego mascando chicletes que sorri olhando para 'ela' sentada no bonde, como no conto O amor. Sim, é preciso ter olhos de Clarice para ser um bobo no mundo porque 'só os bobos vencem sem perceber que venceram, ao contrário dos espertos que vencem com úlcera no estômago". "O bobo por não se preocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo . O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: 'Estou fazendo, estou pensando'". 
Devem existir muitos mendigos-clariceanos, bobos que nos olham com o desdém que uma criança parece nos olhar de baixo para cima perguntando o porquê da nossa pressa. 
Clarice enxergava estes fantasmas. Ela catava no meio da neblina as palavras caídas distraidamente ao chão. Estas que ninguém mais vê ou que por elas ninguém mais se interessa: palavras-poetas, palavras-nuvem, palavras-asilo, palavras-indiferença, palavras-paixão, palavras-palavras.  Catava-as e nos ofertava como quem faz uma oferenda. Ela transformava seus leitores em cúmplices, e, assim fazendo, nos salvava da nossa eterna miopia progressiva.   
Fazia isso como uma constatação do fato de ela também ser boba, porque "só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo." 

9 comentários:

Michelle Nicié disse...

Adorei o texto, lembrei das "Pessoas Invisíveis", graphic novel do Will Eisner.
Há uma frase da Clarice, acho que na Paixão segundo G.H. que diz: "Ver é a pura loucura do corpo". Acho que é isso.
beijos
M.

Paula Saraquine disse...

Bobo!!
Bj

Patricia disse...

Agora entendi porque sou tão boba...rssss.
Adorei! Bjs.

Elaine Pauvolid disse...

Maravilha de texto, Carlos Eduardo!

Michelle Nicié disse...

Querida Claudia,
adorei saber mais sobre a Lou (que também é Andreas), nome que me encanta deveras, rs...
Você sabe se existe alguma biografia dela?
Gostaria de ler. Quanto ao Goethe, me referia mais a estrutura da escrita por meio da carta, mas não resisti e acabei reproduzindo um fragmento do livro.
Beijos
Michelle
p.s. achei linda a foto da neblina!

Michelle Nicié disse...

Cláudia, obrigada pelas informações.
Encontrei o artigo da Luzilá no Google. Não sei se está completo, mas é de fato, muito interessante. Quanto às chuvas e neblinas também sou estranha, a-d-o-r-o dias assim. rs... bjs, Michelle

Carlos Eduardo Leal disse...

Bom, diante de tantas (milhares...rs) manifestações dos leitores, devo admitir: a foto é minha e, é claro, adoro neblina. E não é só porque sou bobo (rs), Paula, mas é porque a vida romântica pede um certo embaçamento para ter todo seu alumbramento.
Bjs gerais,
Carlos Eduardo

Adriana Guedes disse...

Eduardo,
eu diria que a vida romântica É uma neblina. Não podemos ver o outro em demasia, tampouco perdê-lo de vista. Há que haver (que palavra linda!) o embaraçamento...
Parabéns pelo texto tão lindo.
Adriana.

virginia disse...

sou muito boba mesmo!! :)
1000 bjus*