segunda-feira, 6 de abril de 2009

A emoção de ler um bom livro



Olhei na minha estante e me deparei com um livro que eu havia ganhado de presente há uns dois anos. Ele ficara ali como um resto de história para ser lido. O livro é um ser fantasticamente interessante. Dentro dele podem conter todas as lutas, as vitórias, as derrotas, os mais incríveis romances, as mais sórdidas traições, um suspense eletrizante ou apenas uma boa ficção a ser contada. Ele pode conter tudo de todo o canto da terra, mas se não abrirmos suas páginas ele ficará para nós como uma virgem sempre à espera de ser deflorada. Ou então, tudo não passará de um grande equívoco ou mal entendido. O autor pesquisou, criou, perdeu horas intermináveis de sono, teve insights nas horas mais inapropriadas, subverteu, imaginou, mas o leitor sem abrir um livro é como um cego que não sabe para que serve a sua bengala. Um livro pode muitas vezes nos livrar de alguns tropeços, ou pode nos fazer tropeçar na emoção engasgada, atravessada como um espinho que não desce. 
Pois foi isso que me aconteceu quando acabei de ler Les Fleurs de Beatrice Rouge (Éditions du Avant Garde, 2006) . É a história de Christine, uma menina que nasceu cega, mas que enxergava mais do que todos à sua volta. Ela nasceu no fin de siècle XIX entre Carcassone e Bordeaux, duas regiões campestres da França. A família materna tinha uma pequena fazenda pecuária em Carcassonne onde produziam queijos e, do lado da sua família paterna, seus avós trabalhavam para uma vinícola de um rico produtor da região. Ela foi criada entre queijos e vinhos. "Mas minha sensibilidade olfativa sempre esteve ligada às flores. Eu era capaz de distinguir uma madressilva (Lonicera) de um lirio a duas dezenas de metros. Sentia seus perfumes e me embriagava sonhando com suas cores. Daí para me transformar numa fabricante de perfumes  caseiros foi uma consequência normal como quem abre os olhos todas as manhãs." 
Ela mesma desenvolveu sua fórmula para os "pequenos frascos"(...)"para cada frasco, um novo mistério a desvendar. Era como se eu fabricasse um perfume para a alma de cada pessoa. Cada uma carregava dentro de si um tipo de sentimento que eu era obrigada a desvendá-lo para encontrar a fragância correspondente". 
Christine, ao longo de sua vida, irá encantando a todos com sua perfumada magia. Não só encantando, mas transformando a vida das pessoas daqueles pequenos vilarejos do interior da França. Disto vai resultar que o encontro de cada um consigo próprio irá desvelar inúmeras possibilidades de sentimentos jamais vivenciados por aquela gente simples, interiorana.
Um livro sobre o amor à vida. Um livro que nos revela que existem inúmeras formas de amar e que as transformações na verdade estão dentro de nós. É isto que Christine nos faz acreditar. Mas, será que ela mesmo acreditava? 
Ps: Como tenho recebido milhares de e-mails (talvez tenha sido apenas um, ou dois, não lembro mais, mas isso pouco importa agora.) de pessoas indignadas, chorosas, em completo desespero porque não conseguem achar e muito menos comprar o Les Fleurs, tenho que dizer sobre sua origem, sua etiologia, ou dizer simplesmente como ele me chegou nas mãos. Soube que ele pertenceu primeiro a Molloy, que o emprestou para Malone, que deu para Mahood e que, por fim, entregou para Montano. Estranhamente, todos com "M", inclusive o mal de Montano, este que é acometido de "estar doente de literatura". Pois foi ele que me deu seu único exemplar. Talvez eu esteja sofrendo do mesmo mal de Montano. Talvez, talvez precise encontrar Montano para desfazer esta sequência interminável. Eu que agora passo a sofrer deste mesmo mal. Talvez eu possa dar este livro a você. Tal como Borges, consegui meu livro de areia e preciso me desfazer dele...
   


Um comentário:

Adriana Guedes disse...

Acho que sim. Tenho certeza de que Christine acreditava nas múltiplas possibilidades de amar. Não se perfuma a vida de ninguém sem verdade, sem con-sentimento. O que mais comove neste livro, entretanto, é que a cegueira de Christine a liberta para seguir seu próprio caminho. Longe da produção de queijos e vinhos, ela produz sua história, envolvida em suas experiências e encharcada de sua personalidade libertadora e generosa.
Li esse livro, por acaso, mas dividir essa leitura hoje foi bom demais.
Bj
Adriana.