sábado, 25 de maio de 2013

Aula 7 - 25/05/2013 O feminino, o amor e o real em Clarice Lispector




Aula 7 - 25/05/2013

O feminino, o amor e o real em Clarice Lispector

"No entanto, na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que se achar? Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. E? também, também."

C.L. A Paixão Segundo G.H. p.17/18 (Francisco Alves Editora, 1990)

"No entanto, na infância as descobertas terão sido como num laboratório onde se acha o que se achar? Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna?"

Aqui entramos no misterioso e fascinante mundo infantil. Retorno necessário para um avanço definitivo? Freud acreditava que sim e Lacan o seguiu bem de perto.
O embate do sujeito com o mundo se apresenta muito cedo. Muito antes de este sujeito estar preparado ou ter as condições necessárias para re-pensar o mundo. A infância não dá muita chance ao retorno. É só quando a idade alcança o esquecimento que vem a vontade de voltar a ser criança. Quando pequenos, queremos sair daquele estágio (probatório?) e pensamos firmemente em como seria bom já termos 10, 15, 18, 21 anos.
É uma pena, mas a criança não se dá conta do que é a infância. E este atrapalhamento da fala em relação a linguagem que inaugura a vida, é o que precipita o pequeno ser em abismos que ele vai preferir recalcar no inconsciente do que viver o que ele mal sabe. Medo, vergonha, repugnância e luto são palavras freudianas (Cf: Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, 1905) para destacar o grau de desamparo (hilflösigkeit) da criança diante do mundo. Acrescento uma outra palavra bem cara aos filósofos: espanto. A criança espanta-se em regozijo e felicidade extrema com seus balbucios, suas tagarelices onomatopaicas, seus olhinhos descortinados diante do mundo. Não. Não são coisas enormes: são formigas em trilha, joaninhas, buraquinhos na tomada de luz, uma luz que brilha sobre o berço (sem nenhum misticismo, por favor. Era só o abajur mesmo.), enfim, uma infinidade de coisas que nossos olhos desacostumam com o passar do tempo. Quando vamos envelhecendo nossos olhos se embriagam de coisas grandiosas e infelizmente perdemos a capacidade de ver o que as crianças veem: o mundo com o espanto da descoberta do novo.
A infância da palavra (do Outro) muitas vezes vem traumatizar o sujeito, através de suas modulações e equívocos da linguagem e dubiedades que os significantes possuem.
Creio que se ninguém corrigisse uma criança ela se tornaria Guimarães Rosa. Mas estas são outras 'veredas'.
A criança é o sintoma de seu meio. Sintoma de seus pais.
É como criança que se finge ser Capitão Gancho, Cinderela, Peter Pan, Mônica, Cebolinha e finge também ter uma terceira perna.
Depois, por garantia ou por medo, fica-se inseguro de retirá-la porque no laboratório da vida "se acha o que se achar." O sintoma torna-se a garantia do sujeito diante do mundo. Seu passe, seu passaporte para atravessar fronteiras do desconhecido. Então, é através deste mancar, desta forma desconcertada, edipiana e deambulante de andar na vida que a criança vai percebendo a dimensão do Outro em sua ficção. A criança precisa ser forte quando ainda não o é. A criança precisa ter coragem quando ainda não a tem. Mas, mesmo assim, ela avança e rasga a cortina do passado. Deixa para trás o que ela quer esquecer (porque ela quer ser grande, não esqueçam) e depois os analistas vão se debatendo em fazer estes pequenos-grandes sujeitos rememorarem através de suas intervaladas reminiscências o paraíso perdido. Bem, não era tão paraíso assim e também não está tão perdido. Os trilhos da associação livre vão sendo abertos através das formações do inconsciente que insiste sobre o impossível de ser dito. Re-dizer o infantil. Este sim é o retorno em avanço.
A descoberta, a curiosidade sexual infantil não tem limites. Quem põe freios (ou não) são os adultos. Limites necessários...a castração por fim: condição de possibilidades.  
O gosto neurótico por se fazer perguntas também tem seu início na infância. São os porquês. Por que o sol cai no mar ou atrás daquela montanha? Por que eu nasci antes do meu irmão? Por que papai fecha a porta do quarto com a mamãe?
Por que eu criei a terceira perna? Pois as perguntas sobre o sentido da vida não param nunca: "Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna?"
Não se tenta responder indagações assim. Para estas questões o importante é a travessia da pergunta muito mais do que a resposta.

"Mas como adulto terei a coragem infantil de me perder? perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa."

A criança tem coragem ou simplesmente ainda não tem a noção do perigo? Andem para que lado for com esta pergunta, mas a questão é que não se possui todas as respostas e muito menos garantias para o fort-da, para o perder X se achar, ir embora X aparecer, presença X ausência do Outro em sua vida. Que garantia ter então quando a perna fraqueja? Criar a terceira. Responderia com satisfação G. H.
O paradoxo em questão, o conflito entre aquilo que é e o que deveria ser, está posto: "perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando. As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende."
Perder é a possibilidade de ganhar. Esta é a lógica da vida e mesmo a lógica do inconsciente. É como se o analista dissesse: 'você vai ganhar autonomia em seu bem-dizer com a condição de perder o medo de deixar de ser infantil.'
Alguns pensam que isto seria perder a criatividade. Muito pelo contrário. Tornamo-nos mais criativos quando não temos medo de experimentar nossa potencialidades. E o sujeito infantilizado é este que não quer andar na vida. "Eu quero ser presa."

"Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira? ou havia, e havia, aquela coisa latejando, a que eu estava tão habituada que pensava que latejar era ser uma pessoa. E? também, também."

Por acaso, a liberdade atrapalha? Ah, os excessos, os excessos. Quando se tem todos os caminhos para seguir fica-se atrapalhado e não se consegue prosseguir por nenhum. O homem se queixa quando possui infinitas variações para escolher. Mas também se queixa se só deram um caminho sem possibilidade de escolha. Poder escolher é uma das formas mais explícitas de liberdade. Aquele que não pode escolher está alienado no desejo do Outro. E espera, como todo prisioneiro, que este Outro o liberte. Ou neuroticamente fica planejando rotas de fuga, quando muitas vezes basta saber enfrentar a vida através da ética de seu desejo. Bem, não é de todo fácil, mas é um caminho através do qual o sujeito poderá se responsabilizar pelo que diz ou faz. Porque muitas vezes é mais cômodo ser prisioneiro, e não fazer nada, do que lutar pela sua liberdade e construir seu próprio caminho.
G.H. possui esta condição ética e, apesar dos pesares, e das suas gigantescas inquietações, não ceder diante do horror que sua fantasia infantil a aprisiona: a barata.

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