domingo, 20 de março de 2011

Pescaria


Meu avô havia saído para pescar. Gostava quando ele me levava, mas desta vez, por causa de uma indigestão noturna, acordei mais tarde. Da casa até o rio, não era mais que meia hora de caminhada por uma trilha mais do que conhecida, mesmo para um menino de seis anos. Rodeava-se por detrás da casa, descia uma pequena encosta de morro, até passar por um pasto, o curral e, logo depois vinha uma vereda por uma mata fechada onde os olhos dormiam ao rés do chão, pois quase não era possível vislumbrar o céu. Ali o dia era noite pela ausência quase absoluta de luz. Vaga-lumes insones aproveitavam aquele espaço para se confundirem com as estrelas que haviam se esquecido de partir.
Após um rápido café da manhã, peguei meu cajado de espantar ursos e lobos e, sem falar com ninguém, fui até a garagem (que também servia de depósito), peguei minha varinha de pescar e fui ter com meu avô.
O dia havia acordado assim como eu fui dormir: indisposto para azuis, sol e pássaros com asas secas. Mas, nem por isso, hesitei um minuto sequer sobre minha secreta missão. Seria a primeira vez que faria aquele trajeto sozinho.
Desci por trás da casa a picada morro abaixo e, neste trecho, senti os primeiros pingos trazidos pelo vento que varria como num redemoinho de baixo para cima. Acelerei como podia os passos na sensação de que se chegasse logo à mata fechada, as grossas folhas seriam meu guarda-chuva a me proteger do céu raivoso que agora zangava trovões.
A vereda pareceu-me bem mais escura do que de costume, mas avancei firme até que meus olhos se perderam de mim. E, imóvel, sentia que a chuva vinha grossa em todas as direções. Um pequeno riacho começou a se formar debaixo dos meus pés e, em segundos já era um rio maior que minha imaginação. A custo e a contragosto, mas por extrema necessidade, subi numa árvore que possibilitava meninos. Era um rio negro, quase não enxergável, que passava sombrio, ruidoso e caudaloso. Sem que me desse conta, o anzol da vara de pescar havia caído dentro do d'água. Só o soube quando senti um enorme puxão. E mais outro e outro ainda mais forte. Por instinto ensinado de avô, dei um puxão, mas o que ouvi foi um "ai", um grito molhado. Para me certificar do que tinha ouvido, dei outro puxão e, novamente, um grito, só que desta vez, ainda mais forte. Resolvi recolher e, para minha surpresa, havia um feixe palavras presas ao anzol. Eram palavras que ainda não conhecia. Recolhi-as com cuidado e, com maior zelo ainda, procurei como podia secá-las. Quando a chuva diminuiu e uma pequena claridade atravessou as folhagens é que pude ver melhor, na confusão daquelas letras, algumas palavras que se aninhavam no meu colo e sob minha camiseta encharcada.
E, com uma sensação e um sentimento que até então desconhecia, olhei com o coração espantado na alegria, para uma delicada e sensível palavra, única, que parecia sorrir para mim e a qual guardo em segredo até hoje dentro mim: Lívia.

4 comentários:

pEdrooo disse...

Nossa até me emocionei
muito bom mesmo meus parabens!!!

Michelle disse...

Caro CEL,
palavras se parecem com peixes de tão escorregadias, mas vc as recolhe com muito cuidado e sentimento em seus textos.
beijo!
M.

LuH disse...

(Suspiros!)

Conheço esse caminho e minha filha se chama Lívia
Que felicidade me encontrar por aqui!
Obrigada, Amigo!

Anne M. Moor disse...

Ahhhhhhhhhh Carlos Eduardo

Estou precisando duns feixes de palavras dessas aí...

Beijão
Anne