quarta-feira, 9 de março de 2011

A palavra enxertada


Quando era menino, gostava de inventar palavras. Com cuidado, porque ainda não sabia muito bem como fazê-lo. Seguia os passos do meu avô que inventava enxertos para as plantas. Dálias com dracenas. Tangerinas com laranjas. Manjericão com alecrim. Orégano com lascas de macarrão (os temperos já saíam com a dose certa). Ciprestes, ele enxertava com enfeites de Natal. Ele era um inventor de impossibilidades. Em sua magia, todas davam certo. Madeiras-de-lei com árvores transgressoras. Ele mesmo ria de suas invencionices. Eu achava graça, mas curioso, prestava muita atenção com a seriedade possível para um neto que via em seu avô a saída para a monotonia do mundo. Com afinco, portanto, seguia inventando novas palavras nascidas do enxerto de duas anteriores. Certo dia, por descuido infantil, desinventei uma palavra. Mas, para minha surpresa, ela possuía uma cor nunca vista, exuberante, que descortinavam meus olhos para as estrelas, um aroma das manhãs orvalhadas dos campos virgens e uma textura que não cabia em nenhuma gramatura de papel. Assim, foi tanta emoção, que acabei por abrir a mão e, feliz, com lágrimas nos olhos, pude vê-la voar suave num movimento espiralado em direção aos céus. Ainda hoje a reencontro sempre que olho apaixonado no brilho dos teus olhos.

23 comentários:

Michelle disse...

adorei o texto, inventor de impossibilidades, muito bonito isso.
beijos,
M.

Sonia disse...

Professor querido,
assim que recebo seus emails venho ler seus textos, sempre tão bonitos, bem construídos...
Espero que lembre de mim, são tantos alunos:
formei na Famth em dezembro/2010.
Muitas saudades, já, das suas aulas.
Beijo grande, Sonia Oliveira.

Adriana Rabelo disse...

Lendo o texto me lembrei de Manoel de Barros , também inventor de impossibilidades...
Seu texto traz a im/possibilidade de um novo olhar para as coisas...
beijos
Adrana Rabelo

Carlos Eduardo Leal disse...

Obrigado, Michelle por sua leitura sempre tão regada nas margens do sensível.
Bj

Carlos Eduardo Leal disse...

Sonia,
Claro que lembro e sei que você sempre está por aqui. Seja sempre bem-vinda.
abçs

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
Creio que uma vez que se conheça, torna-se impossível viver sem o Manoel de Barros.
Bjs
Ps: Por que não montar uma peça com seus textos?

pEdrooo disse...

Muito bom seu texto, meus parabens!!

Lara Amaral disse...

Belíssimo texto!

Abraço.

Carlos Eduardo Leal disse...

Pedro e Lara,
Obrigado pela leitura de vocês.
Abraços e voltem sempre.

Gisele Braga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Regina d'Ávila disse...

O que dizer?
Passei para conhecer
e me encantei.

Tiro meu chapéu....
E venho mais tarde para "bisbilhopassear" calmamente.
Super beijos,
Regina d'Ávila.

LuH disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
LuH disse...

Sempre encontro ternura aqui

O que transborda das suas retinas deixa um sopro de beleza, de delicadeza de SER humano, de gosto pela poesia da vida.

Quanto capricho!

Parabéns

VOZ DA PSICOLOGIA disse...

Palavras, temperos, saída para a monotonia do mundo...

Ótimo.

Carlos Eduardo Leal disse...

Regina,
Obrigado pela sua leitura,
Volte com suas palavras e seu olhar,
abraços

Carlos Eduardo Leal disse...

LuH,
Adorei seu comentário e o "sopro de beleza, delicadeza de SER humano",
abraços

Carlos Eduardo Leal disse...

Voz da psicologia,
É, você tem razão, as palavras são meus temperos,
abraços

Vivian C Vitorino disse...

Sempre que me sinto sufocada pelas tolices e futilidades do cotidiano, ou de algo que me abrande a sensação de vazio interior, as palavras contidas em seus textos são meu porto seguro. Obrigada.

Carlos Eduardo Leal disse...

Vivian,
Sinto-me honrado que algumas palavras (mas sei da importância das palavras) possam ser o teu porto seguro. Ancore sempre por aqui,
Obrigado pela sua leitura,
Abraços

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo

Palavras... elas abrem portas e porteiras para as possibilidades nénão? Adorei o texto!

beijos
Anne

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Obrigado pela possibilidade das suas chaves para as portas de minhas palavras,
Bj e que bom que você já voltou de férias!

Leonardo Villa-Forte disse...

Belo texto, Carlos, é um texto palpável, as palavras parecem às vezes acariciar, às vezes escorregar pelas mãos deste seu leitor. um abraço, Leonardo.

Carlos Eduardo Leal disse...

Leonardo,
Então, amigo, a admiração é mútua porque adoro a sensibilidade e criatividade de teus textos. Para quem quiser conferir os textos do Leonardo, peço licença para divulgá-lo aqui: http://mixlit.wordpress.com/
Grande abraço,