quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O nascimento de Livia

Livia nasceu da terra. Germinou ao lado de uma grande, vetusta e colonial mangueira. Ainda menina girava ao redor das folhas ao vento. Dizia ser filha deste, já que sua polinização vinha de terras longínquas. Nasceu entre gramíneas e avencas esquecidas entre os musgos ao sopé da velha árvore. Nutria-se das coisas esquecidas e dos botões ainda por fazer nascer os lírios.
Livia colecionava amizades. Adorava o sussurro do vento entoando uivos e sibilos entre os galhos quando ganhava mais força no capoeiral. Conversava com a brisa e sorria feliz para as joaninhas. Bolinha e Brotoeja eram suas favoritas. Era exímia imitadora de suas pequeninas amigas. Batia com extrema força seus pequenos braços como se fossem asas ao ponto de Brotoeja inúmeras vezes confundí-la com sua irmã mais velha. Livia subia no primeiro e mais troncudo galho da mangueira. Abria os braços em arco e conseguia ficar alguns eternos segundos no ar. Batia os braços mais rápido do que alguém que revela um segredo inconfessável. Das formigas, afetada pelo doloroso passado recente, mantinha uma distância respeitável como quem se ajoelha diante dos reis. Certa vez pousou por ali um pintassilgo em extinção. E segredou também para Livia sua rara aparição. Foi a primeira vez que Livia teve uma sensação que até então ela ainda não havia experimentado: o medo. A segunda vez em que ela teve medo... bem, daqui a pouco eu conto.
Livia se banhava de primaveras e enxugava-se em palavras que ela mesma ia inventando. Para um mundo até então sem frases, até que ela não se saía mal. Dobrava palavras complexas e rasgava outras ainda estranhas ao seu pequeno entendimento sobre as coisas terrenas.
Livia era gentil como a cantata n.140 de Bach (wachet auf = despertai). E era exatamente isso que ela dizia (claro que em bom e sonoro Livianês) para seus amigos no início de cada dia: despertai! E, assim, as gramíneas dormideiras acordavam, as formigas desentocavam, os coelhos espreguiçavam esfregando suas enormes orelhas umas nas outras, os gafanhotos davam enormes pulos de alegria e o horizonte abria-se em novas e fervilhantes cores. O aroma do campo entrava suave pelos poros da menina e perfumava seu dia. As folhas mais baixas da mangueira traziam novas palavras escritas entre uma nervura e outra. Livia ficava na ponta dos pés e lia aquela gramática particular. Livia ficava na ponta dos pés e parecia levitar a cada nova palavra descoberta.
Mas numa certa manhã Livia acordou diferente. Chovia intransitivo. Estava ensopada, mas não só. Já havia enfrentado outros temporais e sua mãegueira sempre fora acolhedora. Algo mudara nela, mas ela não entendia ainda muito bem o que havia mudado. Parecia que chovia por dentro e, naquele dia, não houve a leveza da cantata de Bach. Ela nitidamente percebera a transformação em seu delicado corpo. Só não queria falar. Talvez por vergonha. Ou, então, talvez por não saber o que falar e nem com quem. Era íntimo, ela sabia. Mas ainda sabia pouco. Curiosa como era, quis saber mais. E aguardou ansiosamente a chuva passar. Enquanto ainda caíam algumas gotas e outras tantas folhas, percebeu que seus seios haviam crescido e que seus quadris generosamente haviam alargado. O céu abriu em azuis com nuvens ligeiras. O tempo é que passara igualmente ligeiro. E Livia, pela primeira vez teve vontade de subir no outono da mangueira para ler todas as palavras que ainda restavam escritas em suas folhas. E a cada galho um novo frisson percorria-lhe a espinha e se deleitava com as palavras ainda carregadas da efervescência adolescente.
Restava ainda uma última folha. Estava lá no alto. No mais alto daquela árvore entre os galhos mais finos que a perna do seu amigo gafanhoto. Mas Livia só havia tido medo uma única vez e não seria agora, pensou, que pararia de subir para querer saber mais e mais. E ela foi. Rastejando-se como um camaleão (esta face camaleônica ele iria desenvolver anos mais tarde), Livia foi subindo, subindo, subindo entre os galhos até que seu braço, agora já não tão pequeno, alcançou a última folha.
Então, com os olhos transbordantes, ela leu o que estava escrito: André.
E esta foi a segunda vez em que Livia teve medo.

17 comentários:

Ana Carolina Nunes disse...

Será que esse casal não pode ter uma segunda chance? acho que a torcida é grande rsrs
Demais a ideia de nos contar o nascimento de Lívia ;)
Bjs

Renata Vilanova disse...

Carlos Eduardo,
Que coisa mais delicada...!
Linda Livia, tão linda de dar vontade de ao mesmo tempo colocar numa caixinha pra proteger, e levar ao infinito pelas nossas mãos, abrir no alto e entregar à brisa doce e suave para que possa ser inteira para Ele... e pra Ela. Ai, esta última palavra vira eterno retorno.
Ela, à margem e tão inteira, tão perceptiva, tão infinitamente apaixonada pela vida.
Muito bom ler isto.
Obrigada :)
bjs
Renata

Michelle Nicié disse...

Querido,
sabe que a coleção de amizades da Lívia me relembrou a Emília do Lobato? Tão querida Emília por mim em minha infância, boneca conversadeira, curiosa, debochada, apaixonada e apaixonante, falante, engolidora de pílulas, conversando com seus besouros dentro da caixinha de fósforos... Lívia me trouxe um relicário de um mundo cheio de encantamento, paixão e medo... saudade...
beijo,
M

Adriana Guedes disse...

Livia não quer morrer, não é Eduardo?
Bj
Adriana.

Cris disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cris disse...

Lindo e intenso nascimento.
Está sendo maravilhoso conhecer partes da história de Livia e André que não estão escritas no livro. Fico sempre na expectativa do que virá depois, ou o que eu vou saber sobre eles que ainda não me contaram, ou melhor, que você ainda não contou.
Fico aguardando as cenas do próximo capítulo...

Eugenia Ribas Vieira - editora-assistente disse...

Carlos
Me emociona acompanhá-los. Continue, continue.
Eugenia.

virginia disse...

medo e paixão? paixão e medo? ????
bjus*
vi

Carlos Eduardo Leal disse...

Aninha,
Se não houver uma segunda chance, poderá, quem sabe, surgir uma trilogia,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Renata,
"Abrir no alto e entregar à brisa"... das tuas ilustrações? rs
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle,
Quem já andou de mãos dadas com o Sítio, estará para sempre a mercê do pó de pirlimpimpim, rs :)
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Adri,
Na verdade, os personagens nunca morrem. Eles se recriam tb em quem os lê.
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Cris,
Que bom que vc tem acompanhado o André e a Lívia,
aguarde...,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Eugênia,
O teu incentivo é fundamental para esta história toda e vc sabe,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Virginia,
Onde há paixão, o medo acompanha, mas a paixão há sempre de ser maior. Livia e André sabem disso...
bjs

MaRi_aNa disse...

sabem mesmo?

Carlos Eduardo Leal disse...

Mariana,
Quer dizer, rateiam, tateiam ao procurar saber...risos
bjs inscientes