terça-feira, 20 de outubro de 2009

INHOTIM: uma viagem ao canto chão da Terra



Sempre fiquei emocionado, com o canto chão dos monges. Um canto derivado do Canto Gregoriano e também chamado de Cantus Planus. O som da Terra ou o som do universo. Forte, denso, uníssono e, ao mesmo tempo, pacificador e angustiante. Mas, o que pacifica angustia? Depende, porém o canto chão me causa isso. Esta possibilidade de estar próximo ao infinito de mim mesmo me põe diante dos meus abismos tal como os antigos pensavam sobra a Terra como sendo um disco. Após suas bordas o nada, ou pior, o vazio absoluto.
A Terra não é vazia. Ela é vazia de preenchimentos e o que temos que fazer é cultivá-la. Para isso muitas vezes temos que deixá-la em paz. Ela que sempre se virou por si só, encontrou na interferência humana seu pior algoz. O animal humano está devorando a terra que o devorará mais cedo ou mais tarde, inexoravelmente a sete palmos abaixo da superfície. Parece que ele ignora este fato de como a terra estará ardentemente seca, sem nenhum humus, sem nenhuma fertilização para, quem sabe, fazê-lo retornar melhor talvez como planta, flor ou sombra para os cansados na viagem da vida.
Mas neste fim de semana a Terra se abriu generosa para mim. Sorriso largo, mãe gentil. Terradorada, Patriamada. Fui visitar Inhotim a 60 kms de Belo Horizonte. Aqui estão algumas fotos do maior museu de Arte Contemporânea da America Latina. Algumas exposições estão em diversas galerias e outras a céu aberto. Restaurantes, comidinhas, realmente um lugar encantadoramente charmoso com jardins de Burle Marx.


Mas não só. Se não bastasse isso tudo, recentemente foi inaugurado "o som da Terra". Projetado por Doug Aitken. Trata-se de uma redoma de vidro de uns 60 metros de diâmetro, no alto de uma colina (é preciso pegar um micro ônibus para te levar até lá) e no seu centro há um buraco de mais de 200mts de profundidade por 20cm de diâmetro. Ali foram colocados inúmeros microfones que captam lá embaixo "o som da Terra" que são transmitidas para caixas de som que não aparecem. O som nunca se repete e o que se ouve é assustador e emocionante ao ponto de te deixar tonto, desnorteado. Digo que há muito tempo não sentia uma emoção tão forte assim. Talvez a última grande emoção sentida tenha sido no dia em que constatei pela primeira vez que eu não era o único ser vivo da Terra. Esta ideia de pertencimento e completude nasce quando a gente está mais distraído na alma. Você se sente extirpado da solidão e jogado num vozerio que te aquece de palavras e te faz recordar sensações que você nem sabia que existiam. Mas estavam lá. Todas, ou quase. Ao menos foi isso, se posso assim me expressar, que senti diante deste indizível chão que se abriu em mim. E esta abertura foi a descoberta de possibilidades. Possibilidade de dizer o que ninguém diz e estar feliz por isso. Feliz porque o dizer também é dor, dor de existir, mas justamente por isso, uma alegria feita de arredores, horizontes incalculáveis, intermináveis palavras. Palavras acústicas desplugadas de meio-dias e arredondadas por madrugadas. Dizer silêncios porque ali quem fala é um monge selvagem que também me habita. Feliz por escutar a mãe Terra e sentir parir outros mundos até então desabitados pelos meus olhos. Feliz por desenterrar o amor das profundezas da grama. Feliz por me desconhecer tanto e, portanto, saber surpreso que ainda há muitas outras partes de mim a serem encontradas e recontadas. Algumas no prelo, como se diz.
O que nasce daquele cantochão são uivos, sibilos, palavras atávicas, todas elas em louca genealogia, melodias estendidas preguiçosamente pelos galhos das árvores e partituras de vozes: a minha, a sua. Nossavoz. Em comunhão.
Amém.


14 comentários:

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo Leal, leal a ti mesmo! Que coisa bem gostosa deve ter sido isso! Descobrir-se ou descobrir 'eus' que ainda não conhecíamos. Tu em Inhotim e eu pelos olhos de me filho mais velho - uma viagem boa!

Abração
Anne

Renata Vilanova disse...

... uma oração à natureza... Bendita... Bem dito. obrigada. vou a inhotim. bjs. renata

Adriana Guedes disse...

Ouvir o som da terra?
Isso deve se parecer com a presença de deus.

Bj
Adriana.

virginia disse...

nossaaa.... que lindo!! adorei as fotos e saber o canto da terra. vc é d+! muuuito obrigada por compartilhar suas sensações, sua percepção, sua experiência nesse chão, nessa terra tão nossa. quero muito conhecer inhotim, com certeza, é sensacional!
bjus*
vi

Telma Miranda disse...

Sem dúvida, meu amigo, sempre que nos aproximamos de nós mesmos, mais nos achamos próximos aos abismos. A angústia e o êxtase, a dor e a alegria, se confundem e já não há garantia de coisa alguma. A não ser a possibilidade de criação. De nós mesmos. Melhor que isso só quando há essa sintonia (sinfonia) entre este momento interno e a presença de uma natureza em toda a sua plenitude que nos acolhe. Com sons, cheiros, cores. E aí nos sabemos únicos e enormes - quase incabíveis -, e, ao mesmo tempo, apenas humanos. Abraços abismais.
Telma.

Kaligia Cristina disse...

Professor, que lindo!!!!

Me deu vontade de correr e visitar Inhotim, lugar lindo!!!! Ouvir, se ouvir, ouvir o outro ou o som da Terra, são realmente possibilidades hoje incomparáveis. Adorei professor ter viajado um pouquinho ... rsrsrsr...
Um abraço.

pabst.ell disse...

Fui a Inhotim na sexta passada e realmente o lugar me encantou, principalmente esse som do centro da terra por Doug Aitken. Uma delícia para os ouvidos, os olhos e para o nosso interior... Muito bem descrito por você!

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Há muitos outros 'eus' ainda por descobrir. Olho-me através de F. Pessoas e sonho com Inhotim,
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Renata,
Olhe com teus próprios olhos e sinta com tua alma as artes da natureza (humana),
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
Há deuses em todos os lugares, contaminados por nós
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Virginia,
Isso também é nossa Patriamada,
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Telma,
Bom poder partilhar palavras, leituras e abraços abismais com vc sempre tão presente na minha vida,
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

K. Cristina,
Viajar é preciso, tão preciso quanto navegar. Só o viver é que é impreciso. Mas sem navegar nas viagens não há o viver,
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

pabst.ell,
Olá, Bom que você pôde compartilhar Inhotim lá e aqui nestas veredas. Obrigado por visitar estas paisagens e volte sempre,
Abraços,