quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Amores efêmeros

Livia acordou mais cedo do que de costume. Talvez porque aquele dia seria um dia especial na sua vida. Ela apenas ainda não sabia disso. Estava fazendo dezessete anos e poderia ter sido apenas mais um aniversário. No colégio todos seus amigos esperavam ansiosos pela sua chegada. A pele alva revelava as sardas que formavam um belo contraste com seus negros cabelos. Seu presente de aniversário? Era dia de prova de história. Alguns apressados diriam que seria um anti-presente, afinal ninguém quer fazer prova no dia do seu aniversário. Mas, Livia queria e queria muito. Porém, só ela sabia a razão. Estava apaixonadissima pelo seu professor. Mas por nada deste mundo confessaria para ele. Livia era tímida, Livia era sua aluna e ele deveria ter no mínimo o dobro de idade dela. Fantasia de adolescente? Não, ela levava a sério aquela paixão. O que no início não passou de uma brincadeira da amiga Lucília - "te peguei olhando para o André" - foi secretamente se intensificando ardorosamente dentro do coração de Livia. Antes das aulas seu coração tremia, suava frio, mas dava um jeito melhor no cabelo, pintava um pouco mais os olhos, acentuava um brilho ao batom e cruzava a perna sob a saia plissada do uniforme diante de um professor que até então mostrava-se impassível diante de sua aluna.
A prova chegou e André, o professor de história, ficou sabendo da coincidência das datas. Livia estava linda nos seus dezessete anos. Corpo feito, olhos intensos, lânguidos e mãos ainda virgens para o amor. Sim, porque é preciso que as mãos se desunam umas das outras e abracem um corpo para se encontrarem em outros lugares, até então, impensáveis.
Livia entregou a prova e André lhe entregou um pequeno pedaço de papel. Tudo feito com muita sutileza que nem uma câmera de vigilância notaria. Ajeitou a blusa e enfiou o papel dentro do sutiã. Correu para o banheiro e leu: "Preciso muito conversar com você. Me ligue depois das 14:00hs, André". Deixou o número do celular, mas ela já sabia, aliás, apaixonada que era, sabia tudo sobre ele. Ele é que sabia tão pouco sobre ela...
14:00hs
- André?
- Livia?
- Claro, você não pediu pra te ligar?
- Preciso te ver, urgente.
- Eu também quero muito... e sua voz estancou embargada. Não parecia acreditar que aquilo estava acontecendo. Depois de tanto tempo esperando, desejando, sonhando com aquele momento, ele iria, enfim, se concretizar.
Ele a levou para sua casa de campo. Ele a levou também para viver a realidade do amor sonhado: por ele/por ela, em seus segredos. Ela se abriu em primaveras, ele em taças de vinho sobre seus outubros. Ela havia trazido o violão. Fez uma música para ele. Ele escreveu a letra e juntos cantaram todas as canções na invenção daquele novo amor.
Quando é que se dá conta do infinito do amor? Quando as sazonalidades já não mais existem ou quando faz muito frio e você se dá conta que ainda é verão.
Depois de dois anos morando juntos, André acordou sozinho e sozinho ficou na sua solidão sem conseguir lembrar de nenhuma música cantada por eles. Livia havia se apaixonado por um antigo colega da sua turma. Ela era dada a rompantes apaixonados: "sempre te avisei que eu era assim, portanto, não faça cara de surpresa nem de desespero e não me procure mais. Quando acabo é definitivo. Não há voltas. Fui." Estas foram as únicas palavras escritas num papel deixado sobre o teclado do seu computador. Não havia destinatário, não havia remetente.
André, agora sozinho, tomou outro gole de café e, em sua saudade triste, em seu choro incontido, ficou pensando sem entender como dois nomes podem apagar-se do mundo assim de forma tão abrupta...
Então, pegou um cd do Chico e ouviu "Mar e Lua":

Amaram o amor urgente
As bocas salgadas pela maresia
As costas lanhadas pela tempestade
Naquela cidade distante do mar
Amaram o amor serenado das noturnas praias
Levantavam as saias e se enluaravam de felicidade
Naquela cidade que não tem luar
Amavam o amor proibido, pois hoje é sabido
Todo mundo conta
Que uma andava tonta grávida de lua
E outra andava nua ávida de mar...

27 comentários:

Michelle Nicié disse...

Querido Cel,
amei os amores efêmeros, amores urgentes, amor serenado das noturnas praias...
beijo grande
M

isis disse...

intenso e triste
bj
isis

Ana Paula Gomes disse...

Carlos,

Gostei tanto, que confesso, desculpe a minha pretensão, por vezes fiquei com a sensação que eu tb havia escrito aquelas palavras. Estranho e familiar.....Adorei.

Bjs. Eu adoro o Andre e a Livia

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo
Um 'conto' que flui assim como escorre as nossas vidas por entre os dedos dessas mãos que conduzem ou não os amores da vida. Triste? Sim... mas tão real para quem vive a vida com paixão...

Parabéns pelo texto... Sinto-te (sem te conhecer) tão triste...

Beijos

MaRi_aNa disse...

17, 27, 37, 47....até quando o amor romperá o infinito com suas dores? :)
bjs
mari

Helena Figueiredo disse...

Caríssimo,
depois de alguma ausência,volto aqui para um momento de leitura e saio encantada.
Saudações de Portugal
Helena
PS - Curiosamente, o seu nome remete-me sempre para "Os Maias", grande romance de Eça de Queirós.

grasielle disse...

Sr. Carlos, parabéns pelo belo texto. Intenso e profundo. Tão real quanto o dia chuvoso de hoje.
Grasielle.1001 Turismo

Renata Vilanova disse...

nó na garganta.
lindo.
renata

Day disse...

Isso me faz lembrar Vinícius...


Ausência (Vinícius de Morais)

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar seus olhos que são doces...
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres exausto...
No entanto a tua presença é qualquer coisa, como a luz e a vida...
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto...
E em minha voz, a tua voz...
NÃO TE QUERO TER, pois em meu ser tudo estaria terminado...
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados...
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada...
Que ficou em minha carne como uma nódoa do passado...
Eu deixarei...Tu irás e encostarás tua face em outra face...
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada...
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu...
porque eu fui o grande íntimo da noite...
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa...
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
E eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
MAS EU TE POSSUIREI, mais que ninguém, porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas,
serão a tua voz presente, tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Adriana Guedes disse...

Dois nomes podem apagar-se do mundo...e muitas outras palavras. Conhece o livro A ÚLTIMA PALAVRA? rsrsrs
Lindo conto!
Bj
Adriana

virginia disse...

CARLOS EDUARDO,
parabéns, amei o texto! achei lindo e delicioso, só de ler e imaginar, senti meu coração disparar, mas, achei triste pq não teve um final feliz!
bjus*
vi

Vinícius de Oliveira disse...

Um conto muito tocante, até me vi de relance como nuns reflexos, RS. A liberdade de ir sem voltar, de estancar o fluxo intenso de uma paixão tragada sofregamente como a última gota no mundo. Quantos dezessetes cabem numa vida?

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle,
Nada melhor do que amar ao amor...
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Isis,
A vida tb é por vezes intensa e triste,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Ana Paula,
As palavras, é claro, também são tuas, assim como André e Livia
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

É Anne,
Você tem razão. Como diz o Chico em Roda Viva, "tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu",
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Mari,
Esta conta não tem fim, é infinita mesmo,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Helena Figueiredo,
Obrigado pelo carinho das tuas palavras,
bjs,
Eça de..., ôps, Carlos Eduardo rs

Carlos Eduardo Leal disse...

Grasielle,
Seja bem vinda por aqui e volte sempre mesmo que os dias sejam de sol,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Renata,
Os nós são também outros tipos de laços na vida,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Day,
Linda a lembrança do Vinícius. É ele quem sempre nos salva das ausências com sua doce presença poética. Não conhecia esta poesia dele. De que livro é?
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Oi Adri,
Não conheço este livro, este tal de "A última palavra". Quem é o autor? :)))
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Virginia,
Às vezes a ficção vem nos falar da realidade que nem sempre tem um final feliz, mas a vida deve continuar,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Vinicius,
A liberdade de ir sem voltar é a partida diária de nossas palavras,
Grande abraço,

Kaligia Cristina disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Kaligia Cristina disse...

Professor,

Parabéns pelo texto. Lindo e tão real que me lembra os dias de verão escaldantes de 43 - 45 graus no RJ. Me deixa com flta de ar...
Grande Abraço.

Carlos Eduardo Leal disse...

K. Cristina,
Obrigado pela leitura escaldante (rs) das minhas palavras,
Abraços,