sábado, 10 de outubro de 2009

Carta para Livia - um mês depois...

Querida Livia,
Queria te pedir para voltar, mas não tenho mais o teu endereço. Então, não tenho o destinatário. Mas ainda tenho força nas palavras e sempre terei por você, pois meu coração é um vulcão sem permissões nem volteios. Meu coração segue trilhas, veredas que é como se diz por aqui. Daquelas que Riobaldo seguia bravamente sua Diadorim. Não, não quero te ver morta ao fim da batalha. Nada de heroísmos. Só as palavras podem aqui agregar heroísmos, pois se uma morre, outra fênix vem logo em seu socorro. A morte da palavra acontece quando as pegadas não são mais visíveis na areia dos olhos. Então a palavra ensurdece num labirinto de desencontros.
Toda palavra quer partida. Toda palavra quer estar sempre se desamarrando de seu porto, ganhando oceanos mesmo que sejam bravios, mas algumas insistem em seu retorno. Toda palavra possui um deus. Um deus que a protege das demais palavras. Toda palavra é indestrutível, pois uma vez lançada ela cumprirá seu destino. Toda palavra quer copular com outra porque sozinha ela talvez não passe apenas de uma interjeição, um grito sem sujeito. Toda palavra é sagrada, mesmo aquelas que trazem vergonha e escárnio. Há um manto simbólico que as recobre com suas paternidades. Toda palavra tem sua manjedoura e uma estrela que brilha no alto do horizonte. Toda palavra quer ser feliz, mesmo em sua mais recôndita melancolia. Assim é que Clarice chama alegria-triste ao amor. Pois é, Livia, você é minha Clarice e sempre será. Um mistério a ser decifrado, uma palavra feminina por dizer: um quase-isso, quase-todo, quase-tudo. Um roçar nas franjas da felicidade, uma tangência de possibilidades infinitas. Foi isso que você despertou em mim. Toda palavra possui sua roupa de sair, seu traje de sexta à noie e seus trapos de ficar em casa. Toda palavra vomita seus excessos. Toda palavra possui uma sonoridade e uma cor. Algumas possuem um arco-íris ao seu final. Talvez teu nome seja uma destas palavras. Talvez a palavra que você me sussurrava na cama em nossas noites de paixão possuam todas as cores, todos os sons e todos os silêncios. Sim, porque teus silêncios estavam sempre rodeados de palavras. Estas indizíveis eram as mais belas, sedutoras, as mais contundentes, pois você as dizia com seu olhar dentrodomeuolhar ou, então, com o suor que transbordava do teu corpo extasiado de prazer para o meu.
Meu pensamento é feito de lembranças embebidas em vinho decantado e minhas alegrias são esperanças de um tempo entre estrelas. Você sempre foi uma estrela, agora cadente, mas ainda e sempre candente. Uma chuva de estrelas, uma chuva de palavras infindas.
Esta carta, a princípio, não teria fim, pois as palavras, todas elas dirigidas a você, não caberiam em nenhum Amazonas, mas só em certas sazonalidades consigo os meus transbordamentos. Às vezes também sou peixe, ou árvore ribeirinha, ou galho boiando ao sabor da correnteza. Tenho incertezas cultivadas nas minhas meias verdades. Outras eu crio. E mergulho ficcional com escamas.
Assim, se você ainda quiser me encontrar, te deixo uma pista:

"Nasço amanhã /
Ando onde há espaço:
-Meu tempo é quando."

Bjs,
André

23 comentários:

MaRi_aNa disse...

"orfeu sem eurídice, coisa incompreensível!" ;)bjo

Carlos Eduardo Leal disse...

Mari,
Futebol sem praia, queijo sem goiabada, Orfeu sem Eurídice, Werther sem Carlota, Natal sem Papai Noel, tudo isso é mesmo incompreensível, mas...é a vida,
bjs :)

Michelle Nicié disse...

Adorei o mergulho ficcional com escamas...
bjs
M

Kaligia Cristina disse...

Amei...
lembrei (da ficção do amor)entre o SOl e a Lua, compreensível, incompreensível?????
bjs!

Vivian disse...

...é na vaga destes desencontros
que residem as oportunidades
para um novo amor...

beijos meus!

Anne M. Moor disse...

Lindo conto. Triste conto. Real conto. Assim é a vida!

Beijos
Anne

virginia disse...

impossível o reencontro. triste!
bjus*
vi

tfthfthsht disse...

Adorei pai!
A última palavra não resistiu em ser a última e ganhou continuidade...
Bjss

Ana Carolina Nunes disse...

"(...)as palavras agem, sentem e falam por elas próprias. A palavra nuvem chove. A palavra triste chora. A palavra sono dorme (...). As palavras dizem o que querem, está dito e pronto. As palavras são sinceras, as segundas intenções são sempre das pessoas". Pequeno dicionário de palavras ao vento, por Adriana Falcão

Renata Vilanova disse...

continuação da vida. real por ser tão profundamente embriagado de palavras.

Adriana Guedes disse...

"Toda palavra quer estar sempre se desamarrando de seu porto, ganhando oceanos..."
Isso é lindo, Eduardo! E talvez seja a melhor pista para Livia: André não será encontrado jamais. Rsrsrs.
Bj
Adriana

Bia Maia disse...

Amigo...novo amigo...
Nunca vi tamanha perfeição ao descrever o que são, o que querem, o que desejam as PALAVRAS!....

Meus parabéns!

Gostei demais de seu blog e com certeza estarei aqui mais e mais vezes!E passo a lhe seguir!

Esteja sempre à vontade lá em meu cantinho!

Beijos com amor e linda quarta-feira para voc~E!

Parabéns por seu blog!

Biazinha

Eugenia Ribas Vieira - editora-assistente disse...

Carlos, Lívia e André. Que triângulo! Não vou mais interferir nesta história que anda sozinha.
Um beijo, Eugenia.

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle,
Sempre haverá novos mergulhos...
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

K. Cristina,
Você tem razão para este desencontro entre o sol e a lua...
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Vivian,
Nos desencontros "sempre haverá Paris", como H. Bogart diz em Casablanca,
bjs e bem vinda por aqui

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Parece Nelson Rodrigues..."a vida como ela é". E, por acaso, escapamos disso? rs :)
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Virginia,
Existem encontros que são para sempre embora só existindo um...
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Filha querida,
Minhas palavras para você nunca serão as últimas.
Te amo,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Renata,
A extrema lucidez talvez seja um malefício para as palavras,
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Adri,
André continua indo, indo, indo, sei lá até onde...rs
bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Bia, amiga nova,
De outras palavras!
Fico feliz por você ter gostado destas Veredas. Que seja sempre um caminho alternativo para você, Entre por ele sempre que desejar.
Bjs,

Carlos Eduardo Leal disse...

Minha querida editora,
Suas palavras são incentivo para este triângulo que você conhece tão bem.
Bjs e interfira sempre sim...rs