segunda-feira, 31 de agosto de 2009

A ilha / Para Adolfo Bioy Casares


Lentamente contornei a ilha. Agora já não restava muito para alcançá-la. Avistei-a ao longe, num relance. Estava de costas com seu indefectível manto negro. Seu cabelo havia envelhecido mais do que os musgos sobre o grande muro de pedras. Uma mecha branca contornava o céu azul tal como um halo em torno da lua. Minha visão agora prateava já que faltavam poucos metros até o topo daquela colina de pedras brancas e esverdeadas. O caminho era sinuoso, íngreme, mas finalmente após tantos anos eu a encontrara. Sabia que era ela a quem eu buscava. Sabia de cor. Por tanto tempo em minha vida decifrei vorazmente cada centímetro de um vasto enigma naquela ilha afim de colocar minha única meta em ação: encontrá-la. Muitos haviam fugido dali temendo esta hora, mas eu julguei-me mais fiel aos meus princípios se quisesse antecipar o encontro. Agora vejo como fui tolo. Achei que pudesse ludibriá-la.
Nas noites sonhava desperto com este momento. Durante os dias, traçava planos, fazia sinais na areia que só eu compreenderia. Na verdade eram sinais para mim mesmo. Talhei pedras com as unhas até ficarem em carne viva. Rasguei cipó venenoso com os dentes e beijava os regatos para saciar minha febre. Procurava a verdade nas minhas perguntas e não me envergonharia com ilusões para as minhas respostas. Os anos de busca infinda haviam me ensinado a não enveredar por respostas triviais. Não mediria esforços para encontrá-la.
E este momento finalmente chegara. Estava agora a poucos passos, alguns metros. Era gigantesca. Como poderia não tê-la visto anteriormente? Havia passado por aquele lugar dezenas de vezes naqueles anos. Contudo, estremeci. Ela era tal como em meus sonhos. O frio do medo rangeu-me os ossos das mãos prostadas, contritas, em holocausto. Ajoelhei-me em sinal de respeito. Sabia que ela me olhava desde um lugar que seria impossível a fuga. Mesmo que quisesse fugir, minhas pernas aquartelavam-se sobre montículos de folhas moídas que certamente já haviam servido de base para outros joelhos curvados em reverência. Agora suava frio. Sentia um ruído cinza descer pela minha espinha em direção ao chão vazio. O medo aumentara terrivelmente e o que eu chamava de sensibilidade já não passava de anestesia. Os céus calaram-se por alguns minutos. Suficientes para a minha partida.
Já não era eu que estava diante da morte. Apenas um corpo frio, inerte, que já não implorava mais nada. As letras sobre os espelhos na areia desfaziam-se ou eram bicadas pelas gaivotas rigorosas. O lume que antes cegava o cais, recolhia-se em estrumes tardios. Enxofre e pedaços de pão ázimo soluçavam na azia daquela tarde.
Agora, as dúvidas haviam cessado e os temores que acompanharam décadas de uma vida, jaziam congelados sobre um ninho cheio de vazios, que ao sabor do vento, grisalhos, espalhavam-se finalmente, para além da ilha.

6 comentários:

Vivian Wyler (supervisão de edição) disse...

Carlos, um tema ótimo para uma palestra futura seria o escritor e a ilha. Começando por John Donne e Carlos Drummond...

Carlos Eduardo Leal disse...

Vivian,
Obrigado pela lembrança do John Donne. Tenho uma edição da "Assírio & Alvim" chamada "Poemas Eróticos", mas não encontrei uma referência sobre a ilha. Você poderia me indicá-la?

Sobre o Drummond:
"(...)Todo homem quer deixar sua ilha.
Temeroso de ter que voltar um dia, entretanto,
não destrói as pontes.
Enquanto isso, a ilha fica ali, só ilha.
A ponte fica ali, só ponte.
E o homem fica ali, só homem." (CDA)
Agradeço a Mariana Vieira pelo Drummond.
Bj,
Carlos Eduardo

MaRi_aNa disse...

Eu quero ver essa palestra (e qq outra sua tb) :)
lindo texto! bjs mari

Renata Vilanova disse...

senti a ostra e o vento, quando li, não sei porquê...

fiquei com um entalo, uma emoção, um vazio no estômago.

forte, denso, mistério, lindo.

as gaivotas sempre me trazem a sensação que descreve.

senti também a música todo sentimento do chico.

bjs
Renata

Anne M. Moor disse...

Este teu texto, cheio de metáforas, tão profundo and yet tão fácil de ler...
Enxergar-se, deixar-se ver! Quantas vezes chegamos ao "topo daquela colina" e falseamos o 'pé' e descemos escorregando vários kms, para começar de novo????

Beijos

mi menor disse...

eu tenho muito orgulho de você.
lindo texto..
beijos
sua sobrinha
natália.