domingo, 23 de agosto de 2009

O escritor, sua memória e seu ofício

"O escritor", escultura do italiano, Giancarlo Neri

É sempre marcado pelo passado que se escreve. O ato de escrever é, de alguma maneira, uma tentativa de reconciliação com nossas memórias. Ora, a memória é também composta por restos fragmentários que ficaram inconclusos na vida cotidiana. Muitas vezes são restos que nos assombram, noutras nos deterioram pela fragilidade à qual eles nos expõem.
Freud dizia que uma das funções de uma análise era preencher as lacunas da memória e, assim, livrar o sujeito de seus traumas e medos infantis que ficaram soterrados sem a menor possibilidade de dar um sentido claro ou uma significação coerente. Então, uma análise também é resignificar os fatos adormecidos, as histórias submersas, verdadeiros tesouros arqueológicos da nossa infância vivida ou devaneada.
Qual é a diferença entre o viver e o devanear? Para o psicanalista, o que importa é a realidade psíquica e, não propriamente, a realidade vivida, pois é desta realidade que o sujeito reconstrói sua vida no presente e a relança para o futuro. É desta realidade que ele sofre. Shakespeare, escreveu uma peça que se chama As you like it, ou, 'assim é se lhe parece'. A vida é como você a enxerga. Igualmente para o escritor, não há uma separação tão nítida entre a realidade e a ficção. Aliás, é melhor que não haja mesmo, pois ele vai construir realidades ficcionais para que o leitor 'viva' a vida de seus personagens como se ele também fizesse parte da história. Entrar dentro de um livro, é como entrar dentro de uma enorme caverna com seus labirintos em busca de uma aventura, de um romance ou de uma caçada policial sem passar pelos perigos que os personagens vivem.
Existem cinéfilos que acham que a sétima arte é insubstituível. Eu adoro cinema, mas como escritor, percebo que a "oitava maravilha do mundo" é a capacidade fantasística do leitor. Um bom romance consegue fazer despertar no leitor um grande diretor de filme e rodar cenas inimagináveis através da realidade psíquica sem que para isso ele precise levantar do sofá. Por isso se diz com frequência que "o livro era melhor do que o filme", porque o leitor já havia feito o seu filme dentro da sua própria mente.
Assim, o leitor se torna co-autor do autor passando magicamente a fazer parte da 'memória' vivida deste. Memória vivida ou memória inventada, pouco importa.
Recentemente, uma leitora comentou acerca do meu livro A última palavra, dizendo que "só quem amou apaixonadamente pode viver tal ira dos personagens". E ela tem razão. No plano ficcional ou na vida real, é preciso que tenha havido um grande amor para que um grande ódio surja como contraponto. Mas, pergunto novamente: qual é a diferença entre a realidade e a ficção? O limite é extremamente tênue. Também ouvi de outra pessoa: "no início tive muita raiva dele, mas depois entendi a minha raiva e passei a prestar mais atenção ao discurso tão feminino dela". Sem querer arriscar aqui uma interpretação, poderia dizer que a leitora já havia se identificado com ela ao ter muita raiva dele.
São memórias afetivas que estimulam nossas identificações. São atavismos perdidos que um livro pode recuperar. Um livro diz respeito à memória do seu autor, mas produz do lado do leitor, a possibilidade de recuperar imagens perdidas, tal como num filme musical remasterizado. Porém, o que é mesmo memória e o que é memória inventada em relação ao próprio leitor? O déjà vu é algo que o sujeito viveu, ou foi 'fabricado' pelo autor confundindo de vez as lembranças perdidas?
O ofício do escritor é inventar memórias: as suas e a dos outros. Lá onde não havia nada, você coloca uma ação, um romance no qual o sujeito no próximo encontro com sua amada vai dizer as palavras que o protagonista disse e que parece que saíram de sua boca. É comum lermos trechos inteiros de um livro, ou uma poesia, e acrescentarmos que "era exatamente isso que eu pensava, mas não sabia como falar". O escritor fala, então, ao coração do leitor. Empresta sua voz (e , claro, dos seus personagens) àquele que o lê.
Muitas vezes, o escritor se torna uma espécie de ghost writer para o leitor. Mas, isso acontece também dentro do próprio romance como é o caso de Cyrano de Bergerac, no qual o personagem, que se achava muito feio, escreve para que um outro o interprete. A palavra do escritor tem por função fazer ponte entre os abismos que existem na vida das pessoas e, assim, possibilitar a crença de que o leitor possa tocar com suas próprias mãos regiões antes inalcançáveis.
Há enormes paralelos entre o escritor e um psicanalista. Um deles diz respeito a que ambos possibiltam que o leitor ou o paciente interprete seus próprios textos. O texto do escritor é interpretado pelo leitor através de suas experiências pessoais e outras leituras. O psicanalista leva o paciente a formular também seus próprios textos, a escutá-los, dando a cada palavra proferida a devida dimensão de sua paternidade e autoria. Não é à toa que alguns analisandos terminam suas análises e vão escrever livros relatando sobre o percurso transcorrido. Vão ficcionalizar sobre a realidade inventada, a memória perdida e a redução inesgotável de suas dores. Escrever sobre o resgate da memória perdida é refazer a parábola do filho pródigo ou do pastor que tendo cem ovelhas e perdido uma, largou as noventa e nove e foi atrás da que se perdeu. Certos pequenos restos perdidos do passado são mais incômodos e contundentes (possuem a força de um tsunâmi) do que toda uma biblioteca de Alexandria de pura e boa memória.
O escritor é um sujeito que sofre. Também possui suas humanidades, poderiam vocês contra-argumentarem. Mas, não só. O escritor sofre, padece da palavra. Sofre dela, por ela e através dela. Sofre e se regozija pelo encontro. Sofre pelo desencontro tal como no fim de um baile de máscaras; 'não era ele, não era ela'.
A memória do escritor é atualizada na palavra construída, inventada por ele e, assim, resignificada sobre o tempo perdido. Quem escreve, não perde tempo. Quem escreve, não se perde do seu tempo. Quem escreve, não se perde no tempo. No tempo das memórias inventadas.

20 comentários:

isis disse...

Dudu

lindo e muito bem construido.
Vc é um bom ouvinte freudiano.
Domine a técnica, e no encontro com o analisando esqueça a técnica, ela deve fazer parte de vc. Sinto isso no que escreve e fala, não só no domínio do saber psicanalítico, mas da arte e da vida.
Obrigada por mais esse texto.
vou da-lo de presente aos amigos
beijos
isis

Michelle Nicié disse...

Querido e Leal, rs
Você, como escritor e psicanalista que é, não perdeu tempo, foi preciso em seu texto.
Escarafunchando e escavando seu texto, fui me encantando, me detendo e me inventando em diversos trechos.
Uma imagem que muito me agrada é a da escrita como uma poética do resto, da ruína, dos caquinhos do cotidiano reencontrados e rearrumados como um quebra-cabeça ou ‘lego’ que vai se encaixando para criar, inventar novos sentidos.
Também me agrada a idéia de pescar restos soterrados, submersos.
Devanear e viver como fios tênues que vão se encontrando e se desencontrando, formando malhas densas, misturadas, múltiplas.
A realidade construída no agora, em agoras e relançada para um possível, possíveis, futuros.
O escritor como inventor de memórias.
Shakespeare, Cyrano, e tantos outros.
O escritor como aquele que sofre, padece da palavra.
A escrita para não perder tempo, não se perder no tempo e nem se perder do seu tempo, também inventado e construído a cada inspiração e expiração.
Adorei o seu texto, a mesa e a cadeira do Neri também no meio de todo aquele verde.
Beijos mil, M.

Silvia disse...

Um livro só se completa, ou se reencontra, ou se consome, ou se esgota, ou explode .... na mão do leitor. Amós Oz, em "A História Começa", diz que existe um contrato entre leitor e escritor e que cada página só tem sentido ao ser sintonizada por quem a lê.
Parabéns CE. Brilhante desenvolvimento desta idéia, entre outras.
Bjo, Silvia

Anne M. Moor disse...

Quem escreve se escreve e quem lê, ao fazer ligações com sua vida, seu contexto, seu conhecimento, se constrói cada vez mais um pouquinho...

Interessantíssimo este teu texto, escrito por quem sabe das coisas... :-)

Abração
Anne

Vivian Wyler (supervisão de edição) disse...

Carlos Eduardo

Sua "fala" para o projeto está toda aqui e é muito bela. Acho que vai dar certo!
bjos
Vivian

Carlos Eduardo Leal disse...

Vivian,
Obrigado pela sua leitura sensível. Na verdade, foi exatamente pensando no projeto que comecei a escrever este texto. Ele é embrionário para minha "fala".
Bjs,
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
É verdade que por detrás do escritor há um antigo leitor...
Bjs
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Obrigado pela sua lembrança do Amós Oz. É um autor que eu gosto muito, mas não li este livro dele. O leitor aqui vai procurá-lo.
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle,
O lego são também meus restos da infância, assim como as palavras. Acho que existem palavras-lego, palavras-nuvens, palavras-que-faltam-um-pedaço, por exemplo, palavras-ego. O "l" foi ali se encaixar numa outra palavra e já volta. rs
Bjs
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Querida Isis,
Obrigado pelo carinho (sempre) presente em você, nas suas palavras e na sua vida.
Grande bj,
C. Eduardo

Adriana Guedes disse...

Eduardo, é preciso coragem para ir até o fundo da caverna e revirar ossos, ruínas, identificar uma biografia decomposta pelo tempo. Mas quase sempre vale a pena porque saímos empoeirados, sujos, mas com o desejo de vida, de mudança, de renovação. A terapia e o livro se equivalem nessa tarefa encantada-inventada!
Lindo texto. Adorei mesmo.
Bj
Adri.

Carlos Eduardo Leal disse...

Prezada moça da caverna, rs
Os restos e as poeiras do tempo, são também as poeiras da memória. Autor, leitor, psicanalista e paciente se encontram em alguns lugares no estuário das páginas da memória.
Bjs
C. Eduardo

Stella Tavares disse...

Um texto preciso e que me levou a entender melhor minha alma e forma de lidar com as palavras e os sentimentos que elas expressam.
Adorei!
Abraços

MaRi_aNa disse...

cansado de receber elogios? ;)
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Stella,
O escritor também é um leitor de outras palavras de outros autores que nos formaram e que ainda nos ajudam a entendermos a vida em nossas aventuras e desventuras de nosso dia a dia.
Obrigado pela sua visita aqui no blog, e volte sempre,
Abraços,
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Oi Mariana,
Os elogios, assim como as críticas (e já recebi inúmeras, muitas, incontáveis), são imprescindíveis em nossas vidas para que a gente não só continue escrevendo, como também se desapegue do trivial e tenha responsabilidade sobre nossos leitores.
É muito bom recebê-los. Ontem, tinha dificuldade com eles, hoje, vejo sem subir no pedestal da arrogância, que a literatura é mesmo um caminhar com a palavra e é exatamente disso que somos constituídos. Somos seres da palavra. Por ela e através dela nos construímos e nos revelamos. Por ela e através dela nos desconstruímos e nos matamos.
Seu comentário, pequeno, mas profundo, me fez repensar inúmeras coisas e acabou me jogando para o fundo temporal (ou imemorável) dos meus atavismos.
Valeu! bjs,
Carlos Eduardo

Elaine disse...

olá, carlos eduardo, gostei muito do texto.
ler é uma paixão. ler é para mim uma forma de entrar em universos desconhecidos que logo se tornam (depois da leitura)extremamente familiares. Muitas vezes os livros me dão o que não pude viver, o que nunca poderei viver, o que nunca soube... Também me contam sobre a História dos homens, muito mais que livros especializados em histórias da humanindade. Os livros para mim são tesouros de valor inestimável. Mas ao mesmo tempo gosto de lhes dobrar as páginas, marcando onde estou... Nunca me habituei a marcadores de livros por mais lindos que sejam... Também gosto de escrever nos livros minhas anotações de "viagem", como se assim eu fizesse parte daquela realidade. Gosto de livros de sebo, com dedicatórias para outras pessoas, marginálias de outros... costumo me interessar por isso e seguir as pistas... imagino as pessoas que o tiveram nas mãos antes de mim.

Carlos Eduardo Leal disse...

Elaine,
Muito bom isso de seguir as pegadas, dos livros, nos livros e re-fazer sua jornada. Como os leitores vivem atrás de boas dicas de leituras, me surpreendi favoravelmente com "Cartas a um jovem escritor" de Mario Vargas Llosa que terminei recentemente de ler. Ele dá ótimas sugestões de leituras e comentários muito bons sobre o ato da escrita. Já que você ama a leitura (e escreve também), faço aqui esta sugestão.
Abraços,
Carlos Eduardo
Ps|:É sempre um prazer revê-la por aqui nestas Veredas

Lu Andrade disse...

Oi Carlos,
A humanidade assumida, reiventada e metamorfoseada em realidades... Eu senti seu texto, me encantei, às vezes me identifiquei por mera presunção. Entrelaçou escrita e psicanálise e resgatou meu interesse em analogias. Esta atemporalidade que você afirma me fascina, me orienta. Obrigada pelas palavras tão tocantes a minha alma. Abraços saudosos.

Carlos Eduardo Leal disse...

Oi Lu,
Bom te ver por aqui de novo. Pois é, a atemporalidade do inconsciente muitas vezes pode ser a irrupção de um trauma, noutras pode servir para 'orientar'. Bom que estas palavras possam te orientar e não só você se orientar, como dizia a música de nosso ex-ministro Gil, pelo Cruzeiro do Sul (que também possui seu encanto nas noites estreladas).
bjs
Carlos Eduardo