quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Crise criativa

Escrevi alguns temas para desenvolver. Dei-lhes nomes, situações do cotidiano, outras inventadas, mas verdadeiras, verdadeiramente inventadas. Saí pelos campos atrás de uma boa história para escrever. Li muito, muitos romances. Alguns falavam sobre a natureza humana, outros sobre a decadência desta natureza, outro ainda, este mais recente, descrevia de maneira mística ou sobre a ótica do realismo fantástico, uma linda história de amor proibido, feitiçaria, possessão demoníaca do século XVIII e a paixão de um bispo pela jovem possessa. Mas tudo isso foi em vão. Acordava, vestia-me de algumas palavras, calçava outras, mas confesso, esvaziava os bolsos das emoções mais íntimas, mais ínfimas e caía prostrado, abatido, numa espécie de febre alucinatória. Os verbos, sempre eles, ou Ele, pois dizem que no início era o Verbo, faziam-me carne e, assim, deambulava por entre as alamedas de frases inconstantes. Se insistia na poesia, então o descalabro era pior: não achava uma rima rica, um ritmo decassílabo, ou pior, se insistisse nos sonetos eles não achavam a estrofe seguinte. Angustiado a mais não poder quis matar-me. Tentei furar meu olho com uma vírgula, mas ela me impediu transformando-se ligeiramente em reticências... Pulei do alto de um ponto de exclamação, mas ele inteligentemente inclinou-se num travessão / e acabei escorregando como um clown ladeira abaixo pelo meu próprio ego. Quis fazer do ponto de interrogação um obstáculo permanente para minhas dúvidas, mas ele, com escárnio em seus olhos, metamorfoseou-se em aspas e passei a citar alucinadamente meus autores preferidos, meu filmes prediletos. Solfejava algumas notas musicais e caminhava inconcluso entre o allegro ma non tropo e o vivace. Fui estudar ritmos diversos em busca de inspiração, mas só encontrei acordes dissonantes que desafinavam e desafiavam a minha criação.
Eu já estava ficando possesso com esta minha insuficiência para a vida quando de repente, sem mais nem porque, abriu-se um hiato entre o sujeito e o verbo. E, fiquei assim durante um longo tempo contemplando, contemplando, contemplando, quando então me dei conta que o que faltava em mim era você. Era você quem faltava se fazer carne diante do meu verbo indizível, impronunciável e intraduzível. Retirei toda a força dos meus últimos estertores e já quase sem respirar gritei aos quatro ventos pelo seu nome. Foi então que após um período demasiado longo você surgiu. Não-toda, é verdade, mas misteriosamente bela em seu interior para me trazer novamente a palavra paixão.

11 comentários:

Anne M. Moor disse...

Adorei teu texto... Me perdi nas alamedas das frases inconstantes... :-) Este teu texto vem vindo num fluir delicioso!!

Parabéns!

Abraços

MaRi_aNa disse...

lindo texto!
bjs
mari

Adriana Guedes disse...

Transformar uma crise numa criação dessas...é uma maravilha! Espero que outras crises venham!rsrsrs

Helena Figueiredo disse...

Passei aqui por sugestão do título do blog.
Li o primeiro texto e gostei muito.
A prosa é sem dúvida uma boa maneira de transmitir sentimentos e aqui está uma bela prova disso.
Saudações de Portugal
Helena

Carlos Eduardo Leal disse...

Helena,
Obrigado pelas suas palavras e por navegar por estas Veredas brasileiras (se bem que acho que a literatura é sempre universal). Seja sempre bem vinda do lado de cá do Atlântico.
Saudações em verde e amarelo,
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Obrigado por compartilhar neste fluir das ideias e das frases por vir,
Com carinho,
carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Oi Mariana,
Valeu por te ver aqui de novo na companhia destas veredas,
Bjs
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
Às vezes velhas crises ressuscitam como se fossem novas...rs
Bjs
C. Eduardo

Raquel disse...

Carlos, que beleza de crise.

Adorei a brincadeira com a falta de inspiração, assunto de conversa recente nossa... Realmente, apenas a paixão liberta nossas palavras contidas.

Beijos da sua leitora,
Raquel.

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
Falta de inspiração é o terror para quem cria. Só o humor, e às vezes um vinho, nos salva e nos faz retornar aos bons tempos em que arejávamos com muito suor a terra fértil.
Bj
C. Eduardo

Stella Tavares disse...

Escrever sobre a falta de inspiração trouxe um texto como este! Grande deleite para nós, seus leitores. Parabéns pela alquimia!
Bjs