domingo, 3 de maio de 2009

Busca

Você precisa de alguém. E isso basta. Você abre a porta da sua casa e sai pelo mundo para encontrar a pessoa dos seus sonhos. Somos uns sete bilhões e mais alguma coisa. Então, você pensa: vai ser fácil encontrar alguém com este mundaréu de gente esparramado pelas ruas, bares, hospitais, cinemas, teatros, museus, boates, estádios de futebol, igrejas, locais de trabalho, escolas...a lista é interminável. Caminhar é preciso ainda mais quando se está com fome, fome de amor. E você decide comprar um par de sapatos novos, pois mesmo achando que não será difícil, pode levar um pouco mais de tempo para encontrar a pessoa certa. Ainda por cima, chove. Intransitivamente chove e não há nada que você possa fazer com isso. Simplesmente chove e tem sido assim desde o princípio dos tempos. Não, você tem horror a guardachuva. Passa direto pelo camelô que insiste em querer te proteger. Você pensa que não é desta proteção que precisa, além do mais você adora sentir a chuva correndo sem metáforas pelo seu rosto. Isto te faz sentir melhor por que é do suor que você tem intolerância. Alergia, confessa. O único problema da chuva sem a devida  proteção é o óculos que embaça. Mas você não reclama. Quer deixar a chuva escorrer pelo seu corpo, assim como quer deixar a solidão desacompanhada de você. 
Então você caminha, caminha, caminha. E olha para tudo e para todos. Experimenta a vida. Prova a sua existência e sorri dos temperos exóticos ainda desconhecidos em sua maioria. Alguns lhe devolvem o olhar outros passam como se você fosse a inexistência que sempre lhe meteu medo. Existir e resistir parece que agora fazem parte de um vocabulário que só você possui as perguntas certas para as respostas por vir. 
Você compra um bilhete de cinema, outro de metrô, grava uma música, toca violoncelo em praça pública, brinca de bola de gude com algumas crianças num parque com poucas árvores, conserta computadores para executivos de uma multinacional, torna-se ajudante de administração de um salão de cabeleireiro de segunda categoria, faz grafites por ruas, muros e avenidas, escreve uma tese de pósgraduação em conforto ecológico ambiental, tritura papéis velhos numa gráfica, compra uma bicicleta e pedala até que as planícies desapareçam, embarca num navio como ajudante de cozinha e quando se dá conta de tudo que fez até então, percebe que está tão longe que não sabe mais o que você buscava. 
Quer gritar, mas já não sabe mais qual é a língua oficial do país em que você está. Será que seu pedido de socorro vai ser entendido fora daquele quarteirão que era seu domínio e segurança?
O medo agora parece correr junto com a palavra saudade. Quer pronunciá-la, mas já lhe faltam os nomes certos para acompanhá-la. O vizinho mais próximo da palavra saudade é a palavra amor. Lembra de tê-la pronunciado algumas vezes em sua vida, mas já não lembra em quais circunstâncias e nem dirigido a quem. Então decide voltar para reencontrar o amor perdido. E a cada passo de volta é também um passo rumo ao desencontro entre a palavra pensada e a palavra proferida. Quis esquecê-la, porém viu que era tarde demais para isso. Voltava para casa por uma estrada diferente. 'Vocês já repararam que a estrada pela qual a gente retorna para casa é sempre outra?' Com quem você dialogava na sua solidão? Estou falando com você. Com quem você dialogava neste seu retorno? Sou eu que estou te trazendo de volta. De volta para você mesmo. E você deslizava sentimentos, pequenos mimos literários pelas estações de trem pelas quais ia passando a cada retorno à gare que te recebia como quem regurgita das bocas que se abrem do trem outras infinidades de pessoas aos longo das horas dos dias e das estações de cada ano. 
Você foi longe demais nesta sua procura. Você achou que encontraria uma escala de valores, uma estatística ou um catálogo de pessoas disponíveis por sexo, idade, cor, covinha na bochecha esquerda, mãos inverossímeis e olhos tormentosos? Mas quem você pensa que é, ou pior, quem você acha que é a humanidade? Tudo menos ser inocente. Está descrente? É preciso ter fé. Está a ponto de desistir? É preciso recomeçar. Por isso te trago de volta para casa. Eu te conheço, à vezes é melhor se sentir seguro do que se sentir amado. Ora, você prefere um amor e uma vida insegura? Mas...
Pronto, agora você está bem perto da sua casa. Reconhece as árvores da sua rua, o vendedor de jornais, o açougueiro da esquina, o bêbado sempre caído no mesmo lugar? Você logo logo estará melhor. Amanhã você vai poder recomeçar seu dia, sua busca... 
Por que você não quer chegar em casa? Por que você resiste assim? Você está chorando? Como assim? Esta não é a sua casa? Esta não é a sua cidade? Mas como isso foi acontecer? Meu Deus, em que momento desastroso foi que me perdi de você? 


  

8 comentários:

Michelle Nicié disse...

As buscas parecem com um jogo de esconde-esconde. Algumas vezes quando encontramos o que estávamos buscando, não queremos mais, ou não daquele mesmo jeito que pensávamos no início. Outras vezes, esquecemos o que estávamos buscando, talvez não fosse de fato, tão importante assim, não é mesmo? Em certos casos, o que encontramos era mais surpreendente e bacana do que aquilo que buscávamos. São tantas os lugares, tantas cidades e lugarejos escondidos em nós... Nós mesmos somos tantos dentro de nós a buscar e a se perder, né?
bjs

Adriana Guedes disse...

Oi, Eduardo, adorei o texto e pensei:há muitas maneiras de partir, de se perder, de querer se perder, de buscar...mas encontrar o amor é singular. E não há como não reconhecê-lo! Ele fica grandão diante de nós e passa a ser ali a nossa casa.
Lindo texto!
Abraço,
Adriana.

virginia disse...

lindo texto!
penso que a busca se torna desastrosa qdo preferimos a vida (in)segura e não o amor, acho que por isso, buscamos sempre, afinal, o que é a vida sem amor?? e o q é uma vida segura?? não seria insegura sem o amor??
é isso!!
bjo gde,
Vi

mi menor disse...

difícil é lidar com a idéia de o amor não ser nunca um dado, algo que está lá e pronto.
a sua espera, feito para você, que um dia você vai olhar e... fiat lux, eureka.
tecendo encontros e desencontros, a impressão é que uma hora encaixa. sua admiração palpita, sua tolerância se alarga, e você percebe que aquela pessoa não foi feita pra você nem você pra ela e que a necessidade de encontrar alguém fez com que suas angústias se compatibilizassem.
ah o verdadeiro amor..
ah o cinema..
mas há também a poesia do erro, daquilo que parece menos belo que sublime, que te toma de você mesmo e faz até você acreditar que vocês foram feitos um para o outro. essa é, sem dúvida, a melhor parte.


muito lindo seu texto. voltarei mais vezes.
ah, e eu também as vezes arrisco escrever umas palavrinhas em : mi-menor.blogspot.com

beijos com amor
sua sobrinha
natália.

Carlos Eduardo Leal disse...

Querida Natália,
Adorei tb seu texto, principalmente sobre a "poesia do erro". Há aí algo que se faz mistério e, por isso, talvez se torne mais belo. O encontro com o mistério trama outras linhas do coração que parece então se perder deliciosamente nas malhas do outro para depois se achar tão distante de si mesmo que te faz restaurar belezas que se acreditavam perdidas.
bjs do tio que tb te ama muito. Vou lá visitar sua palavra-música em mi-menor.

Anne M. Moor disse...

Que texto magnífico Carlos Eduardo!!!
A vida é uma longa caminhada de ir e vir, de se perder e de se achar, de saber o que se quer e em seguida esquecer...
O amor tem lá seus meandros, mas a única certeza é de que sem amor não se vive, se existe...

Beijos

Silvia disse...

Tu me fizeste lembrar Proust num viés ainda mais intimista. Parece-me que falar de amor é um óbvio que se esconde num caleidoscópio. É a eterna procura.

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Obrigado pelas suas palavras que também traduzem este indizível que é o amor.
E, tomando de empréstimo a sua palavra final, retomo Caetano: "Existirmos, a quem será que se destina?"
Bjs :)

Silvia,
A imagem do caleidoscópio é belíssima e...inspiradora. Obrigado. Talvez seja um próximo texto.
Bjs :)