domingo, 24 de maio de 2009

Bumerangue

Bumerangue

Entre as omoplatas, via-se-lhe um naco pontiagudo, disforme, protuberância nodosa rosa-via-lacteo perfumado de cera de abelhas de eucalipto vergado ao vento sul. Fez-se mel e deixou escorrer pelo dorso nu com a certeza da esperança de que as antigas asas ressuscitassem o anjo adormecido. Outros vieram ver o antigo procedimento testado com sucesso desde antes da primeira Queda. Uma revoada em turbilhão anoiteceu sobre o decaído. Neste mesmo átimo do instante inaugural, um hálito frio resvalou como uma andorinha resvala subitamente contra a corrente de vento espiralando poeiras cósmicas translúcidas com leves indicações de um alaranjado sobre azul carmim. A partir de este estalar de línguas, alguns animais passaram a existir. Ainda não havia nomes prometidos para eles, mas o haver descortinava-se como se fosse a única coisa a se fazer até então. Nasceram porque era imperioso desvencilhar-se das penas encharcadas de promessas sem função. Então, melhor que batessem asas numa direção qualquer a ficarem enterrados sob as palavras ainda não proferidas. Lançaram-se num vácuo de ideias, cogitus interruptus, dir-se-ia milhões de anos avante àquele átomo de tempo primevo. Sem a proteção das palavras ainda não nascidas, corria-se todo o risco conhecido até então: tornarem-se sombras difusas, contornos mal definidos ao cair da tarde, vulto de animal por detrás da neblina no nascer do dia ou, o que era pior, mergulho eterno na caverna da noite sem lua. Vagidos incompreensíveis soaram como se a tristeza acabasse de ter sido inaugurada, mas era só o que não tinha nome que rastejava por entre corpos com os olhos ainda não despertos. Um movimento atônito, deambulante, parecia querer sair por entre aquelas omoplatas. Regou-se-lhe novamente com uma porção devotamente maior de mel que a esta altura recendia para além de todas as fronteiras e limites conhecidos. Se ainda o voo estava sonambúlico era só porque as palavras eram poucas, voltou-se a dizer, parcas para efetuar o destino concedido. Alguns se arvoraram a tê-las antecipadamente ou imerecidamente de acordo com o desalento sentido. Desamparo veio antes de desalento – agora se sabe - e, com isso, inaugurou-se o que se acostumou a ser designado como voz sem som, olhar sem visão, mão trêmula que jamais conhecerá outra. Era o vazio rodeado por camadas inabitáveis do desconforto atópico. Perseverança foi uma palavra que veio depois, depois da sexta tentativa fracassada de produzir entre aquelas omoplatas o ressurgimento das asas-sem-queda. Tudo que sempre se fez foi lançar letras para que elas ao tropeçarem umas nas outras formassem palavras-frases que elevassem a cópula a um nível de entendimento e infinitas possibilidades: neologismo era apenas uma pequenina fração do mel derramado sobre o não nascido. Mas este foi o mel regado mais uma vez sobre aquela protuberância para que de certas mãos escorressem a novidade anunciada. Assim, lançou-se sobre os não-nomeados a razão por vir, mas as palavras escorregaram profundos sentimentos, dores da partida indesejada, privações mal solfejadas, acordes inaudíveis, traições tempestuosas como já acontecia noutras inóspitas regiões, paixões descalças de firmamento e amores-apaixonados, lúdicos na mais bela desrazão do viver. Tudo num único dia e ainda tendo a promessa anunciada de retornar com a asa àquele ser adormecido. Para sempre. Para sempre? Não se teria dito este ‘sempre’ se soubesse o que seria antecipadamente esta doença da eternidade na cabeça dos ainda não nominados. Antes dever-se-ia tê-los instruído satisfatoriamente sobre o tempo do regozijo, o tempo da dor, o tempo da saudade, o tempo da aprendizagem e o tempo incompreensível que de todos é o mais importante, pois data o tempo do amor. Disto resultou uma Babel de tangências e infinitizações nos desamparos não concedidos, mas impossíveis de evitar. Por exemplo, nunca foi possível explicar que nem sempre os opostos são contraditórios, mas muitas vezes complementares ao mel que adoça o voo de uma abelha já em desuso. Uma enorme revoada se fez e ainda não era a manhã do outro dia. Percebeu-se que as coisas deviam seguir um caminho ainda incompleto, não concedido ou não totalmente pensado. Os voos fugiam ao controle do vento, pois as asas tornavam-se mais e mais singulares seguindo o rumo do sêmen primordial. Três pequenos rios e ainda um número imperfeito de árvores e outros imprecisos animais selavam as condições para a manjedoura alimentícia do saber em curso para sempre igualmente incompleto e para sempre igualmente buscado. Era esta a ideia do temporariamente infinito que ficou para sempre incompreensível. Eternidade no presente, diz-se. Mas a protuberância entre as omoplatas não vingou asas, antes, temor sobre a sombra do futuro com os olhos embaçados sobre o passado. Secou por completo as evidências de outrora. Levantou-se com dificuldade e, pela primeira vez, deambulou satisfeito por entre outros olhos, divinamente doces, misteriosamente cativantes, enigmáticos para todo o sempre, que a cada passo retribuía-lhe femininamente, tal como um bumerangue em sua elipse, a insistência da recém-inaugurada palavra paixão.           

26 comentários:

Anne disse...

Carlos Eduardo,
Êta viagem este teu texto de tantas leituras... Agora, sem tempo, mas volto, só digo que as asas do amor que se criaram tem vontade própria...

Volto. Beijos

Carlos Eduardo Leal disse...

Oi Anne,
Parodiando o Pessoa, "viajar é preciso", viver não é preciso. Impreciso também é o amor. Dar asas ao amor é ter a liberdade da escolha...vontade própria.
bjs e retorne,
C. Eduardo

Adriana Guedes disse...

Que texto visceral, Eduardo! A paixão vista como desamparo, mel, palavra...
Lindo!
Abraço e parabéns pela beleza,
Adriana.

Carlos Eduardo Leal disse...

Adriana,
No início foi o amor, e ele se fez carne e da carne, palavras. Como não querê-lo (comê-lo) em sua visceralidade?
Bjs
Eduardo

Michelle disse...

Oi Carlos Eduardo,

bom ouvir os sons/tons dessa aventura rosa-via-lacteo percorrida pelas suas palavras de carne e mel.
beijos
Michelle

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle,
Um escritor também se faz de bons leitores. Obrigado pela sua leitura sempre atenta, sensível...
Bjs
Carlos Eduardo

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo,
Amor, paixão... Um que aparece do nada sem pedir licença, instala-se e remexa com vidas. O outro explode provocado por lá sei eu o quê (Porque este e não aquele lá no meu blog). Os dois deliciosos elementos do viver...
Adorei teu texto!
Beijos

claudiarreina disse...
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claudiarreina disse...
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Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
É verdade, amor e paixão são mel e palavra, adocica e lavra: a vida, a alma, o sangue, o coração que fica assim intumescido pela paixão. Tesão pela vida.
C. Eduardo

claudiarreina disse...
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Silvia disse...

Parole, parole, parole...jorram de ti como de uma fonte de águas termais: quentes, cristalinas, aguilhoantes. Ufffff, que fôlego!

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Sinto te decepcionar, pois muitas vezes elas (as palavras) chegam para mim cheirando a enxofre azedo, ou se me apresentam sujas, encardidas, trôpegas, decaídas ao chão, mas nem por isso tenho menos amor por estas do que pelas cristalinas. Adorei teu comentário. Volte sempre. Aliás, em certas ocasiões estas termais estão tão quentes que me queimam a vista e a alma só de olhá-las e/ou tocá-las.
Bjs
Carlos Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Silvia,
Quis dizer que às vezes é muito sofrido escrever. Dor que transborda em palavras. Que vc as veja cristalinas são realmente uma dádiva para mim.
Bjs

Anne M. Moor disse...

E as vezes o sofrer faz brotar as palavras que se alinham sozinhas na 'folha'...

Beijos aos dois

Carlos Eduardo Leal disse...

...nas folhas das folhas da relva, diria Walt Whitman.
bjs

Rosa Maria disse...

Oi Carlos Eduardo,
Já estive aqui várias vezes, e li e reli este Bumerangue, denso e metafórico. Em todas, senti as palavras desse teu belo texto irromperem, e, como asas abortadas, me projetarem para dentro de mim. Muito estranho mesmo...
Ah, comprei na Livraria Cultura O NÓ Górdio, e me preparo para lê-lo. Não encontrei, entretanto, a tua poesia. Onde posso ter acesso a ela? Obrigada, e um grande abraço.
RM

Renata disse...

Que turbilhão este seu texto. Me fez "viajar" um bocado.
Estou conhecendo seu blog agora e realmente adorei. É maravilhoso como voce domina as palavras e as transmite com sabor. E muito sabor.
Abraços,
Renata

Carlos Eduardo Leal disse...

Olá Rosa,
Bela e sensível também é sua leitura a ponto de capturar a ideia das "asas abortadas". Linda imagem!
Quanto às minhas poesias, se você se interessar entre em contato comigo: celeal01@gmail.com que vejo como meus livros podem chegar até você.
Abraços,e por falar neles, leia minha crítica literária de hoje "abraçando palavras" (sobre O livro dos abraços do Eduardo Galeano) em www.oglobo.globo.com/rio/bairros/bety

Carlos Eduardo Leal disse...

Olá Renata,
Seja super bem vinda! Muito bom poder compartilhar este 'turbilhão' de sentimentos extraviados pelas palavras com você.
Volte sempre,
Com carinho,
Carlos Eduardo

Rosa Maria disse...

Carlos Eduardo,
Do "abraçando palavras", conhecia o texto sobre o menino a contemplar, com o pai, o mar... O Galeano é ótimo, como tão gostosa a crítica que fizeste que já comprei o livro, já na minha pilha na mesa de cabeceira, a me esperar! :)))
Obrigada mais uma vez.
Rosa

Carlos Eduardo Leal disse...

Rosa,
Sempre temos um livro de cabeceira. O problema é que sempre temos uma única cabeceira para tantos livros que queremos ter na cabeça.
abraços,
C. Eduardo
Ps: Lá no blog da Bety Orsini escrevo de 15/15 dias. Em geral a crítica literária é postada aos sábados.

Vinícius de Oliveira disse...

Assombroso. Ao terminar de ler o texto esta foi a palavra que emergiu. Um assombroso relato da Criação, segundo Carlos Eduardo. Parabéns.

Carlos Eduardo Leal disse...

Vinícius,
Obrigado pela sua leitura sensível e inteligente. E na verdade, nós não estamos sempre nos recriando?
Grande abraço,
Carlos Eduardo

apuraessenciadoser disse...

"Assim, lançou-se sobre os não-nomeados a razão por vir, mas as palavras escorregaram profundos sentimentos, dores da partida indesejada, privações mal solfejadas, acordes inaudíveis, traições tempestuosas como já acontecia noutras inóspitas regiões, paixões descalças de firmamento e amores-apaixonados, lúdicos na mais bela desrazão do viver."

Carlos,

A eternidade vive intensamente as imprecisões de tempo, ocupando ao mesmo tempo lugar no espaço, desocupado posteriormente por quem a viveu. Beleza essa que deita, levanta e aflora incessantemente no cansaço da vida.

=)

Beijos,
Raquel.

Carlos Eduardo Leal disse...

Raquel,
Quem colhe palavras, semeia sentimentos (através de outras palavras). Obrigado pelas suas palavras reverberarem sobre as minhas e relançarem mais além, o indizível do viver.
Bjs
CEL