sexta-feira, 8 de maio de 2009

Os olhos de Bia

Era uma vez uma menina que gostava de olhar pela janela da sua pequena casa. Era uma casa feita com muita imaginação e poesia. Mas não a sua janela. Ah, isso não. Ela era real como o seu vestido de nuvem azul. Mas da janela ela espiava o mundo. E não havia fronteira que pudesse deter o alcance dos seus olhos que eram um verdadeiro passaporte para o mundo. Eles eram vivos como uma abelha travessa que ziguezagueia por entre as flores desenhando um oitoinfinito. De sua janela ela via até a muralha da China, mas se alguém se admirava com este feito, Bia (ah, era este o seu nome) logo exclamava: "mas até da lua já viram a muralha da china. Não vejo vantagem nenhuma que eu consiga vê-la daqui." E Bia não parava por aí. Olhava com surpresa e admiração o Alaska gelado e se maravilhava com as focas rolando dengosas ao sol e mergulhando ligeiras sob a aurora boreal. Debruçou-se um pouco mais para ver um girassol que capturava raios solares por detrás de uma manada de búfalos na ilha de Marajó. Ficou encantada com uma ventania que dobrava bambuzais no Japão. Reverência nipônica entre humanos já tinha ouvido falar, mas entre dois elementos da natureza era a primeira vez. Riu de se debulhar em lágrimas com dois esquilos brigando por uma noz numa floresta na Irlanda. Noutro dia chorou muito ao ver um filhote de joaninha perdido da sua mãe dentro da floresta da Tailândia. E ficou igualmnte chocada ao ver uma tourada sanguinária em Madri. Disse para si mesma que nunca mais olharia naquela direção. Bia era extremamente decidida. Quando ela decidia ver alguma coisa, nada ou ninguém a impedia. Assim, nada escapava aos seus olhinhos ligeiros como qualquer outro bichinho arisco que vocês queiram pensar.

Sua mãe fechava a janela todos os dias às seis horas da tarde. Dizia que era por causa dos mosquitos. Na verdade, sua mãe Miríades, queria companhia para rezarem juntas a Ave Maria. 

Certa noite Bia teve um sonho. Sonhava que de noite, mas muito de noite mesmo, abria escondida a janela do seu quarto para olhar as estrelas. E começou a olhar detalhadamente as estrelas e viu que elas eram mesmo feitas de uma esponja branca-prateada macia e cintilante. Mas, de repente, seus olhos brilharam mais do que todas as estrelas reunidas numa única galáxia. Então, Bia abriu bem seus olhinhos e viu que um menino do outro lado da calçada olhava apaixonadamente para ela. 

Uns dizem que ela virou uma estrela, outros que ela simplesmente pulou a janela.

  

17 comentários:

Adriana Guedes disse...

Essa história da Bia bem que poderia virar um belo livro de literatura infantil!
Adorei!!!!!
Abraço
Adriana.

mi menor disse...

lindo, lindo demais!!
beijos
natália.

Michelle Nicié disse...

hahaha!!!
espertinha a Bia, não!?
pra mim, ela pulou a janela e virou estrela, rs. afinal, uma coisa não exclui necessariamente a outra.
bjs

Carlos Eduardo Leal disse...

Michelle,
Vc tem razão, uma coisa não exclui a outra.rs.
Cláudia,
Também é verdade, o amor não conhece fronteiras, principalmente quando os olhinhos (das Bias e dos meninos do mundo) ficam cegos de paixão.
Adriana,
É preciso ter a Alma Maior para se fazer um livro infantil. Dias destes, quando for bem velhinho, eu faço...rs
Mi menor,
Deixei um comentário lá na sua "janela"
bjs

Anne M. Moor disse...

Os encantos da lua são misteriosos e mágicos ao mesmo tempo. Ah, a lua...

Abraços

Rosa Maria disse...

Carlos Eduardo,
O texto veio direto ao meu coração! Amei essa Bia, com "olhos de ver", que devem tê-la feito atravessar a rua e ir ao encontro do menino, transformada em estrela! :)))
Parabéns e um grande abraço.
Rosa

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Acredito, desde o Visconde de Sabugosa (na verdade foi ele quem me contou),que as palavras que nos faltam estão todas elas na lua. Por isso talvez seja instrutivo para nós escritores andarmos de vez em quando no mundo da lua. Lá se guardam muitos mistérios e outras invencionices.
Obrigado pela visita aqui no blog, volte sempre.
C. Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Rosa,
Haverá sempre uma outra rua para se atravessar, uma nova janela para se pular e outros olhos para se perder...de amor.
Abraços,
C. Eduardo

Silvia disse...

Carlos Eduardo.
Que a lua é dos namorados nós já sabíamos, que ela é também dos escritores me chegou cintilando tal qual as estrelas que tanto amo. Pois se a gorda senhora até se veste de nova para abrir espaço para minhas noturnas contemplações !!!

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo,
Depindurados na ponta da lua a observar 'os mistérios da vida e outras invencionices...'

Beijo :-)

Carlos Eduardo Leal disse...

Certa vez escrevi assim o final de uma poesia num livro que se chama Fragmenta: Lua nua cheia nova/
Teu vestido se foi ao vento
Mas lua, repara/
Olha agora,
As estrelas no firmamento.

Silvia, bom te ver por aqui com suas sazonalidades lunares. Volte sempre.
Com carinho,
C. Eduardo

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne e Silvia,
Obrigado pelo carinho "do sul até aqui", pelos "seguimentos" no blog. A literatura nos entrelaça e as palavras vão tecendo outras veredas.
Bjs :)

Anne M. Moor disse...

É um prazer estar em tua casa. Eu escrevi um poema chamado "Casulo" http://anne-lifeliving.blogspot.com/2009/05/casulo.html

que fala das 'buscas' do teu outro texto...

Silvia disse...

Veredas sempre me acompanharam e acompanham, geográficas e sentimentais. AINDA NÃO HAVIA ME DADO CONTA DAS LITERÁRIAS.....

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne,
Lindo o "Casulo". Adorei!
Bjs
Silvia,
Mas não sei se fui eu quem achei a literatura ou se foi ela quem me achou nas veredas da vida...

Renata Vilanova disse...

Da janela se vê ao longe, e se vai longe... mas dá vontade de pular, e sair por aí. Me sinto meio Bia e algumas imagens ficaram formigando aqui na caçarola. É livro de Narizinho, de menina que mergulha no Reino das Águas Claras, e no fim, Lobato, que na primeira versão havia colocado "e tudo não passou de um sonho", retirou esta frase pra deixar a gente continuar a narrativa. Como aqui, fico imaginando Bia meio estrela do mar, como a música antiga.

Carlos Eduardo Leal disse...

Renata,
Há muito de Monteiro Lobato em mim. Visitei muitas vezes aquele sitio. Devorava aquelas páginas e sonhava com pós de pirlimpimpim e as cucas, os trabalhos de Hércules, a fantástica Emília, etc.
Percebo que há muito de você neste sitio tb.
Bjs
CEL