sábado, 20 de outubro de 2012

Resposta ao Drummond



Não se mate

Não se mate Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, pra quê.
Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

(Carlos Drummond de Andrade)


Resposta ao Carlos Drummond

Querido Drummond, não se preocupe, pois hoje não me matarei. 
O amor que se sossegue em outro lugar, pois em mim desassossega, desaloja e atordoa. 
O beijo veio num domingo sem missa e entrou no contrabando do meu coração. O amor deixou um rastro sem pistas e o grito ficou parado no ar. Não rezou: Ave, Carlos. Ficou em santo pecado. 
Não há a possibilidade do luto, nem da luta. A morte escorre, Drummond, nas melancolias e na sorte que abole o acaso. Mas, não se preocupe 
poeta, hoje não haverá morte. Pois não há uma segunda morte: a morte é um crime contra a morte. 


Não, Drummond. Os pássaros cantarão amanhã. É verdade que hoje eles adormeceram em pleno voo, mas não se preocupe porque eles resguardaram sob suas asas as palavras que não pude dizer. 


Se tivesse dito aí sim seria inevitável o manto da noite: capa negra sem rosto. Véu de foice. 


Poeta, eu te peço perdão por também ser Carlos, mas hoje não haverá a falta da vida. 


Hoje, vivo: dúvida.


Amanhã, respiro: saudade


Depois, ultimato: suspiro.

6 comentários:

Anne M. Moor disse...

Carlos Eduardo!

Que lindo... o poema do Drummond e a tua resposta. Gostei muito de:
"Os pássaros cantarão amanhã. É verdade que hoje eles adormeceram em pleno voo, mas não se preocupe porque eles resguardaram sob suas asas as palavras que não pude dizer."

Estou de volta aos blogs e fechei minha conta no FB. Aparece. :-)

bjs
Anne

:: mar.cele linha.res disse...

de carlos para carlos...

uma das minhas poesias preferidas do drummond

uma sensibilidade imensa em respondê-la a altura

meu medo [da morte, do amor e das respostas] é tão grande que nem me atrevo...

um beijo,

Carlos Eduardo Leal disse...

Anne M. Moor,
Obrigado pelo carinho de sempre das tuas palavras.
Voltarei ao teu blog sim.
Bjs
CEL

Carlos Eduardo Leal disse...

Marcele,
Imagina, à altura do meu gauche Carlos. Só o nome, só o nome. bjs

Silvia King Jeck disse...

Oi Carlos Esduardo. estou de volta após longa ausência, até para te dizer que não é só o nome não! Perfeita simbiose na resposta. Aguardamos mais do gênero. Bjo, Silvia

Mônica Moreira Senra disse...

"Hoje, vivo: dúvida.


Amanhã, respiro: saudade


Depois, ultimato: suspiro."

Bonito! Digo: agora sorrio.

Abraço,

M.