terça-feira, 15 de maio de 2012



 A SUICIDA


Acordei assustada com a buzina do caminhão debaixo da minha janela. Aquilo parecia um rouco grito de socorro. Mais assustada fiquei quando percebi que aquele era o meu grito e não havia mais ninguém na casa. Eu gritara como há muito tempo não fazia. Meu travesseiro retraiu amarrotado sob minha nuca. Ele também ouvira a minha perturbação? O caminhão de lixo seguiu seu trajeto despejando a fumaça quotidiana que ardia em meus olhos todas as manhãs. Eu havia sonhado com aquele grito ou realmente havia gritado? Andei tonta até a cozinha e enquanto colocava a água do café para esquentar fui até ao banheiro e me olhei no espelho. Olhei o que não deveria olhar. Olhei e me vi. Estava quase sem batom, sem perfume e com os cabelos tal como a vida: desalinhados. Olhei e tive repulsa do que vi. Olhei a vida desperdiçada entre paixões mal resolvidas e arroubos de noitadas tentando salvar-me: baseados e muito álcool não eram suficientes. Vi que era tarde para isso. Muito tarde. Então, que eu não me salvasse. Naquela manhã soube que era tarde para me salvar. Salvar de mim mesma. Essa ideia se apoderou de todo o banheiro e a palavra salvação parecia que escorria como uma cachoeira fria do chuveiro pra o ralo. Tentei achar um motivo para a vida e o espelho embaçou com meu hálito sem memória. Eu havia bebido muito na festa da noite anterior. Festa que inaugurou mais um período que eu já sabia no que se converteria: um rio caudaloso de desamparos e inconstâncias. Pedro tinha outra. Aquele cafajeste, aquele lindo e detestável cafajeste tinha outra. Seu puto! Xinguei-o e a mim mesma, porque a palavra retornou do espelho como uma flecha sobre meus olhos borrados e lacrimejantes. Canalha! E deixei-me escorrer sobre aquela fria imagem e sem piedade beijei-me embaçada. Beijei-me com o resto encardido do batom que ainda continha o cheiro dele. Puto! Safado! Não deveria sobrar nem mais um minuto na minha memória a lembrança daquelas mãos ossudas e fortes pousadas nas ancas daquela safada. Puto! Mil vezes puto!
Na cozinha a chaleira apitava como uma locomotiva que tenta avisar ao morto para que ele saia de cima da linha. Eu já estava morta. Aquilo era apenas a constatação da minha morte. Iria acelerá-la. Iria acelerar o término da minha partitura. Nunca mais tocaria piano. Minha música havia acabado. Não conseguia mais compor. A criatividade já não produzia mais filhos. Meu ventre seco não suportaria a inseminação de outra vida artificial. Todos os homens que tive foram fruto de uma inseminação - artificial como uma exposição de taxonomia. Agora, era eu que estava seca, empalhada pela vida. Tive ódio de mim mesma. E dele, muito ódio dele. Meus cabelos estavam ressecados pela fumaça dos cigarros que me consumiam. Minha pele havia perdido o glamour. A chaleira continuava a me irritar como querendo me visar do mal maior. Mas que mal maior poderia haver do que continuar a fingir ser uma outra que não eu mesma. Talvez tivesse chance como outra fulana, outra morta. Ela gritava o grito surdo da minha morte. Sairia da vida e passaria à história: matou-se por causa de um cafajeste. Esta manchete serviria para me manter no limbo por um tempo suficiente. Não queria os céus e tinha medo do inferno. No primeiro caso, sempre achei o céu extremamente enfadonho, redondinho de nuvens brancas, com anjinhos com cachos dourados. A não ser nos dias de temporais. Aí sim ele se comportava como eu achava que ele deveria ser: majestoso, tenebroso e imponente.  Quanto ao inferno, já disse: tinha medo, mas o amava. Sempre, desde pequenina, tive medo de inferno e baratas. E, de mais a mais, meu inferno já era aqui na Terra. O limbo deveria ser um lugar para ser esquecida. Perfeito para uma memória estropiada por péssimas lembranças. A chaleira tremeluzia inconstante em seus apitos finais. Estava estrebuchando com uma faca enfiada em seu bico. Não iria resistir muito. Nem eu. Quando ela interrompesse sua cantilena eu também interromperia a minha. Questão de afinidade com quem muitas vezes me salvou do ridículo do dia por vencer. Era só esperar mais alguns goles d´água sorvidos pelo calor do bico de gás. Agora, estava vencida e queria compartilhar este escárnio com a chaleira. Morte. Morte e vapor. Eu estava matando a chaleira e iria em seguida me suicidar. Silêncio. Só fui trocar de roupa para parecer menos imbecil. Sair à rua para me jogar da ponte de camisola? De jeito nenhum. Nós mulheres fazemos coisas que nem entendemos, como este meu último ato. Pensei em passar o batom. Sair sem batom? Nem pensar. E lembrei que ia sair para me suicidar. Não precisava do batom. Jogar-me da ponte faria com que minha cara fosse encontrada rio abaixo toda inchada mesmo. Branca e inchada como uma porca morta. Eu estava pronta para o meu sacrifício. Iria me imolar. Eurídice, sua idiota, você vai se suicidar. Ande logo criatura! Peguei minha calcinha branca com lacinho cor-de-rosa (Pedro gostava tanto dela), meia, calça jeans, camiseta estampada dada pela minha última sogra (iria também matar um pouco dela comigo), tênis e, não sei por que, prendi meus cabelos com um lenço branco.
O rio sob a ponte não era muito caudaloso, mas a altura do vão central até a água era suficiente para um fim previsto. Não fui me arrastando até a cabeceira da ponte. Fui altivamente arrastada até lá. Quem me visse passando não acreditaria que eu era uma suicida. No máximo diriam: ‘olha aquela mulher, parece que se esqueceu de sair com sua bolsa! Que louca? Tá querendo morrer?’ Qual mulher em sua mais perfeita sanidade sai sem bolsa? Isso poderia ser um indício para algum olhar mais atento sobre uma mulher com a vida por um fio. Melhor, sem fio. Mas, quem me olhava sob a suspeita de um suicídio? Eu não queria exatamente isso? Acabar com os falsos olhares, os olhares hipócritas que se deitavam na minha cama dia após dia, noite após noite e faziam sexo e usavam a suntuosidade do meu corpo e depois sumiam entre minhas coxas e os prédios? E eu a levantar cedo, colocar água na chaleira, esperá-la apitar e fazer o maldito café para dois. Meu corpo esfriava como um casaco esquecido no fim de uma festa em profundo alinhamento com minha alma que se abrasava de um fogo frio, gelado, que nada mais parecia aquecê-la.   
A velha ponte ainda passava carros embora o grande volume de veículos tivesse sido transferido para a ponte nova. Estava a dois passos do vão central, aquele que separaria em definitivo a dor pelo silêncio, o cansaço pelo vôo sem volta. Foi quando vi, num relance, a silhueta do Pedro dentro de um ônibus que cruzava a outra cabeceira da ponte. Era ele mesmo? Ou era seu fantasma a me perseguir? Não existem milhares de silhuetas que acabam ferindo a percepção e distorcendo os sentidos comuns das coisas? Eu já estava distorcida por aquele homem. E não havia mais volta. Quem já sentiu isso sabe muito bem do que estou falando. Tudo gira ao redor daquele soberano, príncipe maldito. Lacaio da minha própria sorte. Estava zonza, tonta e bêbada de algum fiapo de esperança. Que coisa mais ridícula, pensei. Mas ainda assim foi inevitável. Inevitável porque a vida não pede explicações à morte. A vida pede explicações à própria vida e para ela, zero. Para ela eu não tinha como estar à altura de uma nuvem e permanecer incólume aos passantes. O vento não quis me empurrar com seu cheiro de outono quando tudo cai. Azar, pensei. Azar sofrido, mas ainda assim azar. O que poderia acontecer mais em minha vida?
Voltei apressada, correndo para casa. Passei um batom, peguei a minha bolsa e fui que nem uma louca (e eu não era?) por entre as ruas esguias da cidade, atrás da sombra densa da minha paixão. Uma silhueta. E isto não é o bastante para iniciarmos um dia? Dane-se a morte. Ela que me espere até amanhã de manhã. Amanhã vou acordar sem batom e sem o seu cheiro. Dane-se a morte. Hoje eu a matei. Ela, se tiver coragem, que me espere amanhã bem cedinho no vau do rio, embaixo da ponte. Se ela não falhar eu também não falharei. O Pedro que se foda!

3 comentários:

Leitores do Mira disse...

Vontade de matar e morrer. O amor faz isso com a gente!
Adorei o texto!
Bj
Adri.

Valéria disse...

A arte de (bem) dizer...uma coisa rara. O que seria da vida sem a poesia. O mundo não vem pra nós. O mundo vem de nós.

Abraços Edu,
Valéria

Rajana Su disse...

Excelente!!!

É um acontecimento não raro na vida de muitas pessoas ,nos momentos de grande decepção,a arte é essa:
Saber transmitir os sentimentos.
Parabéns!