sexta-feira, 18 de maio de 2012



A palavra saudade

"Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida." Mia Couto - Antes de nascer o mundo. 

Quando eu ainda pouco sabia da vida o meu avô se foi. Não era a primeira vez que ia. Já havia ido diversas vezes. Morrer é o que ele bem sabia fazer. Acho que nunca o alcancei. Ele estava sempre alguns passos à minha frente, quer por sabedoria ou conversa com os bichos. Meu avô era dado a conversar com plantas. Principalmente no alvorecer do dia em seu sítio. Ele acordava os netos atirando caroços de milho pela janela. Só agora penso que éramos seus pintinhos. Mas era minha bisavó quem jogava as pepitas de ouro no terreiro. Ao escutarem o chamado da bisa, de um arvoredo próximo, os galhos se sacudiam em alvoroço de algazarra e elas vinham tresloucadas bicar o chão empoeirado. Meu avô nos chamava cedinho. Eu sempre fui encantado com sua infinita sabedoria de homem simples, mais afeito à rolinhas do que a cabos elétricos para anunciar a chuva. Eu, de um pulo, iniciava a minha caminhada em direção ao curral para tirar leite de vaca. Meu avô também sabia conversar com elas. Havia a Mimosa, a Malhada, a Laranja, a mais brava, mas que nunca deixou de lhe responder com apreço, educação e um leite farto, vigoroso, isento da maldita brucelose. E com outras tantas ele falava: tantas outras com seus estrumes, mugidos e olhos esbugalhados. Tenho certeza que elas respondiam ao meu olhar, mas ainda não muito ao meu chamado. Era muito pequeno para vacas. Desde cedo também aprendi com ele a linguagem dos seres que não falavam a nossa língua: begônias, lírios do campo, mariposas, lagartixas, tanajuras, joaninhas vermelhas com bolinhas pretas, sapos-martelo, caracóis de açude, grilos, goiaba com bicho (as brancas tem sempre mais do que as vermelhas), girinos, taioba, facão de cortar cana, laranja lima, tangerina (você pode principalmente conversar com as mexericas, são mais femininas, mexeriqueiras), pasto depois da chuva, abil, cajá e jamelão, ah, principalmente jamelão que põe nódoa roxa em roupa de toda criança. Com estas eu gostava muito de conversar, principalmente quando estavam no meu bolso. Eu criançava na linguagem com estes e muitos outros, infinitos outros seres iluminados pelas conversas do meu avô.
À noite, os pirilampos eram estrelas cadentes, candentes que o meu avô mandava acender para iluminar o que não havia. O que havia era temor de fantasmas. Mas ele nos sossegava contando histórias ainda mais fantasmagóricas. No fundo da noite, todos os seres elementais aprumavam as garras em direção à minha cama. Encolhia embaixo dos lençóis, fechava os olhos e pensava na bravura de meu avô que dizia já ter enfrentado ninho de vespas africanas. Zás! Elas voavam e ele as cortava ao meio com suas histórias encantadas. Era magia de encantamento de criança. A saudade avoenga ajuda a não inventar. Mentira, por verdade, como diz Rosa.
Ainda hoje, quando sinto saudade dele, entro na mata e fico ali por horas seguidas. Perdi um pouco da fluência de falar com os bichos e as plantas. Mas é como andar no escuro de olhos fechados, com a prática os descaminhos se encaminham. Por sorte, eles acabam lembrando-se de mim e logo puxam conversa atirando a solidão para a outra margem do rio.
Assim, de mansinho como rio antes de temporal, meu avô tem aparecido, encantado nas palavras. Sei que de tudo ele fazia troça, e ria alto da minha insciência de menino, mas sempre tinha um ensinamento para cada galho retorcido da vida. Ele já me apareceu como um bem-te-vi, um curió, um trinca-ferro, uma mangueira (neste dia precisava de amparo e acolhimento: apareceu frondoso), uma névoa matinal, aliás, sobre isto ele sempre dizia: 'serração baixa, sol que racha'. Em seu mundo não havia fronteiras. Seu mundo era maior do que o universo. Talvez ainda maior do que o maior eucalipto que minha vista de criança alcançava. Deitava no chão de barriga para cima a espiar o infinito azul por entre os altos verdes. Foi meu avô que me ensinou a vida. Não-toda de uma vez, mas aos goles, entre uma ventania e um passeio a cavalo. Ensinou-me a amar as coisas simples do cotidiano. Só me esqueceu de dizer como é que estanco esta saudade.
"Porque ele tinha razão: o mundo termina quando já não somos capazes de o amar" (Mia Couto)

4 comentários:

Ana Carolina disse...

“Ter saudades é viver.
Não sei que vida é a minha
Que hoje só tenho saudades
De quando saudades tinha.
Passei longe pelo mundo.
Sou o que o mundo seu fez,
Mas guardo na alma da alma
Minha alma de português.
E o português é saudades.
Porque só as sente bem
Quem tem aquelas palavras
Para dizer que as tem”.
(Fernando Pessoa)

Adorei o texto, meu pai e Mia Couto, que dupla...
Beijos

Carlos Eduardo Leal disse...

Obrigado sempre pela tua sensível e delicada leitura da minha vida, filha. Te amo!
Bjinhos

luanar disse...

uma história maravilhosa, esta partilha. Obg! fez-me recordar o Eragon quando estava no país dos Elfos... fez-me recordar uma vida, vivida, como índio, cuja relação com a natureza é vivida desta forma; que saudade....

Eliete disse...

Carlos ,gostei muito do seu blog.Identifiquei que gostamos de alguns autores,como Mia Couto.Agora sempre que eu puder vou passar por aqui.Você esta convidado para aparecer no meu cantinho.um abraço