sábado, 14 de maio de 2011

Análise selvagem



Noutro dia recebi uma ligação para uma nova consulta. Do outro lado era uma voz um pouco estranha, ancestral. Qual não foi minha surpresa ao abrir a porta e me deparar com um chipanzé. Cabisbaixo, mãos arqueadas, falava pausadamente e chorava. Queixa principal: Não queria mais ser macaco e temia ser humano. Dúvida obsessiva, pensei. Tentei ligar para os céus, mas só dava ocupado (tempos de celular em abundância). Liguei para Darwin. Consegui de primeira. Andava meio esquecido.
Chi, como passei a chamá-lo, andava mesmo depressivo. Durante as sessões ficava quieto, mãos arqueadas sempre em balanço. Pensei ter me enganado de diagnóstico e que ele seria um autista. Mas, quando quis pensar isso em voz alta, me repreendeu dizendo que sua ancestralidade tinha muito o que me ensinar. Recolhi-me às minhas bananas literárias. Ele parecia sempre um passo à minha frente como se já soubesse do futuro que me aguardava. Era ele o meu futuro? Ou estava enganado sobre quem era o analista de quem? Interrogava-me sobre a continuidade de minha espécie e respondia-lhe que havíamos interrompido a evolução. Ele negativamente balançava a cabeça em claro sinal de reprovação. Notei que Chi, a cada sessão se irritava mais e mais. Lá pelo segundo mês decretou-me num chipanzês com largos tons de cipó que não aguentava mais tanta humanidade desperdiçada. Estava raivoso mesmo e descrente, não com a análise, mas com sua análise. Explico. Chi fazia uma análise de como nós, humanos-seres, nos portávamos depois de tantos anos que havíamos rompido com o elo da evolução e dado o salto fundamental de alguns poucos dnas a mais. "Não era justo", ele gritava aos saltos pendurado na minha estante onde estava a coleção de Freud. "Não era justo". Agora ele se pendurava na ideia humana de que estávamos regredindo, matando o planeta, secando e poluindo rios. "Não é justo. O que vocês fizeram em poucos anos depois de milhões de anos de evolução? Havíamos deixado tudo pronto para vocês. Havíamos deixado o solo, os rios, mares, as plantas comestíveis (e seus olhos pareciam delirar bananas), árvores boas de sombras e frutos. Não é justo" Ele gritou mais uma vez. Eu já estava amedrontado, queria chamar um psiquiatra ou veterinário, sei lá, quando ele deu um grito "Não é justo" e correu para a janela. Pensei, vai pular! Ele vai pular! Meu Deus, o que posso fazer? "Não é justo". Abriu a janela e deu de cara com a propaganda da Nike: 'Just do it'.
- O que é isto?
- Isto o quê?
- Isto aqui na frente da janela?
- Olhei timidamente e vi a velha propaganda colada num outdoor.
- Ah, é a marca de um tênis. Sorri amarelado como que querendo me desculpar.
- Just do it, ele repetiu num inglês britânico e sem sotaques.
- Quem te ensinou a falar assim?
- Foi meu tataravô.
- ?
- Charles Robert. Ele era biólogo e naturalista inglês. Ele ainda está vivo?
- Darwin? Não. Já morreu.
- E quem evoluiu depois dele.
- Ninguém, que eu saiba.
- Por isso vocês estão assim? Só chegaram ao "just do it"?
- É. É mais ou menos isso.
Chi bateu a porta com força e nunca mais voltou. Dois anos depois recebi um convite para o lançamento de um livro: "Tênis, como caminhar na evolução e não sair do lugar" O autor? O próprio Chi. No livro ele narrava o seu encontro com o que ele chamou de 'a grande experiência primitiva': a destruição do mundo pelo homem. Também descrevia como ele resolveu sua dúvida obsessiva preferindo manter-se como um chipanzé mesmo. No capítulo dedicado à eliminação deste sintoma, havia um agradecimento explicito a mim. No mais, nem uma palavra. Aliás, nunca mais o vi. Minha clínica nunca mais foi a mesma. Eu mesmo tenho agora sérias dúvidas se sou o mesmo. Muitas vezes me pego distraído balançando os braços pendidos ao longo do corpo como ele fazia no início de sua análise. Talvez pense que possa recomeçar o mundo de forma mais inteligente. Ou pior, talvez eu nem pense mais. O que poderia ser melhor, bem melhor. Sim, fazer como eles. Voltaríamos a ser animais. Reconstruiríamos o mundo. Não pensar mais...Bati forte no peito e grunhi:
Me, Carlos. You...?

12 comentários:

brunopsiufjf disse...

Caramba! Que bacana esse texto! Acho que se o Darwin lesse até se interessaria por Freud...hehe
Grande abraço,
Bruno Portes

ana clara disse...

Excelente...como sempre.Parabéns! Bjs!

Cris disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cris disse...

Eu também bato forte no peito et grito: Me, Cristiane. You...?

Lara Amaral disse...

Muito legal! Sempre uma experiência positiva te ler, tanto aqui como no facebook.

Beijo.

Renata Vilanova disse...

NOSSA...! Me limito a responder pendurada na estante, comendo uma banana. Incrível.

Giselly Guida disse...

Professor, adorei. Brilhante. Grandes beijos e parabéns.

Anne M. Moor disse...

Me, Vida. You ...?

Tbm adorei, mas estou comendo banana e não me fez parar de pensar! rsrsrsrs

beijão
Anne

Mariana disse...

Faltam palavras pra comentar o seu texto, e o que me vem é: Nossa!

Raquel Amarante disse...

rsrs
ADOREI!

Vivian C Vitorino disse...

Acho muito legal a forma como seus textos trazem questões tão interessantes e importantes sem, no entanto, trazer conclusões concretas. Desta forma seus textos nos fazem refletir e formar opiniões que apesar de estarem inundadas da sua presença não são você. Somos nós refletindo você através de nosso entendimento. Depois de termos lhe "digerido" e "filtrado" por nossos olhos e ouvidos. Enfim, é a parte de você que em nós e por nós pode fazer parte de algo mais e pode ser passada adiante e compartilhada com muitos outros.
Um abraço.

Sylvia disse...

Excelente! Reflexivo, questionador e com uma dose de humor!
Adorei