quarta-feira, 1 de abril de 2015

O Deserto dos Tártaros - Dino Buzatti

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Stand-by


Seco, duro, áspero e, no entanto, comovente, lírico até os confins da imaginação. Condição humana, demasiadamente humana para parafrasear Nietzsche. O Deserto dos Tártaros, livro de Dino Buzzati, é um libelo contra o ufanismo que muitos pretendem dar à vida como caráter salvacionista. Neste deserto a vida se apresenta como ela é para o jovem oficial Giovanni Drogo: um punhal feito de areia, pedras, miragens e esperanças que pouco a pouco vai sendo espetado em suas costas, fora do alcance da sua vista.
A história é sobre o jovem Drogo que, ao alistar-se no exército, é nomeado ‘por engano’ para servir no distante forte Bastiani. Ao chegar quer certificar-se do equívoco e o oficial que o recebe diz que se ele quiser, pode ir embora no dia seguinte com desonras ou ficar só mais quatro meses quando então viria o médico. Assim, poderia conseguir uma dispensa médica sem nenhum problema. Ele decide esperar pelos quatro meses. Ele também decide ou é contagiado, a esperar pela ‘eminente’ invasão dos Tártaros, um povo hostil que ficava além das longínquas fronteiras. E os quatro meses se transformam em oito e os meses se transformam em um ano, mais outro e ele não consegue ir embora. Fica ali em stand-by, como um aparelho pronto para funcionar, tal como os outros, aprisionados pelo fascínio da espera, pela honra de serem úteis para alguma coisa, para a guerra...que nunca chega.
Tudo o que ele vê se resume a esperanças, céus estrelados, esperanças, rochas frias, esperanças, areias, pedras angulares, noites geladas de inverno e dias que passam como uma nuvem pela sua vida regrada de servidão voluntária numa fortaleza no alto de uma montanha escarpada; na fronteira, à espera do inimigo que nunca vem. Vê esperanças na fronteira da vida, no limiar intransponível entre a vontade de lutar e a passividade da espera. Forte solitário: dizer isto é o paradoxo que compõe a vida do jovem oficial. Forte e solitário. Os dois, tanto o forte quanto o personagem principal são quase que esquecidos pelo resto da humanidade que ficou lá em baixo na cidade: os amigos, a família, enfim a sociedade viva e borbulhante. Entre os membros do forte apenas a dura rotina dos dias a esperar, feito os personagens Vladimir e Estragon da peça de Samuel Beckett, por um Godot que nunca vem. ‘Nada a fazer’ é a fala dos personagens de Beckett que poderia ser retomada pelo jovem oficial Drogo. Os Tártaros estão sempre por vir. Todos têm que ficar atentos. Metáfora ou alegoria sobre a vida? Estaria a vida também sempre por vir? Ilusão demasiada, que cega como a própria areia do deserto ou rigor realista que nos aprisiona em nossos castelos convictos que mais adiante virá a recompensa pelos esforços acumulados durante os anos de trabalho. Os Tártaros são o céu como recompensa por ter sido sempre fiel aos valores militares e à vida abnegada à qual se impôs? Freud, em seu texto O mal-estar na civilização, nos diz que a civilização exige renúncia pulsional em troca de felicidade. Mas o que vemos é que quanto mais renunciamos à condição humana, menos a felicidade é alcançável. É o antagonismo irremediável entre as exigências da pulsão e as restrições da civilização. A tristeza, a solidão, o desânimo e a depressão é o que temos encontrado nos fortes-solitários ao qual nos enclausuramos em baias (viramos animais?) no cotidiano de nossos dias. O que podemos fazer para que nossas vidas não sejam divididas, como disse Cândido, “entre as convulsões da inquietação e a letargia do tédio’ ou num ‘pântano dormente’, segundo Flaubert? E se a abnegação, dedicação e luta diárias não forem nada mais do que só isso? Uma aposta errada na direção onde a ilusão da miragem tropeça na sofreguidão da esperança. Leiam o livro e, por favor, sirvam-se da vida.
Dino Buzzati – O Deserto dos tártaros. Editora Nova Fronteira. Apresentação de Ugo Giorgetti.
Se você prezado(a) leitor(a) gosta de ouvir música enquanto lê, a dica de hoje é de uma única música, talvez inspirado pela aridez do deserto dos tártaros ou do Beckett: So in love, de Cole Porter, com gravação de K.D. Lang. Imperdível.

3 comentários:

Eliete disse...

Carlos, recentemente postei em meu blogue uma crônica de Affonso Romano Sant'Anna que fala sobre a espera e cita esse livro. Valeu ler sua postagem.

Marguerite Duras disse...

O forte Bastiani, com seus muros baixos e absolutamente vazio e desprovido de acontecimentos, ainda assim remete Drogo às doçuras da vida. O que mais me impressionou nessa solidão, na solidão desse lugar onde o soldado sem exercito permanece sem batalha, foi justamente essa doçura. Dia após dia, na espera eternizada

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Carlos, vou ler sua
postagem e voltarei para comentar.
Adorarei ve-lo la no
Espelhando.
Bjins
CatiahoAlc.