quarta-feira, 24 de setembro de 2014

O amante extremamente minucioso

  


"O amante extremamente minucioso" - Alberto Manguel,
Teorema Editora, Alfragide, Portugal, 2011.
Este livro é uma pequena grande joia rara. Uma obra prima para os amantes da literatura e da psicanálise.
Nunca a pulsão do olhar foi tão bem retratada: com seus recortes, suas minúcias, seu voyeurismo e sua procura obstinada por um amor do qual Anatole Vasenpaine (um caso verídico e longamente documentado em notas de rodapé) só tem um pedaço da mão fotografada por ele (era recepcionista numa casa de banhos pública, os famosos Bains-Duches. Ele só via os dedos e quando descobriu a máquina fotográfica ele olhava pelas frestas e fotografava narizes, bocas, ombros, seios, olhos, etc). Ele reconhece esta 'mão' enquanto andava displicentemente nas ruas de Poitiers, cidade da França e passa a persegui-la. Como um amante minucioso, ele dedica sua perseguição às últimas consequências. O perto-longe que a pulsão em sua deriva ocasiona coloca-o numa posição feminina diante deste outro. Esta outra pessoa que lhe é um enigma. Che Vuoi? O que quer o Outro do meu eu? O que quer o Outro de mim? Resposta: angústia. O sujeito se angustia diante da falta de resposta do Outro. Reconhecimento é tudo que Anatole Vasenpaine não teve e que agora busca sofregamente. Diante do fascínio do objeto a, este objeto que é um resto, mas que o enreda tanto, Anatole não é mais do que um amante-espectador do desejo do Outro. A angústia é um afeto que não engana. Então, o que é que engana nosso protagonista? Será que ele supõe que dos milhares de recortes de pedaços fotografados de pessoas ele consegue fazer uma pessoa inteira? Até onde ele será capaz de ir para reconstruir este labirinto de partes humanas?  
Naquela pequena cidade, como em várias outras, era difícil a vida após a primeira guerra mundial. Mas Anatole estava obcecado e nada mais importava do que o seu amor.  
Uma obra borgiana (como diz Esther Tusquels do El País) em que o mundo labiríntico de Vasenpeine se perde entre o impossível e o verossímil. Realidade ou ficção?

Um livro imperdível.  

2 comentários:

Anônimo disse...

Vou comprar. Resenha sedutora...
Bj
Adri.

Carla Cordovil disse...

MARAVILHOSO!!!!!